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André Barcinski

Moraes Moreira e os Novos Baianos ajudaram a inventar o pop brasileiro

André Barcinski

13/04/2020 14h13


A maneira mais sucinta e correta de descrever a importância dos Novos Baianos para o pop brasileiro é lembrar que, antes do grupo, o pop brasileiro praticamente não existia. E o que existia não era popular.

É fato que a Jovem Guarda fez sucesso comercial alguns anos antes, mas foi um fenômeno importado, que traduziu em português uma sonoridade vinda da Europa e dos Estados Unidos. Os Mutantes foram a primeira explosão de uma música pop autenticamente brasileira, mas hoje é fácil esquecer como o grupo era desconhecido na época. O público simplesmente não comprava seus discos.

Já a geração de Novos Baianos e outros gênios musicais, como Raul Seixas e Secos e Molhados, inventou, no início da década de 70, uma música pop verdadeiramente brasileira e popular, que abarcava influências externas enquanto promovia sua fusão com ritmos como baião, samba, xaxado e choro.

"Acabou Chorare" (1972), o segundo disco dos Novos Baianos, é uma espécie de marco zero dessa geração. Lançado um ano antes dos LPs de estreia de Raul Seixas e Secos e Molhados, misturava Hendrix e Assis Valente, Beatles e João Gilberto, Santana e Jacob do Bandolim.

O disco ajudou a quebrar uma barreira que existia entre a MPB cabeça, universitária e de protesto de Chico, Vandré e outros, e a música pop, considerada som de alienados e entreguistas (vale lembrar que, cinco anos, antes, Gilberto Gil e Elis Regina marcharam em São Paulo contra a guitarra elétrica, considerada símbolo de nossa submissão cultural).

E aqui estava um bando de baianos malucos e chapados, músicos e letristas excepcionais, mostrando que era possível fazer um disco que abria com um samba-exaltação de Assis Valente dos anos 1940 ("Brasil Pandeiro") para logo em seguida emendar numa modinha composta por Moraes Moreira e Galvão e decorada por um lindo solo de bandolim de Pepeu Gomes ("Preta Pretinha") e num acid-jazz-rock à Santana ("Tinindo Trincando"). Valia de tudo.

Outra lembrança importante: esses disco tão eclético e doido foi lançado pela Som Livre, braço fonográfico da TV Globo, o que mostra como as grandes gravadoras da época, comandadas por executivos como João Araújo e André Midani (Philips), que amavam música e respeitavam artistas, eram corajosas em suas escolhas artísticas.

Quando os Novos Baianos saíram da RGE, onde haviam gravado seu primeiro LP, "Ferro na Boneca" (1970), disseram para João Araújo, chefe da Som Livre (e pai de Cazuza), que só assinariam com o selo se tivessem total liberdade criativa. "João disse que podíamos gravar o que a gente quisesse, que ninguém ia meter a mão em nada", disse Pepeu Gomes. "E ele cumpriu a promessa". O resultado foi "Acabou Chorare".

Se Moraes Moreira tivesse encerrado a carreira depois de "Acabou Chorare", já teria garantido seu lugar na história da música brasileira. Mas ele fez muito mais: eletrificou o carnaval com "Pombo Correio" e "Festa do Interior", ajudou a popularizar o frevo, e lançou cerca de 35 discos que sempre reverenciaram a música brasileira de raiz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu sete livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental “História Secreta do Pop Brasileiro”.

Sobre o blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às terças-feiras.