Blog do Barcinski http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Mon, 10 Dec 2018 08:59:55 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 O blog vai dar um tempo http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/o-blog-vai-dar-um-tempo/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/o-blog-vai-dar-um-tempo/#respond Mon, 10 Dec 2018 08:59:55 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2925
Amigos,

É com um misto de tristeza e alegria que informo que interromperei o blog até, no mínimo, o fim de 2019.

Tristeza porque é um trabalho que adoro fazer, e alegria porque estou dando um tempo no blog para embarcar em dois imensos projetos audiovisuais, que me tomarão pelo menos dez meses.

Gostaria de agradecer a todos os leitores. Tenho a sorte de atrair os leitores mais interessados e interessantes. Os comentários de vocês são questionadores e informativos, e essa troca tem sido imensamente enriquecedora. Quem diz que seção de comentários é um poço de ignorância e ressentimento nunca entrou aqui no blog.

Agradeço ao UOL e ao grande Diego Assis, Editor-chefe de Entretenimento do portal, por toda a ajuda e apoio.

O blog não terminará, até para que o arquivo de textos continue disponível. Responderei a comentários até dia 14 de dezembro.

Um grande abraço e um ótimo fim de ano a todos.

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Um Sonic Youth vem ao Brasil falar sobre o clássico “Daydream Nation” http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/12/05/um-sonic-youth-vem-ao-brasil-falar-sobre-o-classico-daydream-nation/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/12/05/um-sonic-youth-vem-ao-brasil-falar-sobre-o-classico-daydream-nation/#respond Wed, 05 Dec 2018 08:59:50 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2921 Coincidência: escrevi outro dia sobre os 30 anos do lançamento do álbum “Daydream Nation”, do Sonic Youth (leia aqui), e esses dias soube que o ex-baterista da banda, Steve Shelley, vem ao Brasil para debates e exibições de filmes sobre o LP.

Shelley vem a São Paulo como parte da programação da Semana Internacional de Música (SIM SP). Serão duas sessões,, ambas no Cine Olido, seguidas de debates com Shelley e com o músico brasileiro Gustavo Riviera (Forgotten Boys/Riviera Gaz).

Além de cenas de arquivo da banda, trechos de dois filmes compõem a sessão comentada: “Put Blood in the Music” (1989), do diretor Charles Atlas, que fala sobre a sonoridade oitentista de Nova York, com foco especial em John Zorn e Sonic Youth, e “Daydream Nation”, do diretor Lance Bangs, que mostra cenas do show de 2007 em Glasgow, na Escócia, no qual o Sonic Youth tocou o álbum na íntegra.

Veja o Sonic Youth tocando “Silver Rocket” no filme-concerto “Daydream Nation”:

As sessões rolam sábado (8), às 19h, e domingo (9), às 18h, no Cine Olido (Av. São João, 473, Centro). E pode se preparar para encar uma fila: os eventos são gratuitos, com retirada de ingressos uma hora antes da sessão. Mas a espera valerá a pena. Não é qualquer dia que se pode ouvir Steve Shelley falando sobre um disco tão importante.

P.S.: Devido a um compromisso inesperado, não conseguirei escrever o texto de sexta. O blog volta segunda, dia 10. Um ótimo fim de semana a todos.

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Sai no Brasil a “Bíblia” do indie rock americano pré-Nirvana http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/12/03/sai-no-brasil-a-biblia-do-indie-rock-americano-pre-nirvana/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/12/03/sai-no-brasil-a-biblia-do-indie-rock-americano-pre-nirvana/#respond Mon, 03 Dec 2018 08:59:00 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2906

Do Texas, surgiu o Butthole Surfers

Quando o Nirvana desbancou Michael Jackson das paradas de discos, em 1991, muita gente achou que a banda surgira do nada. O público em geral nunca tinha ouvido falar do Nirvana ou da pequena gravadora que a havia descoberto, a Sub Pop, de Seattle (noroeste dos Estados Unidos).

Mas o sucesso do Nirvana não aconteceu num vácuo. Pelo menos dez anos antes do lançamento do LP “Nevermind”, começou a ser formada nos Estados Unidos uma ampla rede de gravadoras, fanzines, casas de shows e rádios alternativas, que davam suporte a centenas, milhares de bandas.

Em 2001, o jornalista estadunidense Michael Azerrad lançou um livro importante para entender esse movimento e a história do rock alternativo norte-americano pré-Nirvana: “Our Band Could Be Your Life – Notes from the American Indie Underground 1981-1991”, que finalmente sai no Brasil, com o título de “Nossa Banda Podia Ser Sua Vida” (editora Powerline Books & Music). O livro sai oficialmente dia 6 de dezembro, mas já está rolando uma pré-venda.

“Nossa Banda Podia Ser Sua Vida” é dividido em 13 capítulos, contando as histórias de 13 bandas fundamentais:

– Black Flag
– The Minutemen
– Mission of Burma
– Minor Threat
– Hüsker Dü
– The Replacements
– Sonic Youth
– Butthole Surfers
– Big Black
– Dinosaur Jr.
– Fugazi
– Mudhoney
– Beat Happening

Azerrad é um dos principais jornalistas musicais dos Estados Unidos, com passagens por revistas como “Rolling Stone” e “Spin”, e autor de uma ótima biografia do Nirvana, “Come As You Are”.

O jornalista Michael Azerrad

Em “Nossa Banda Podia ser Sua Vida” – frase tirada de uma canção do The Minutemen – Azerrad faz um excelente trabalho jornalístico, contando a formação de cada banda e de suas respectivas cenas.

Ele viaja da costa leste do país, com Sonic Youth e Minor Threat, à oeste, com The Minutemen, Black Flag e Mudhoney, passando pelo meio-oeste, casa de Big Black, Hüsker Dü e Replacements,e pelo centro-sul, com os texanos do Butthole Surfers.

O Mission of Burma é desconhecido do grande público, mas influenciou Pixies, R.E.M. e muitos outros

A impressão é de que, no início dos anos 80, havia um movimento alternativo por todo o país. Foi um período de idealismo e empreendedorismo, quando jovens criaram gravadoras em garagens e começaram a fazer fanzines e programas de rádios, com o objetivo de divulgar a música que não viam na MTV e não ouviam nas grandes emissoras.

Azerrad diz que teve a ideia de fazer o livro ao assistir na TV a um documentário sobre a história do rock, em que a cronologia pulava do Talking Heads diretamente para o Nirvana, ignorando tudo que surgira entre o fim dos anos 70 e o início dos 90.

Este livro coloca bandas pioneiras e pouco conhecidas, como Mission of Burma e Big Black, em seus devidos lugares: como nomes cruciais de uma cena musical das mais ricas.

Azerrad virá ao Brasil para o lançamento e participa de dois eventos dentro do SIM SP (Semana Internacional de Música de São Paulo): no dia 6 de dezembro, às 13h30, no Centro Cultural São Paulo – Sala Paulo Emílio, faz um debate com Steve Shelley (Sonic Youth), Dago Donato e Raquel Francese, e no dia seguinte, às 18h, no Centro Cultural São Paulo – Jardim Sul, autografa o livro.

Não será a primeira vez que Azerrad vem ao Brasil. Em 2008, eu o trouxe para um festival que ajudei a produzir, e que teve shows de Melvins e The Hives. Azerrad participou de um debate com integrantes do Melvins, que brincaram com ele, reclamando da ausência da banda no livro. Azerrad se desculpou: “Vocês têm toda razão. Não colocar o Melvins foi um erro imperdoável”.

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Os melhores filmes de Roeg e Bertolucci, gigantes do cinema http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/30/os-melhores-filmes-de-roeg-e-bertolucci-gigantes-do-cinema/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/30/os-melhores-filmes-de-roeg-e-bertolucci-gigantes-do-cinema/#respond Fri, 30 Nov 2018 08:59:08 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2884 Semaninha triste para o cinema: dia 23 morreu o cineasta britânico Nicolas Roeg, 90; três dias depois, morreu o italiano Bernardo Bertolucci, 77.

Aqui vai uma lista de meus cinco filmes prediletos de cada um deles (e antes que alguém reclame: não incluí “O Último Tango em Paris” porque acho que envelheceu mal demais).

Em ordem cronológica:

NICOLAS ROEG

Performance (1970)
Icônico e estranho filme de gângster passado em plena efervescência da “Swinging London”, em que James Fox (não “Jamie Foxx”, por favor) faz um meliante jurado de morte que se refugia na casa de um rockstar, vivido por Mick Jagger. Filmado em 1968, só foi lançado dois anos depois porque o estúdio ficou com medo da reação do público ao sexo e violência do filme.

Walkabout (1971)
Um homem sai de seu apartamento confortável numa cidade grande australiana e, sem razão aparente, leva os dois filhos para o meio do deserto e tanta matá-los. As crianças sobrevivem e são resgatadas por um menino aborígene, que tenta levá-las de volta à “civilização”. Um de meus filmes prediletos.

Inverno de Sangue em Veneza (1973)
Inspirado num conto de Daphne Du Maurier – cujas obras foram adaptadas por Hitchcock em “Rebecca” e “os Pássaros” – é um clássico do terror psicológico sobre um casal (Donald Sutherland e Julie Christie) que, em viagem de trabalho a Veneza, é assombrado por imagens e lembranças da filha, que morrera afogada num riacho.

Eureka (1983)
Gene Hackman faz um explorador dos anos 1920 que encontra, literalmente, uma montanha de ouro. Ele se torna o homem mais rico do mundo, mas se desespera quando a filha (a sensacional Theresa Russell) cai de amores por um misterioso oportunista, vivido por Rutger Hauer. O filme é um delírio lisérgico à Jodorowsky, com algumas das cenas mais bonitas que já vi num filme.

A Convenção das Bruxas (1990)
Verdadeiro clássico da “Sessão da Tarde”, esse filme infantil é baseado num romance divertidíssimo de Roald Dahl (autor de “A Fantástica Fábrica de Chocolate”) e conta a história de um menino que viaja com a avó para um hotel na Noruega, onde se depara com uma convenção de feiticeiras lideradas pela diabólica Anjelica Huston. Roeg e Dahl dividiam o gosto pelo macabro e o humor negro.

BERNARDO BERTOLUCCI

Antes da Revolução (1962)
Nos anos 60, uma geração de cineastas italianos retomou os tons políticos do neorrealismo, mas com uma visão mais poética e menos panfletária. Artistas como Pasolini, Olmi, Bellochio e Bertolucci criaram histórias de personagens perdidos em meio a conflitos geracionais, sociais, sexuais e políticos. “Antes da Revolução” é um dos grandes filmes daquela safra, uma história centrada na história de um estudante que desconfia que seu melhor amigo cometeu suicídio.

O Conformista (1970)

Jean-Louis Trintignant faz Marcello, um assassino de aluguel ligado à polícia fascista na década de 1930. Por meio de “flashbacks”, Bertolucci conta a história desse personagem, um homem incapaz de sentir culpa por seus crimes e que deixou sua humanidade perdida em algum canto da burocracia estatal. É um dos grandes filmes do cinema político italiano e traz uma cena antológica de assassinato numa floresta. De quebra, tem Stefania Sandrelli no elenco.

A Estratégia da Aranha (1970)
Um filme estranho e fascinante, baseado num conto de Borges, sobre um homem que volta à pequena cidade onde nasceu para tentar solucionar o mistério da morte do pai, que muitos consideram um herói anti-fascista.

O Último Imperador (1987)
Maior sucesso de crítica e público da carreira de Bertolucci, esse épico sobre a vida de Puyi, último imperador da China, ganhou nove Oscars e quatro Globos de Ouro. Destaque para a linda fotografia de Vittorio Storaro e a direção de arte.

Assédio (1998)
Pouca gente viu o último grande filme de Bertolucci, sobre um excêntrico pianista (David Thewlis) que se apaixona pela empregada (Thandie Newton), uma africana que fugiu para a Europa depois da prisão do marido, um ativista político.

Um maravilhoso fim de semana a todos.

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Elvis ‘roubou’ de artistas negros? Little Richard e B.B. King respondem… http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/28/elvis-roubou-de-artistas-negros-little-richard-e-b-b-king-respondem/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/28/elvis-roubou-de-artistas-negros-little-richard-e-b-b-king-respondem/#respond Wed, 28 Nov 2018 08:59:39 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2894

Dois reis: Elvis Presley e B.B. King

Em entrevista à radio Jovem Pan, a cantora Negra Li disse que o surgimento de Elvis Presley tirou o espaço de artistas negros. Disse a cantora: “Muitas vozes foram tapadas quando Elvis surgiu (…) Disseram: ‘vamos apresentar esse cara branco, com uma voz negra e com um ritmo negro’”.

É fato que o homem que lançou os primeiros discos de Elvis, Sam Phillips, disse: “Se eu encontrasse um homem branco que tivesse o som negro e o sentimento negro, eu faria um milhão de dólares”. E esse homem, claro, foi Elvis.

Por outro lado, dizer que Elvis tirou espaço de artistas negros é questionável. Muitos acham que ele, ao popularizar o rock, ajudou muitos artistas negros a venderem mais discos.

Vale lembrar que Elvis sempre fez questão de falar de suas influências e elogiar os pioneiros do blues, gospel, r&b e da música country – muitos deles negros.

Disse Elvis Presley: “Muita gente diz que eu comecei o rock, mas o rock’n’roll já existia muito antes de eu aparecer. Ninguém consegue cantar essa música como os negros. Vamos falar a verdade: eu não consigo cantar como Fats Domino. Eu sei disso.”

Acho que nenhuma discussão sobre o assunto seria completa sem a opinião de artistas negros contemporâneos de Elvis. Vamos lembrar o que disseram alguns deles:

Little Richard
“Elvis foi um integrador, Elvis foi uma bênção. Eles não deixavam a música negra aparecer, e ele abriu as portas para a música negra.”

Rufus Thomas
“Muita gente disse que Elvis roubou nossa música. Roubou a música do homem negro. Mas o homem negro, o homem branco, não são donos da música. A música pertence ao universo.”

Jackie Wilson
“Muita gente acusou Elvis de roubar a música dos negros, quando na verdade, quase todos os intérpretes negros copiaram os trejeitos de palco de Elvis.”

B.B. King
“Lembro de ver Elvis bem jovem, nos estúdios da Sun Records. Naquela época eu já sabia que aquele menino tinha um grande talento. Ele era um menino dinâmico. A maneira como ele cantava, sua maneira de interpretar uma canção, era tão única quanto Sinatra. Eu era um grande fã e, se Elvis tivesse vivido mais, não haveria limites para sua inventividade.”

Al Green
“Elvis influenciou todo mundo. Ele quebrou o gelo para todos nós.”

Bo Diddley
“Se Elvis me copiou, não ligo. Força pra ele. Eu não estou passando fome.”

Sammy Davis Jr.
“Numa escala de um a dez, eu lhe daria onze!”

James Brown
“Eu amava Elvis e espero vê-lo no Céu. Nunca vai haver outro ‘soul brother’ como ele.”

Chuck Berry
“Descrever Elvis? Ele foi o maior que já existiu, ou que existirá.”

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Ator de “Game of Thrones” faz Hervé, o anão mais alucinado da TV http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/26/ator-de-game-of-thrones-faz-herve-o-anao-mais-alucinado-da-tv/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/26/ator-de-game-of-thrones-faz-herve-o-anao-mais-alucinado-da-tv/#respond Mon, 26 Nov 2018 08:59:32 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2877 A HBO 2 exibe hoje,às 22h, “Meu Jantar com Hervé” (veja horários alternativos aqui), um drama sobre a vida trágica de Hervé Villechaize, o ator anão que interpretou o personagem Tattoo na série “Ilha da Fantasia” (1977-1984).

O filme foi dirigido pelo inglês Sacha Gervasi e inspirado por uma entrevista que ele fez com Villechaize em 1993, dias antes da morte do ator.

Villechaize é interpretado por Peter Dinklage, de “Game of Thrones”. O filme levou cerca de 15 anos para ser feito. Gervasi e Dinklage levaram o roteiro para vários estúdios, mas o projeto só saiu do papel depois do estouro de “Game of Thrones”.

“Meu Jantar com Hervé” não é um filme ruim, mas a história de Villechaize merecia um tratamento mais criativo. O roteiro, escrito pelo próprio Gervasi, é bastante esquemático e inventa o personagem de um jornalista inglês, Danny Tate (Jamie Dornan) que divide o protagonismo com Villechaize. O problema é que a vida de Hervé Villechaize é tão interessante e caótica que ninguém vai se interessar pelo que acontece com o jornalista. Seus dramas pessoais são fichinha perto da tragédia que foi a vida de Hervé.

O verdadeiro Hervé Villechaize (esq.) e Peter Dinklage interpretando o ator

Nascido em Paris em 1943, em meio à Segunda Guerra Mundial, Hervé foi diagnosticado com um tipo de nanismo e renegado pela mãe, que passou a tratá-lo com desprezo. O pai, ao contrário, fez de tudo para tentar “reverter” a condição do filho, incluindo tratamentos bizarros à base de injeções de medula de ovelha na espinha.

Vítima de “bullying” na escola e na rua, Hervé buscou refúgio nas artes e virou pintor. Quando sua carreira parecia que iria decolar, decidiu mudar para Nova York, e em 1964 caiu no meio da efervescência “beatnik” do Greenwich Village. Decidiu ser ator.

Sua grande chance veio em 1974, quando ganhou o papel do bandido Nick Nack em “007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro” , em que contracenou com Roger Moore. Três anos depois, veio seu papel mais famoso: o de Tattoo, o assistente do misterioso Sr. Roarke (Ricardo Montalbán) em “A Ilha da Fantasia”. Villechaize ficou famoso no mundo inteiro pelo grito na abertura da série: “O avião! O avião!”.

Villechaize gostava de mulheres, drogas e álcool, e não era o tipo de economizar grana para tempos difíceis. Na época de “A Ilha da Fantasia”, tinha um dos maiores salários da TV norte-americana, mas torrou quase tudo em orgias e festas. Depois de ser expulso da série por seguidas brigas com Ricardo Montalbán, nunca mais conseguiu levantar a carreira.

“Meu Jantar com Hervé” concentra o encontro do jornalista Danny Tate e de Hervé Villechaize em uma única noite de drogas e bebedeiras, quando o ator leva o repórter para um passeio de limusine por Los Angeles e conta sua história. O artifício de unir os personagens numa situação estranha e usá-la para relatar o passado de um deles não é exatamente novo, e as confissões de Villechaize soam um pouco forçadas e melodramáticas. Mas a história é tão boa que supera a dramaturgia meia boca. E Peter Dinklage mostra que é um ótimo ator.

P.S.: Esse texto já estava programado quando eu soube das mortes dos grandes cineastas Nicolas Roeg e Bernardo Bertolucci. Quarta-feira publico um texto especial sobre suas obras. Até lá.

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“Meru”: a obsessão de um alpinista por um dos picos mais difíceis do mundo http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/23/meru-a-obsessao-de-um-alpinista-por-um-dos-picos-mais-dificeis-do-mundo/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/23/meru-a-obsessao-de-um-alpinista-por-um-dos-picos-mais-dificeis-do-mundo/#respond Fri, 23 Nov 2018 08:59:58 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2873 Se você gosta de grandes histórias sobre esportistas desafiando a natureza, não deixe de ver “Meru”, na Netflix. É um dos grandes documentários de aventura dos últimos tempos.

“Meru” conta a história do alpinista estadunidense Conrad Anker e sua obsessão em conquistar a “Barbatana de Tubarão”, como é conhecido o paredão de pedra que leva ao pico central da montanha Meru, no norte da Índia.

O Meru está longe de ser uma das montanhas mais altas do mundo – tem 6600 metros, enquanto existem 14 picos com mais de 8 mil metros – mas é uma das mais difíceis de escalar.

A montanha tem três picos. O central é o mais baixo (6310 metros), mas o de maior dificuldade para escaladores. O trecho final termina numa parede lisa de 500 metros de altura, um dos maiores desafios do alpinismo no mundo.

Desde 1986, quando o lendário montanhista Terry “Mugs” Stump fez a primeira tentativa de atingir o pico central pela “Barbatana do Tubarão”, o Meru nunca fora conquistado por essa rota.

Stump era o mentor de Conrad Anker e morreu em 1992, ao cair durante uma escalada ao pico Denali, nos Estados Unidos. Anker prometeu que conquistaria o Meru em homenagem a Stump.

Anker é outra lenda do alpinismo. Em 1999, participou de uma expedição para encontrar os restos mortais de George Mallory, o alpinista inglês que morrera em 1924 ao escalar o Everest. Foi Anker que encontrou, 75 anos depois, o corpo de Mallory, preservado pelo gelo.

Veja aqui um trecho de um documentário da BBC que mostra o instante em que Anker encontra um corpo no gelo. E tente não chorar, a 5:06, quando a equipe encontra uma etiqueta com a identificação do morto: “Meu Deus! É George Mallory!”

“Meru” acompanha Anker em duas tentativas de subir a “Barbatana do Tubarão”. Em 2008, ele e os parceiros Jimmy Chin e Renan Ozturk fizeram a primeira incursão, mas desistiram a menos de 150 metros do cume.

Na segunda… Bom, veja o filme, que não vou estragar a surpresa.

“Meru” tem algumas das cenas de alpinismo mais impressionantes que já vi. Filmadas por Chin e Ozturk, dois grandes cinegrafistas de montanhas, o filme traz imagens que parecem feitas em computador, de tão absurdas.

Há uma sequência mostrando uma avalanche, que tive de rever quatro ou cinco vezes para acreditar. Nem em filme hollywodiano há nada parecido. E as histórias pessoais de Anker, Chin e Ozturk também são coisa de cinema.

Um ótimo fim de semana a todos.

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“Discos-Fantasmas”: a gambiarra que sustentou nossas gravadoras http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/21/discos-fantasmas-a-gambiarra-que-sustentou-nossas-gravadoras/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/21/discos-fantasmas-a-gambiarra-que-sustentou-nossas-gravadoras/#respond Wed, 21 Nov 2018 08:59:36 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2860 Você pode ter um “disco-fantasma” em casa e não saber.

Faça o teste: vá à estante e procure aquele vinil velho, geralmente uma coletânea de sucessos, e tente encontrar os créditos dos músicos. Se não encontrar, é boa a chance de o LP ser um autêntico “fantasma”, um disco de covers gravados por músicos anônimos.

O anonimato dos músicos não significa que eles não fossem famosos. Pelo contrário: no Brasil e no exterior, muitos “discos-fantasmas” foram gravados por músicos conhecidos.

Lá fora, nomes como Elton John, Isaac Hayes, Phil Lynott e Leon Russell, todos em início de carreira, gravaram LPs com versões de músicas de sucesso.

No Brasil, integrantes de bandas como The Fevers e Roupa Nova também faturavam como músicos de estúdio, sem receber créditos nos discos.

Quando uma gravadora queria lançar uma canção de algum artista de outro selo, a solução mais fácil e barata era gravar uma versão. Na segunda metade dos anos 1970, com o mercado do disco em expansão e cada vez mais competitivo, a indústria dos covers proliferou.

Não foram só as gravadoras menores que apelaram a eles, mas as multinacionais também. A Odeon lançou a série “Década Explosiva Romântica”, em que o grupo The Fevers tocava – sem créditos, claro – versões de “Bridge Over Troubled Water” (Simon & Garfunkel), “My Sweet Lord” (George Harrison), “Skyline Pigeon” (Elton John) e “Hey Jude” (Beatles). A Polygram atacou com a série “Festa de Sucessos”, com versões de “You Are the Sunshine of My Life” (Stevie Wonder), “Why Can’t We Live Together” (Timmy Thomas) e “Oh, Girl” (The Chi-Lites).

Até a Som Livre, selo da Globo, passou anos faturando em cima de sucessos de outras gravadoras, como prova a série “Superparada – Sucessos Internacionais nas Paradas de Todo o Brasil”, que trazia versões de hits como “Horse With No Name” (America), “You’re a Lady” (Peter Skellern) e “The First Time I Saw Your Face” (Roberta Flack).

A qualidade das gravações variava enormemente. Algumas eram fiéis às originais, com bons arranjos e vocais em inglês correto; outras eram cantadas em puro “embromation”. As séries “Premier Mundial” [sic] e “Superexplosão Mundial”, da gravadora cid/Square, pareciam ter sido gravadas no fundo de uma caverna por cantores que estudaram inglês com o técnico Joel Santana.

Lançar um disco de covers era um excelente negócio: os músicos de estúdio recebiam cachês fixos, sem direitos autorais, e o custo de produção do álbum era baixíssimo.

Quando a Polydor lançou o LP com a trilha sonora do filme “Grease – Nos Tempos da Brilhantina” (1978), pelo menos três discos de covers chegaram às lojas brasileiras ao mesmo tempo. Um deles, lançado pela RGE, não trazia nenhuma informação sobre os músicos, a não ser um nome claramente inventado: The Fantastic Soundtrack Band.

O LP “Grease” gravado por The Fantastic Soundtrack Band. Quem?

Outro LP, do obscuro selo Aladdin, ligado à gravadora K-Tel, tinha um desenho tosco na capa, imitando John Travolta e Olivia Newton-John, e trazia versões produzidas pela gravadora alemã Countdown, especializada em covers. “Existiam muitas empresas na Europa e nos Estados Unidos, como a Countdown, a Odissey e a PPX, que só vendiam covers”, conta Hélio Costa Manso, que foi executivo da RGE e Som Livre. “Você comprava um cover por 200 dólares. Elas vendiam as músicas com vocal ou sem vocal, caso você quisesse gravar os vocais em português e incluir na música. Era fantástico.”

WANDO FEZ COVER DELE MESMO

Muitos grupos da época da Jovem Guarda se especializaram em covers. Integrantes dos Fevers e do Renato & Seus Blue Caps fundaram o Big Seven, banda instrumental que lançou a série de LPs “Os Sucessos num Super Embalo”. Já Os Super Quentes, formado por membros dos Golden Boys, dos Fevers, do Trio Esperança e do Renato & Seus Blue Caps, lançou dez discos de versões em uma série chamada “Os Super Quentes e os Sucessos”.

As gravadoras brasileiras não lançavam só covers em inglês, mas também em português. A partir do fim da década de 1960, houve uma enxurrada de lançamentos com versões de músicas brasileiras de sucesso, em que músicos de estúdio imitavam artistas famosos. Esses discos tinham títulos genéricos, como “O Melhor de 1979” ou “Sertanejo Bom Demais”, e traziam na capa os nomes das músicas e dos artistas que as tinham gravado originalmente, sem dizer que eram versões.

O público também não percebia que se tratava de covers. Dono de um talento sobrenatural para imitar vozes, Raul Carezzato, cantor do grupo paulistano Os Carbonos (o nome veio justamente da qualidade de suas versões), gravou sucessos de Paulinho da Viola, Benito Di Paula, Wilson Simonal, Jair Rodrigues, Ronnie Von e até Johnny Rivers; Dudu França imitou Sidney Magal; e o sertanejo Fabiano se especializou em copiar duplas como Tonico e Tinoco e Milionário e José Rico.

O caso mais curioso é o de Wando, que gravou um cover de si mesmo: “Ele precisava de uma grana e topou gravar suas próprias músicas para um disco de versões”, revela Antonio Paladino, produtor que trabalhou na RGE e Som Livre.

ÁGUA-VIVA: UMA OBRA-PRIMA DO “DISCO-FANTASMA”

Em 4 de fevereiro de 1980, a TV Globo estreava a novela “Água Viva”. Escrita por Gilberto Braga e Manoel Carlos e dirigida por Roberto Talma e Paulo Ubiratan, tinha no elenco Betty Faria, Reginaldo Faria, Raul Cortez, Lucélia Santos, Beatriz Segall, Tônia Carrero, José Lewgoy e Fábio Jr. A trilha sonora nacional, lançada pela Som Livre, trazia sucessos como “Menino do Rio” (Baby Consuelo), “Realce” (Gilberto Gil), “Grito de Alerta” (Maria Bethânia), “Desesperar, Jamais” (Simone), “Amor, meu Grande Amor” (Ângela Rô Rô), “Noites Cariocas” (Gal Costa), “Altos e Baixos” (Elis Regina) e “Vinte e Poucos Anos” (Fábio Jr.). A seleção de músicas havia sido feita por Lulu Santos, ou melhor, Lulu dos Santos, como dizia a contracapa do LP.

O disco com a trilha internacional também trazia uma forte seleção, marcada pela discoteca, gênero que ainda reinava no país. Misturava faixas dançantes – como “D.i.s.c.o.” (Ottawan), “Love I Need” (Jimmy Cliff), “The Second Time Around” (Shalamar) e “Mandolay” (La Flavour) – a baladas românticas, como “Babe” (Styx), “Ships” (Barry Manilow), “Just Like You Do” (Carly Simon) e “Memories” (Bianchi). Imagens de uma vela de windsurfe e de praticantes do esporte ilustravam a capa e a contracapa do LP internacional, criadas por Hans Donner, o designer austríaco responsável pelo logotipo da TV Globo.

O disco da Som Livre

Na semana de lançamento do LP internacional de “Água Viva”, um disco parecido chegou às lojas. Não era da Som Livre, mas da Continental. “Água Viva – Temas Internacionais da Novela” trazia na capa a foto de um sujeito praticando windsurfe e tinha um repertório idêntico ao do LP da Som Livre: Ottawan, Jimmy Cliff, Barry Manilow, Carly Simon… As versões, no entanto, não eram originais. Escondida no canto da capa, em fonte pequena, constava esta palavra: “covers”. Não demorou muito para que o disco chamasse a atenção da Som Livre, e uma cópia chegou às mãos do então diretor da gravadora, Hélio Costa Manso. Ao constatar a qualidade das versões, ele não teve dúvidas: aquilo só podia ser obra dos Carbonos.

O disco “cover” da Continental

Hélio conhecia muito bem Os Carbonos. Dois anos antes, produzira, na própria Som Livre, um medley de músicas dos Bee Gees para a trilha da novela “Dancin’ Days”, cantado pelo grupo vocal Harmony Cats e tocado pelos Carbonos. Na época, muita gente ficou impressionada com a semelhança entre a gravação dos Carbonos e as músicas originais dos Bee Gees (cujos discos saíram no Brasil pela Polygram). Agora, a Som Livre experimentava o seu próprio veneno.

O “Água Viva” da Continental era tão bem gravado que começou a prejudicar a venda do LP da Som Livre. O público não distinguia a versão do original. Muita gente chegava à loja, pedia o “disco da novela” e saía de lá, feliz da vida, com a versão cover. A Som Livre reagiu e ameaçou excluir os artistas da Continental dos programas da Globo caso o disco não fosse retirado do mercado. Assustada, a Continental suspendeu as vendas de sua versão de “Água Viva”. Hoje, o LP é uma raridade disputada no mercado de discos usados.

Os Carbonos: uma das melhores bandas brasileiras de “covers”

Quando mostrei a capa do LP “Água Viva – Temas Internacionais da Novela” para Beto Carezzato, baixista dos Carbonos, ele riu e disse: “É, acho que participamos desse estelionato!”.

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Como o Blondie saiu do underground para as paradas de sucesso http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/14/como-o-blondie-saiu-do-underground-para-as-paradas-de-sucesso/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/14/como-o-blondie-saiu-do-underground-para-as-paradas-de-sucesso/#respond Wed, 14 Nov 2018 08:59:58 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2848 Dia 15, o público brasileiro terá a primeira e única chance de ver uma banda histórica: o Blondie. O grupo se apresenta com At the Drive-In, Lorde, MGMT, Death Cab for Cutie e outras no Popload Festival, no Memorial da América Latina, em São Paulo.

Hoje todo mundo conhece o Blondie como um campeão de vendas, uma banda que conseguiu escapar do gueto do punk para se tornar uma grande vendedora de discos dos anos 80. “Heart of Glass”, “Rapture”, “Call Me”, “Atomic” e tantas outras canções fazem parte da programação de qualquer rádio de classic rock.

Mas nem sempre foi assim.

Quando surgiu, no fim dos anos 70, o Blondie fez parte de uma cena musical que floresceu na decadência. No caso, na decadência de uma cidade: Nova York.

Naquela época, Nova York era um esgoto. As ruas eram imundas e habitadas por todo tipo de degenerados. O Central Park era um parque de diversões de heroinômanos e pervertidos. A parte sul da ilha de Manhattan estava completamente dilapidada. Prédios abandonados foram invadidos por squatters. Putas e traficantes dominavam o pedaço. Donos de prédios abandonaram suas propriedades ou os alugaram por uma ninharia. Isso atraiu milhares de jovens de todo o país, que fugiam de suas tediosas vidinhas suburbanas e buscavam um local onde pudessem ser livres.

Uma dessas jovens foi Debbie Harry. Nascida Angela Tremble em 1º de julho de 1945, em Miami, na Flórida, foi adotada aos três meses de idade por Richard e Catherine Harry. Os pais adotivos mudaram o nome de Angela e a levaram para morar em New Jersey, na costa leste dos Estados Unidos.

Debbie foi testemunha do surgimento do rock’n’roll, em meados dos anos 1950. Era fã de Elvis e, depois, dos Beatles. Chegou a Nova York no início da década de 1960, quando Bob Dylan surgia nos pequenos clubes de folk de Greenwich Village. Amava o som dançante e festivo das “girl groups” como Ronettes e Supremes, que inspirariam a criação do Blondie, em 1974.

Em Nova York, Debbie presenciou o auge do teatro de vanguarda, a explosão da cena gay com a revolta de Stonewall, o cinema underground, o grafite que deu origem a pintores como Basquiat, as festas de black music que impulsionaram a disco music e o hip hop. Ela fez parte de uma cena musical das mais ecléticas, radicais e transgressoras, que incluía o rock andrógino do New York Dolls, os experimentos eletrônicos do Suicide, o rock poético de Patti Smith, as jams do Television, o minimalismo barulhento dos Ramones, o funk branco do Talking Heads, o noise de Lydia Lunch e James Chance, e muitos outros.

Esses artistas buscavam inspiração no passado, mas conseguiram criar algo novo, que refletia a urgência, o inconformismo e o antagonismo típicos dos nova-iorquinos. Foi nesse ambiente de anarquia e ecletismo que nasceu o Blondie, a banda mais importante e de maior sucesso comercial da new wave.

DO PUNK AO POP

O pessoal do Blondie adorava o barulho dos Ramones e as experimentações do Talking Heads, mas gostava mesmo era do pop americano dos anos 60, especialmente de Phil Spector e suas girl groups, como as Ronettes.

Desde o início, Chris Stein e Debbie Harry, o casal que liderava o Blondie, tentava fazer um pop adulto, que fosse atrativo para as rádios e ao mesmo tempo não se limitasse aos temas corriqueiros e ingênuos da música de FM. Tanto que a primeira canção gravada pela banda, “X-Offender”, de 1976, falava de uma prostituta que era presa pela polícia.

Os dois primeiros discos do grupo – “Blondie” (1976) e “Plastic Letters” (1978) – fizeram relativo sucesso, mas a gravadora Chrysalis queria mais. O selo convenceu o Blondie a usar, no terceiro disco, o produtor australiano Mike Chapman, uma verdadeira máquina de hits que havia produzindo discos de Sweet, Mud e Suzi Quatro, entre muitos outros.

Com Chapman a bordo, a equação de forças na banda mudou. Chris Stein e Debbie Harry continuavam os líderes, mas tiveram de obedecer aos comandos do produtor, que sonhava em transformar aquela talentosa banda, até então mais conhecida na cena alternativa americana, em sucesso mundial.

Pouco a pouco, Chapman foi tornando o som do Blondie mais palatável ao mainstream. Ele tornou os timbres de guitarras menos agressivos, dobrou e até triplicou os canais com a voz de Debbie Harry e usou os teclados de Jimmy Destri para polir ainda mais o som.

A banda, a princípio, não gostou, mas quando começou a ouvir o resultado das primeiras gravações, mudou de ideia.

O grande trunfo de Chapman foi ter percebido o potencial de uma velha canção do grupo, até então inédita, chamada “Heart of Glass”. A música havia sido composta em 1974 por Debbie e Chris e chegou a ser gravada numa versão demo, em 1975, com o título “Once I Had a Love”, chamada pela banda de “A Canção de Discoteca”. Debbie disse que a banda nunca conseguiu decidir se a música era uma balada ou um reggae, e acabaram deixando-a de lado.

Quando Chapman ouviu a canção, decidiu transformá-la numa acelerada discoteca, aproveitando a onda disco que tomava o mundo de assalto com “Os Embalos de Sábado à Noite”.

O resultado? Vinte milhões de discos vendidos e uma das canções eternas do pop. Que, é bom lembrar, era a quarta música do lado B de “Parallel Lines”.

Um ótimo show e um ótimo feriadão a todos. O blog volta quarta, dia 21.

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Como Pixies e Sonic Youth ajudaram a tirar o rock do “gueto” indie http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/12/como-pixies-e-sonic-youth-ajudaram-a-tirar-o-rock-do-gueto-indie/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/11/12/como-pixies-e-sonic-youth-ajudaram-a-tirar-o-rock-do-gueto-indie/#respond Mon, 12 Nov 2018 09:50:22 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2835

Pixies em 1988

Dois álbuns clássicos do indie rock fizeram 30 anos: “Daydream Nation”, do Sonic Youth, e “Surfer Rosa”, do Pixies.

Lançados em 1988, os dois discos, cada qual à sua maneira, traziam elementos que resumiam o rock alternativo da época e apontavam caminhos para a popularização da cena alternativa, o que aconteceria com força três anos depois, com o lançamento de “Nevermind”, do Nirvana.

Basicamente, são discos que anunciavam o fim de uma era de ortodoxia da cena indie e o início de um período em que bandas buscavam públicos mais amplos e sonoridades mais ecléticas.

“Daydream Nation” foi o quinto álbum do Sonic Youth. Apesar de trazer elementos do noise rock da banda, era um disco muito mais palatável e “comercial” do que os primeiros lançamentos do grupo.

“Surfer Rosa” foi o LP de estreia do Pixies. Produzido pelo iconoclasta Steve Albini, o disco misturava letras estranhas sobre mutilação e insanidade a um som que, se não era exatamente pop, não estava muito longe disso.

Nenhum dos dois discos fez grande sucesso comercial, mas os dois abriram as portas da indústria musical para um tipo de som até então restrito a rádios universitárias e revistas especializadas na cena alternativa.

Depois de “Daydream Nation” e “Surfer Rosa”, a grande mídia passou a acompanhar mais de perto os lançamentos de rock alternativo, e as gravadoras “majors” passaram a ver aquela cena com outros olhos.

Quando o Sonic Youth saiu do selo Enigma, que havia lançado “Daydream Nation”, e assinou com uma grande gravadora, a Geffen, foi uma espécie de carta branca para que outras bandas alternativas parassem de ver as “majors” como inimigas.

“Daydream Nation” e “Surfer Rosa” foram discos tão importantes na cena alternativa que foram citados como grandes influências pelo artista mais popular dos anos seguintes, Kurt Cobain. Foi ele que disse que estava tentando copiar os Pixies ao escrever “Smells Like Teen Spirit”, e que decidiu assinar com a Geffen porque o Sonic Youth havia feito o mesmo.

Se essa guinada mais popular do indie rock foi benéfica para a cena alternativa, é motivo de discussão. Muitas bandas que tocavam para públicos restritos puderam expandir seu fã-clube. Por outro lado, o leilão de bandas que aconteceu entre 1990 e 1993, quando as grandes gravadoras investiram pesado no indie rock, prejudicou muitos selos menores e independentes, que não tiveram condição de competir. Essa lua de mel entre bandas alternativas e a indústria musical durou até mais ou menos 1994, e morreu logo depois de Kurt Cobain.

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