Blog do Barcinski http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Fri, 12 Oct 2018 08:59:21 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Nick Cave triunfou em Buenos Aires e agora chega ao Brasil http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/10/12/nick-cave-triunfou-em-buenos-aires-e-agora-chega-ao-brasil/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/10/12/nick-cave-triunfou-em-buenos-aires-e-agora-chega-ao-brasil/#respond Fri, 12 Oct 2018 08:59:21 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2757

Em “Weeping Song”, Nick foi pra galera… Foto: André Barcinski


Alguns shows, por uma rara combinação de qualidade musical, ambiente e interação com o público, se tornam inesquecíveis. O concerto de Nick Cave and the Bad Seeds no Ginásio Malvinas Argentinas, em 10 de outubro, foi um desses.

Por 2h25, Cave e seu sexteto – Warren Ellis (violino, teclados), Jim Sclavunos (percussão, teclados), Thomas Wydler (bateria), Martyn P. Casey (baixo), George Vjestica (violão, guitarra) e Toby Dammit (teclados) – tocaram 19 músicas. Ao final, sete mil pessoas sorriam, gritavam e aplaudiam. Muitas choravam. Foi um dos shows mais intensos e emocionantes que presenciei.

A emoção começou antes mesmo de a banda subir ao palco, quando o telão mostrou uma foto de Conway Savage, o tecladista que acompanhava Cave desde 1990 e largara a banda em 2015 para tratar um tumor no cérebro. Savage morreu há cerca de um mês. Assim que a foto surgiu no telão, sem legenda ou explicação, o público aplaudiu por vários minutos. Foi a primeira de muitas provas de devoção e respeito que aconteceriam ao longo do show.

Nick Cave sempre teve uma relação intensa com os fãs, mas essa conexão tornou-se ainda mais forte nos últimos anos. Em 2015, o cantor perdeu um filho, Arthur, de 15 anos, que morreu ao cair acidentalmente de um penhasco próximo a Brighton, na Inglaterra. No ano seguinte, Cave lançou o LP “Skeleton Tree”, em que descreve a dor da perda.

Como tem feito nessa turnê, o cantor abriu o show com a primeira faixa de “Skeleton Tree”, a tristíssima “Jesus Alone”: “Você caiu do céu / e se espatifou num campo / próximo ao rio Adur”.

Nick Cave é um caso raro: aos 40 anos de carreira (34 com o Bad Seeds, antecedido por seis anos com a banda pós-punk The Birthday Party), atingiu o ápice de popularidade e criatividade. Seus últimos quatro discos estão entre os melhores que gravou, e os shows estão cada vez maiores e mais concorridos, com lotações esgotadas na maioria dos países.

Nos últimos tempos, os shows de Cave têm assumido um ar quase religioso, de devoção total dos fãs. Ele abraça o público das primeiras filas, se joga na plateia, canta no meio do povo e, ao fim, convida fãs para subir ao palco e cantar com ele. Mas nada parece forçado ou fingido. Os fãs acreditam na sinceridade de Cave, e o cantor retribui com uma entrega impressionante.

Cave faz parte de um pequeno grupo de intérpretes – eu incluiria Leonard Cohen, Nina Simone, Diamanda Galas, Lou Reed e Chet Baker – que cantam sobre o amor e a paixão, mas sempre com uma tom angustiado e melancólico. Seu universo lírico é cheio de romantismo, mas também de dor, violência, culpa e fatalismo. Um crooner gótico cantando sobre os lados mais sombrios da vida.

Nesses 34 anos, a música que ele faz com os Bad Seeds mudou muito. A influência de Leonard Cohen é enorme, mas Cave criou um estilo próprio e confessional, com letras que falam abertamente sobre sua vida e músicas cada vez mais experimentais e atmosféricas, que ora explodem em barulho, ora exploram o silêncio e o minimalismo. Basicamente, Nick Cave chegou ao ponto em que faz exatamente o que quer. E quem gostar, que o acompanhe.

Como ele diz em “Push the Sky Away”:

Algumas pessoas dizem que é apenas rock and roll
Ah, mas ele lhe atinge diretamente na alma
Se você sente que conseguiu tudo que queria
Se você tem tudo e não precisa de mais nada
Você tem de empurrar o céu, cada vez mais para longe
Cada vez mais para longe

Domingo, Nick Cave and the Bad Seeds tocam no Espaço das Américas, em São Paulo.

OUTRO GRANDE SHOW: EYE HATE GOD E SAMSARA BLUES EXPERIMENT

Nick Cave não é o único show excelente no fim de semana. A brava produtora Abraxas comemora cinco anos trazendo Eye Hate God e Samsara Blues Experiment para shows em São Paulo (sábado, 13) e Rio (domingo, 14). Mais informações aqui.

Um ótimo fim de semana a todos.

O blog volta na quarta, dia 17.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

]]>
0
“Eu joguei um sapato em Nick Cave… e errei!” http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/10/10/eu-joguei-um-sapato-em-nick-cave-e-errei/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/10/10/eu-joguei-um-sapato-em-nick-cave-e-errei/#respond Wed, 10 Oct 2018 08:59:26 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2734

Gil Jorge em Paraty (RJ)

Quando subir ao palco do Espaço das Américas, em São Paulo, no domingo, 14 de outubro, Nick Cave voltarà à cidade onde tocou pela primeira vez em abril de 1989.

Naquele ano, o cantor australiano não apenas fez shows inesquecíveis por aqui, mas se meteu numa história de paixão e ciúme que parece ter saído de uma de suas letras.

Como toda boa história de conflito amoroso, esta tem três personagens. Além de Nick Cave, há um brasileiro chamado Gil Jorge, e uma mulher que será chamada apenas de “W.”, para preservar seu anonimato.

Atualmente, Gil Jorge tem 57 anos e é dono de restaurantes em Paraty (RJ). Também é poeta e publicou “Mínimas”, um livro de poesia concreta. Em 1989, Gil trabalhava de gerente no Cais, um porão escuro na Praça Roosevelt que reunia as tribos do punk, gótico e EBM. Gil e W. eram namorados. Até que pintou Nick Cave…

Antes do Cais, você já havia trabalhado em casas importantes da noite paulistana…
Sim, trabalhei no Madame Satã e no Ácido Plástico, em Santana. A Ácido Plástico ficava numa antiga igreja, ao lado do então presídio do Carandiru. Aquilo era uma loucura: as senhorinhas católicas de Santana viviam dando as mãos e fazendo uma corrente em volta da boate para não deixar entrar os “pecadores”. Imagina umas tias tentando barrar o pessoal do Olho Seco? Às vezes tinha fuga de presos no Carandiru, e a polícia fechava a rua e mandava a gente trancar as portas. Ficava uma multidão de punk lá dentro, ouvindo os tiros na rua…

Em 89, você já estava no Cais e namorava a W….
Sim, mas nosso relacionamento era de neurose absoluta: a gente ficava um tempo juntos, depois brigava feio, aí cada um ficava com outra pessoa, depois voltava, era bem instável. Mas ficamos juntos por um bom tempo, talvez uns três anos.

Aí pintou o Nick Cave…
Eu era fã do Nick Cave e comprei o ingresso [para o show no Projeto SP] assim que abriram as vendas. Naquela época, W. e eu estávamos brigados, e fui sozinho ao Projeto SP. Aí começa o show, e quem está na primeira fila, mandando beijinhos e gritando “Nick, I love you!”? Minha namorada! Fiquei puto! Pra piorar, o Nick Cave passou o show inteiro olhando pra ela e cantando pra ela. Terminou o show, eu estava arrasado, e fui encher a cara. Bebi pra cacete. Aí, um amigo chegou e disse: “Gil, não sei devia te contar, mas parece que tá rolando alguma coisa da W. com o Nick Cave…”

Nick Cave sempre foi um rockstar dos mais elegantes…

O que você fez?
Eu estava completamente bêbado, e fiz o que todo bêbado faz: fui pra casa dela tomar satisfação. Ela morava numa casa na Vila Madalena. Cheguei na porta, toquei a campainha, gritei, fiz um escândalo, e ninguém deu um pio. Só respondeu o cachorro, que a W. e eu tínhamos criado juntos. Naquele dia, até o desgraçado do cachorro tentou me agredir, vê se pode? Logo eu, que tinha cuidado dele com tanto carinho…

Ninguém mais apareceu? Só o cachorro?
Continuei tocando a campainha e, de repente, quem aparece na porta? O Nick Cave. Comecei a xingar o cara, falar um monte de palavrões: “Seu filho da puta, vou te matar!”, aquelas coisas. A casa era meio alta, a entrada ficava acima do nível da rua, e o Nick chegou mais perto de mim, mas ainda afastado. Eu estava louco de raiva e, até hoje não sei por que, tirei meu sapato e arremessei na cara dele.

E pegou?
Passou raspando. Pior: o sapato bateu numa quina e caiu na varanda. E era um sapato que eu tinha comprado numa sapataria bacana da Vila Madalena chamada Doutor Phibes. Eu amava aquele sapato…

Acabou aí a briga?
O Nick voltou pra dentro da casa e eu fui, mancando, pro carro. Cheguei em casa puto da vida. A primeira coisa que fiz foi quebrar todos meus discos do Nick Cave. Mas a briga não acabou aí…

Não?
Não. Alguns dias depois, estou no Cais e chega a W., acompanhada pelo Nick. Claro que ela foi lá só pra me sacanear! Eu fiquei louco de raiva, chamei o chefe da segurança e disse: “Esse cara não entra aqui!”. Os clientes acharam que eu tinha enlouquecido: “O que é isso, vai barrar o Nick Cave?” A situação ficou quente, e um dos donos do Cais me chamou de canto: “Gil, puta que pariu, é o Nick Cave, você vai barrar o cara? Todos os clientes são fãs do cara”. Eu disse que se eles entrassem, eu saía.

E como terminou a história?
O dono me dispensou. Eles entraram e eu fui embora.

A história ficou famosa no mundinho alternativo paulistano…
Ficou sim. E meus amigos, que são todos uns desgraçados, trataram de manter a história viva: o Magal, que era DJ do Cais, dizia: “Gil, hoje tô pensando em fazer um set só de Nick Cave, o que você acha?”. O Arthur Veríssimo [jornalista e DJ] também vivia fazendo piada com a história. Eu tinha um amigo que, sempre que me dava carona, colocava uma fita daquele cantor brega, o Falcão, com a música “Só é corno quem quer”.

Mas parece que a história tem um final feliz…
Tem sim. Alguns anos depois, por volta de 1993 [Cave morou no Brasil entre 1990 e 93], eu era um dos donos de outra casa noturna, o Jungle, e meu amigo Pamps [Sérgio Pamplona, guitarrista do Smack e Mercenárias, morto em 2015, aos 62 anos] apareceu um dia com o Nick Cave. Pamps era amigo do Nick e disse que já era hora de nós acabarmos com aquela briga toda. E nós fizemos as pazes.

Depois você largou a noite e virou dono de restaurante em Paraty…
Sim, tenho dois restaurantes na praia do Jabaquara, em Paraty. Vim para Paraty há 15 anos, fugindo do trânsito e da poluição de São Paulo. Antes tentei abrir um negócio em Ilhabela, mas não aguentei os nouveaux riches e os borrachudos.

Você vai ao show do Nick Cave?
Infelizmente não, estou muito ocupado com os restaurantes. Mas gostaria de mandar um abraço ao Nick e agradecer a ele por nossa briga. Se não fosse pelo Nick, eu talvez não tivesse conhecido minha mulher, a Jacira, com quem estou há 24 anos.

QUER SABER COMO FOI O SHOW DE NICK CAVE EM BUENOS AIRES?
Estou em Buenos Aires para o show de Nick Cave and the Bad Seeds. Na sexta, dia 12, publico aqui no blog uma crítica do show.

E TEM FESTA DO GARAGEM!
E no sábado, dia 13, vou discotecar com os amigos Paulão, Mexicano e Mitkus na Festa do Garagem, na Z Carniceria (Av. Brigadeiro Faria Lima, 724, próximo à estação Faria Lima do metrô). Farei um set apenas com músicas que nunca tocaram na festa. Estão todos convidados. Maiores informações aqui.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

]]>
0
Dez grandes momentos do filme sobre Quincy Jones na Netflix http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/10/08/dez-grandes-momentos-do-filme-sobre-quincy-jones-na-netflix/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/10/08/dez-grandes-momentos-do-filme-sobre-quincy-jones-na-netflix/#respond Mon, 08 Oct 2018 08:59:06 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2729 Quincy Jones tem 85 anos e quase sete décadas de atuação marcante na história da música. Não conheço um músico vivo tão importante, eclético e influente.

Aos 14 anos de idade, Quincy tocava trompete em bandas de jazz; naquele mesmo ano, fez amizade com outro jovem fenômeno musical, um certo Ray Charles. Aos 18, Quincy entrou para a banda de Lionel Hampton, depois tornou-se um dos grandes arranjadores da música norte-americana, trabalhando com Louis Armstrong, Count Basie, Frank Sinatra, Dinah Washington, Peggy Lee, Sarah Vaughan, Dizzy Gillespie e muitos outros.

Do jazz e dos “standards”, Quincy Jones pulou para o cinema e a música pop: foi indicado sete vezes ao Oscar por suas trilhas e canções para filmes; produziu “Off the Wall” (1979), “Thriller” ( 1982) e “B.A.D.” (1987), de Michael Jackson, e comandou a gravação de “We Are the World”, um dos compactos mais vendidos de todos os tempos.

Acaba de estrear na Netflix o documentário “Quincy”, dirigido por Alan Hicks e pela filha de Quincy, Rashida Jones. Posso dizer, sem exagero, que nunca vi tantas cenas de arquivo impressionantes reunidas num só documentário musical. Se você gosta de música e da história da música dos séculos 20 e 21, não deixe de assistir.

Fiz uma seleção de dez cenas marcantes do filme:

Dr. Dre babando
Uma das primeiras cenas do filme mostra o rapper Dr. Dre entrando na casa de Quincy para entrevistá-lo e admirando a coleção de capas de discos de que Quincy participou, além de fotos com Michael Jackson, Nelson Mandela, Ray Charles, Paul McCartney, Frank Sinatra, Count Basie, Miles Davis e outros. Mas impagável é a cara de Dr. Dre quando vê a coleção de VINTE E SETE Grammys.

Um menino entre gigantes
Aos 18 anos, Quincy foi convidado para tocar trompete na banda do jazzista Lionel Hampton. O filme mostra um trecho de um show de 1951. Quincy conta que o racismo era tão intenso nos Estados Unidos, que nas excursões de ônibus da banda de Hampton os motoristas eram brancos, porque os músicos, todos negros, não podiam entrar nos restaurantes, e os motoristas precisavam trazer a comida para o ônibus.

Recordando amigos que partiram
Numa das cenas mais tristes do filme, Quincy Jones vai a uma cerimônia no Instituto Thelonius Monk, onde encontra velhos amigos da música, como o cantor Al Jarreau e o saxofonista Jimmy Heath, e recorda amigos que haviam morrido recentemente: “É um merda, meu chapa”, diz Quincy e Jimmy Heath. “Nossos amigos estão morrendo como moscas: Louis Johnson, Lesley Gore, Clark Terry, George Duke, Joe Sample… é terrível”.

A modéstia de quem sabe que não sabe tudo
Em 1957, depois de consagrado como arranjador de Ray Charles, Dinah Washington, Louis Armstrong e outros monstros, Quincy vai a Paris estudar orquestração com Nadia Boulagner, mentora de Igor Stravisnky e Leonard Bernstein. “Nadia me disse: ‘Quincy, existem apenas 12 notas, e você precisa investigar o que todo mudo fez com essas notas’. Foi o que fiz: em Paris, participei de mais de 200 sessões com orquestras e aprendi muito.”

Quincy quase morre no palco
Um tema recorrente no filme é a morte. No começo, Quincy aparece num hospital, depois de passar quatro dias em coma diabético. Ele recebe alta e, contrariando ordens médicas, passa a viajar o mundo todo participando de shows e debates. Num evento, ele sobe ao palco, diz à plateia que está muito cansado depois de viajar à Rússia, Abu Dhabi e Dubai, e sofre um ataque do coração na frente do público.

Frank Sinatra vs. o racismo
Quincy Jones tinha apenas 29 anos quando começou a trabalhar para Frank Sinatra, 18 anos mais velho e um astro consagrado. Mas os dois viraram grandes amigos e parceiros. E Quincy conta uma história emocionante sobre Sinatra: no início dos anos 1960, vários artistas negros, como Sammy Davis Jr., Harry Belafonte e Lena Horne, faziam grande sucesso em Las Vegas, mas tinham de jantar na cozinha, porque negros eram proibidos de freqüentar os salões. Quando Sinatra soube, ameaçou não trabalhar mais na cidade se os cassinos mantivessem a segregação. E a situação rapidamente melhorou.

Só músico fraquinho: Quincy, Count Basie e Frank Sinatra

A melhor banda do mundo
Em 1979, Quincy aceitou produzir o álbum “Off the Wall”, de Michael Jackson, e convocou um time dos melhores músicos, compositores e técnicos de estúdio do planeta, incluindo o compositor Rod Temperton, o engenheiro de som Bruce Swedien, o teladista Greg Phillinganes, o baixista Louis Johnson (baixo), o baterista John Robinson, o trompetista Jerry Hay, e o percussionista brasileiro Paulinho da Costa. O filme traz imagens da gravação de “Off the Wall”. Diz Quincy: “Michael era tão tímido que cantava de costas para mim, porque tinha vergonha da própria voz”.

Jacko e Quincy com os oito Grammys de “Thriller”. Foto: Doug Pizac

Moral pouca é bobagem
Às vésperas do importante show de inauguração do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, Quincy Jones se preocupa com algumas celebridades negras que não haviam confirmado presença, como o então Secretário de Estado, Colin Powell, e a apresentadora de TV Oprah Winfrey. Quincy não se desespera: pega o celular e liga diretamente para os dois: “Colin, meu amigo, sou eu. Então, você vem, certo?” Oprah e Powell comparecem, claro.

Assombrações da infância
Em 1989, Quincy visita, pela primeira vez em 45 anos, a casa onde morou com a família num bairro pobre de Chicago. O pai de Quincy era um delinquente e andava com uma turma de gângsteres; a mãe era esquizofrênica e foi levada de casa numa camisa de força quando o menino tinha sete anos de idade. Todas essas memórias ressurgem quando ele revisita a casa, e Quincy desaba num choro sentido. Ele conta que vivia de praticar pequenos furtos e que foi só aos 11 anos de idade que viu, pela primeira vez, uma pessoa branca.

Salário de fome
Uma das filhas de Quincy encontra, perdido numa mala, um velho álbum de fotos. Quincy revê as fotos pela primeira vez em décadas e encontra um recibo de arranjos musicais que fizera para Dizzy Gillespie, nos anos 1950. Valor recebido por arranjo: DOZE DÓLARES.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

]]>
0
“Village Green”: 50 anos do disco clássico que quase destruiu os Kinks http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/10/05/village-green-50-anos-do-disco-classico-que-quase-destruiu-os-kinks/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/10/05/village-green-50-anos-do-disco-classico-que-quase-destruiu-os-kinks/#respond Fri, 05 Oct 2018 08:59:42 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2725
Em outubro de 1968, o Kinks terminava de gravar “The Village Green Preservation Society”, um dos melhores discos da banda. Mas o LP marcou uma fase difícil, que por pouco não acabou com o quarteto.

Em 2015, escrevi sobre o disco:

Para entender o caos que se abateu sobre a banda pós-1968, é preciso retroceder alguns anos no tempo, até 1965, quando o Kinks, então uma das estrelas da “Invasão Britânica”, fazia grande sucesso nos EUA e Europa com hits como “You Really Got Me”, “All Day and All of the Night”, “Tired of Waiting for You” e “Till the End of the Day”.

Enquanto seus contemporâneos, os Rolling Stones, ganhavam fama de bad boys, os Kinks eram os verdadeiros delinquentes daquela geração. Num show, o guitarrista Dave Davies xingou o baterista Mick Avory, que respondeu arrebentando a cabeça de Dave com um pedestal de prato. Avory fugiu do teatro acreditando que tinha matado o colega. Logo depois, o líder da banda, o cantor e guitarrista Ray Davies, irmão de Dave, deu entrevistas esculhambando Frank Sinatra (“Eu canto ‘You Really Got Me’ melhor que ele”) e dizendo que qualquer um – “até Hitler” – era capaz de lotar um teatro de fãs. Numa turnê pelos Estados Unidos, Ray saiu no braço com um diretor de uma emissora de TV durante a gravação de um programa. O homem era poderoso, e os Kinks foram proibidos de excursionar na América por quatro anos.

Sem acesso ao maior mercado de discos do mundo e vendo seus competidores – Beatles, Stones, Who – fazendo fortuna na América, Ray e Dave piraram. A banda lançou discos fabulosos em 1966 (“Face to Face”) e 1967 ( “Something Else”), que até obtiveram algum sucesso no Reino Unido, mas não venderam nada nos Estados Unidos.

Mas a maior tristeza foi perceber que “The Village Green Preservation Society” (1968), uma obra-prima que hoje figura ao lado de “Sgt. Pepper’s”, “Pet Sounds”, “Are You Experienced?”, “Da Capo” e “Blonde on Blonde” em qualquer lista dos álbuns mais importantes do fim dos anos 60, nem apareceu nas paradas. Depois de “Something Else”, os Kinks nunca mais frequentaram as paradas britânicas e só voltaram a fazer algum sucesso na América em 1979, com o disco “Low Budget”.

“Village Green” era uma ode saudosista a uma Inglaterra rural e provinciana, uma ópera-rock criada por Ray Davies, um jovem de alma velha, geniozinho de 24 anos que não se conformava com as transformações por que seu país passava e via tudo que mais amava – a cordialidade de velhos vizinhos, as tradições, a pacatez da vida em família e uma certa ordem vitoriana – sumindo sob os conflitos de gerações e a “modernidade”.

Quando “Village Green” fracassou, Ray deu uma banana para a gravadora, os fãs, a crítica e as expectativas que tinham dele, e resolveu fazer o que lhe desse na telha. Seguiram-se alguns dos discos mais estranhos e anticomerciais já lançados por um herói pop. Alguns eram lindos, outros, apenas herméticos e pretensiosos. Mas, até quando falhava, Ray falhava de maneira espetacular. Ninguém nunca pôde acusá-lo de comedimento.

O período de 1968 até mais ou manos 1978 também foi marcado por imensas crises pessoais. Dave bebia como um peixe e tinha impulsos suicidas; Ray sofria de depressão e surtos imprevisíveis. Num show, surpreendeu os companheiros de banda ao anunciar que aquela seria a última apresentação deles, antes de desmaiar e ser levado para o hospital. Passou semanas recuperando-se ao som da Segunda Sinfonia de Mahler – “A Ressurreição”.

Ray era paranoico e via o mundo como um lugar hostil e cheio de armadilhas. Começou a fazer músicas que refletiam seus sentimentos de raiva e descompasso com o mundo. “Arthur or the Decline and Fall of the British Empire” (1969) era exatamente o que o título dizia, um disco temático sobre a decadência – moral, social, ética – do império britânico.

Em “The Kinks Parte One – Lola Versus Powerman and the Moneygoround” (1970), Ray centrou fogo em outro adversário, a indústria musical. Algumas letras pareciam criticar os agentes da banda, que, irritados, largaram o grupo um ano depois do lançamento. O LP trouxe um dos raros sucessos do grupo nos anos 70, “Lola”, em que Ray narra um encontro com um travesti.

Depois de “Lola”, os discos ficaram cada vez mais estranhos: “Percy” (1971) era a trilha sonora de um filme sobre um transplante de pênis; em “Muswell Hillbillies” (1971), Ray usou um naipe de instrumentos de sopro para criar uma bizarra celebração de música folk britânica e um repúdio ao pop; “Everybody’s in Showbiz” (1973) era um álbum duplo, com um disco de estúdio e outro ao vivo; “Preservation Act 1” (1973) e “Preservation Act 2” (1974) formavam uma confusa ópera-rock sobre artistas de vaudeville; “Soap Opera” (1975) e “Schoolboys in Disgrace” (1976) eram discos temáticos – o primeiro, aparentemente sobre culto a celebridades, o segundo, memórias do tempo de escola.

No meio de toda essa confusão de ideias e estilos, os Kinks eram capazes de criar ouro. É só ver a beleza de uma faixa como “Celluloid Heroes”, do Lp “Everybody’s in Showbiz”:

No fim dos anos 70, o Kinks se reinventou como banda de hard rock, com discos mais pesados e populares. E a versão que o Van Halen fez de “You Really Got Me”, em 1978, apresentou a banda a uma geração que nunca ouvira falar nela. Mas os LPs que os irmãos Davies fizeram entre o fim dos anos 60 e o fim dos 70 permanecem como um dos tesouros esquecidos da música pop. Mesmo que quase tenham levado a banda à falência.

Um maravilhoso fim de semana a todos.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

]]>
0
Filme revela a arte de John McEnroe, gênio do tênis http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/10/03/filme-revela-a-arte-de-john-mcenroe-genio-do-tenis/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/10/03/filme-revela-a-arte-de-john-mcenroe-genio-do-tenis/#respond Wed, 03 Oct 2018 08:59:34 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2702 Tive a sorte de estar em Nova York na semana em que o cineclube Film Forum exibiu um dos melhores documentários que vi em muito tempo: “John McEnroe: in the realm of perfection”, do francês Julien Faraut.

O filme não é exatamente um documentário sobre John McEnroe, mas um relato da participação dele no Aberto de Tênis da França, em Roland Garros, em maio e junho de 1984.

E por que o ano de 1984 foi tão importante na carreira de John McEnroe?

Simples: porque, naquele ano, Big Mac era imbatível. Ou quase: em 1984, ele atingiu a marca de 96,5% de vitórias, ganhando 82 jogos e perdendo apenas 3, o maior percentual de vitórias desde 1925, quando Bill Tilden perdeu apenas um de 79 jogos.

Mais que isso: McEnroe, aos 25 anos, estava no auge da forma e vinha jogando um tênis sublime, destruindo adversários com seu ágil e inventivo jogo de saque-e-voleio.

Para quem não acompanha tênis, vale dizer que John McEnroe era uma espécie de Garrincha das raquetes. Ele não tinha a força física de Ivan Lendl ou a paciência de Bjorn Borg, mas era um esteta, capaz das jogadas mais absurdamente geniais e imprevisíveis.

Em 1984, McEnroe chegou a Roland Garros como o número 1 do mundo e com uma invencibilidade de 42 jogos. Naquele ano, McEnroe venceria 13 torneios.

Na final de Roland Garros, McEnroe estava dominando completamente o jogo contra o tcheco Ivan Lendl: abriu dois sets a zero, 6-3 e 6-2, e jogava uma barbaridade, quando de repente começou a errar os saques, deu fôlego a Lendl, e permitiu uma virada histórica. “Até hoje eu tenho pesadelos com aquele jogo e penso em como minha vida poderia ter sido diferente caso eu tivesse vencido”, conta McEnroe.

Big Mac Perdeu em Roland Garros (aliás, nunca venceria o torneio), mas se redimiu com demolições de Jimmy Connors em Wimbledon e do próprio Ivan Lendl no U.S. Open.

O filme de Julien Faraut usa como base um material fantástico filmado por outro francês, Gil de Kermadec. Por mais de 20 anos, Kermadec filmou o torneio de Roland Garros para fazer filmes de instrução sobre tênis. A cada ano, o cineasta apontava três câmeras para um único jogador com o objetivo de mostrar, em detalhes, sua técnica e movimentos. Em 1984, ele escolheu John McEnroe.

Faça um favor a você mesmo, tire uma folguinha de 54 minutos e assista a “Roland Garros avec John McEnroe” (1984), de Gil de Kermadec:

Kermadec analisa o estilo de John McEnroe: seu bizarro saque com as costas para a quadra, seus mortais voleios perto da rede, e seu golpe mais bonito, o “drop shot”, em que ele finge que vai atingir a bola com força, mas tira o peso da raquete e faz a bola cair, mansamente, próxima à rede.

Vejam essa sequência antológica de “drop shots”:

Outro aspecto interessante do jogo de McEnroe, e explorado a fundo no filme de Faraut, era sua mania de discutir com árbitros e público. Tanto Faraut quanto Kermadec concluem que McEnroe não fazia isso de pirraça, mas como forma de ganhar confiança, porque tinha uma personalidade forte e seu jogo melhorava em situações de tensão. Ele antagonizava a plateia e virava o “vilão” da quadra, mas isso só aumentava sua concentração e poder de fogo. Quando McEnroe brigava com árbitros, a impressão da plateia – e, mais importante, dos adversários de McEnroe – era de que o jogador havia perdido a concentração. Na verdade, ele estava mais focado do que nunca.

Espero que algum festival exiba “John McEnroe: in the realm of perfection” por aqui.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

]]>
0
ETs, OVNIs e 160 músicos: como os Carpenters fizeram seu disco mais bizarro http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/10/01/ets-ovnis-e-160-musicos-como-os-carpenters-fizeram-seu-disco-mais-bizarro/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/10/01/ets-ovnis-e-160-musicos-como-os-carpenters-fizeram-seu-disco-mais-bizarro/#respond Mon, 01 Oct 2018 08:59:16 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2715 Em 1976, Richard Carpenter, que formava com a irmã, Karen, o duo Carpenters, ouviu uma música que o impressionou muito: “Calling occupants of interplanetary craft”, do grupo canadense Klaatu.

O Klaatu fazia uma peculiar mistura de sons progressivos, psicodelia e rock sinfônico. Seus integrantes se interessavam por ocultismo e vida em outros planetas.

Os discos do grupo eram cheios de referências a OVNIs e ETs: Klaatu era o nome do extraterrestre do filme “O dia em que a terra parou”, de 1951. O primeiro LP do grupo saiu em 1976 e se chamava “3:47 EST”, o horário em que, no filme, Klaatu chegava à Terra.

A música que abria o disco do Klaatu era “Calling occupants of interplanetary craft”. A letra foi inspirada por um livro que contava a história de uma organização, Bureau Internacional dos Discos Voadores, que em 1953 convidara seus associados a participar do “Dia mundial do contato”, quando eles enviariam uma mensagem telepática coletiva conclamando extraterrestres a visitar a Terra. A mensagem começava com a frase “Chamando ocupantes de naves interplanetárias…”.

A letra trazia versos como:

“Vocês têm observado nossa Terra / e gostaríamos de fazer contato com você”

“Por favor, venha em paz / somente o nosso amor pode ensinar / nossa Terra talvez não sobreviva / então venha, lhe imploramos”

“Por favor, policial interestelar / nos dê um sinal / de que recebeu nossa mensagem”.

Assim que ouviu a canção, Richard Carpenter decidiu gravá-la, mesmo que não fosse exatamente material típico dos Carpenters, conhecidos por baladas românticas como “(They long to be) close to you”, “Superstar”, “Rainy days and Mondays”, “Yesterday once more” e “We’ve only just begun”.

Na verdade, o auge comercial dos Carpenters havia passado, e eles não vendiam tantos discos quanto na primeira metade dos anos 1970 (hoje, o total de discos vendidos pelo grupo é de cerca de 90 milhões).

Mas isso não parecia importar para a gravadora A&M, casa dos Carpenters, que deu a Richard carta branca – e muita grana – para gravar a música como bem entendesse. E Richard, tão talentoso quanto megalômano, acabou produzindo um dos compactos mais caros e ambiciosos da história da música pop. E um dos mais estranhos também.

No total, cerca de 160 músicos participaram da gravação, incluindo a Orquestra Filarmônica de Los Angeles, um coral de 60 pessoas, e um time dos melhores arranjadores e músicos de estúdio dos Estados Unidos, como o baixista Joe Osborn (Simon & Garfunkel, Neil Diamond), o baterista Ron Tutt (Elvis Presley, Roy Orbison), o oboísta Earle Dumler (Nina Simone, Tim Buckley) e o guitarrista Tony Peluso, que acompanhava os Carpenters desde o início da carreira do grupo. “Aquela música custou mais caro que vários discos nossos”, diria Karen Carpenter após a gravação.

Karen e Richard gravaram uma música de mais de sete minutos de duração, com uma introdução de quase um minuto, em que um radialista conversava por telefone com um ET. Quando a gravadora ouviu a canção, implorou a Richard para reduzir a duração da música. Richard recusou. Depois de intensas discussões, artista e gravadora chegaram a um acordo: a versão integral entraria no LP dos Carpenters, “Passage” (1977), enquanto uma versão reduzida, de quatro minutos, seria lançada em compacto. Dois meses depois do lançamento de “Passage”, Steven Spielberg estreava “Contatos imediatos do terceiro grau”, provando que a busca por ETs estava mesmo na moda.

Veja a versão completa de “Calling…”:

“Calling occupants of interplanetary craft” foi um sucesso moderado, chegando ao 32o lugar na parada da “Billboard”. Era pouco para quem já tinha lançado três números um e cinco números dois, mas, ainda assim, um bom resultado.

É um velho clichê criticar as grandes gravadoras do passado por supostamente tolher a liberdade artística de seus contratados. Para muitos, as gravadoras eram as vilãs da indústria musical, corporações malévolas que sugavam o sangue dos pobres músicos e os obrigavam a lançar discos comerciais de má qualidade.

A história deste compacto mostra que a realidade não foi bem assim. Aqui, temos uma gravadora gigantesca (a A&M era parte da Polygram) investindo uma fortuna para permitir a seu artista, já longe de seu auge de vendas, a embarcar em um vôo criativo de enorme risco comercial.

A canção seria o penúltimo sucesso da carreira dos Carpenters. O último foi “Touch me when we’re dancing”, lançado em 1981, dois anos antes de Karen morrer, de anorexia, aos 32 anos.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

]]>
0
Segunda temporada de “The Deuce” impressiona http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/09/28/segunda-temporada-de-the-deuce-impressiona/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/09/28/segunda-temporada-de-the-deuce-impressiona/#respond Fri, 28 Sep 2018 08:59:57 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2699
Estou gostando bastante da segunda temporada da série “The Deuce”, exibida pela HBO (domingos, 22h).

A série foi criada por David Simon (“The Wire”) e pelo autor de romances policiais George Pelecanos, e se passa no submundo da região de Times Square, em Nova York, no fim dos anos 1970 (“Deuce” era um apelido dado à rua 42, então tradicional ponto de prostituição e drogas, e hoje dominada por turistas de boné do Mickey).

A série trata de prostituição, corrupção policial e do início da indústria do cinema de sexo explícito, e traz o mesmo visual sujo e o clima decadente que Simon criou em “The Wire”.

James Franco faz dois papéis: o de Vincent Martino, um dono de bar que começa a operar casas noturnas como “laranja” da Máfia, e de seu irmão gêmeo Frankie, um jogador compulsivo que deve uma grana preta para agiotas.

Maggie Gyllenhall faz Candy, uma prostituta que começa a se interessar pelo cinema de sexo explícito e passa a dirigir filmes.

A primeira temporada de “The Deuce” se passava entre 1971 e 1972, e mostrou como Times Square era dominada por cafetões que empregavam prostitutas e andavam pela cidade em carros de luxo e metidos em ternos extravagantes. Veja o trailer da temporada 1:

Na segunda temporada, a história pula para 1977, quando o cinema pornô começa a ficar mais explícito, e a ação da polícia nas ruas joga a prostituição para dentro de casas noturnas e bordéis.

A exemplo do que fez em “The Wire”, David Simon usa a vida dura das ruas para contar a história de muitos personagens interessantes, sejam as meninas que vêm do interior do país e acabam se prostituindo em Times Square, os cafetões que as exploram, os policiais que complementam os salários com propinas variadas, os chefes mafiosos que dominam as casas noturnas, e os jovens que chegam a Nova York e acabam envolvidos no submundo da cidade.

E como é bom ter dinheiro para contratar gente talentosa, não? Basta dizer que cada um dos oito episódios da segunda temporada de “The Deuce” foi escrito por um roteirista diferente (ou dupla de roteiristas), incluindo pesos-pesados do gênero policial, como Megan Abbott e Richard Price (veja aqui uma matéria recente que fiz sobre Price).

Um ótimo fim de semana a todos.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

]]>
0
Disco ao vivo captura Neil Young em seu período mais trágico e inspirado http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/09/26/disco-ao-vivo-captura-neil-young-em-seu-periodo-mais-tragico-e-inspirado/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/09/26/disco-ao-vivo-captura-neil-young-em-seu-periodo-mais-tragico-e-inspirado/#respond Wed, 26 Sep 2018 08:59:19 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2696
Na primeira metade da década de 1970, Neil Young lançou uma sequência impressionante de grandes álbuns: “Everybody knows this is nowhere” (1969), “After the gold rush” (1970), “Harvest” (1972), “On the beach” (1974), “Tonight’s the night” (1975) e “Zuma” (1976).

Se a fase musical era das melhores, a vida pessoal de Young não ia tão bem. O período foi marcado por problemas pessoais e algumas tragédias.

Em 1972, depois de lançar seu LP de maior sucesso comercial, “Harvest”, ele perdeu o amigo e parceiro Danny Whitten, guitarrista do Crazy Horse.

Whitten havia sido a inspiração principal da música “The Needle and the Damage Done” (em tradução literal, “A Agulha e o Dano Causado”), um dos hits de “Harvest”.

Guitarrista talentoso e excelente compositor (fez a linda “I Don’t Want to Talk About it”, gravada por Rod Stewart), Whitten ficou viciado em heroína e acabou expulso do Crazy Horse em 1971.

Para ajudar o amigo, Neil o convidou para tocar em sua turnê de 72. Mas Whitten estava tão anestesiado pela heroína que não conseguiu. Chegou a dormir em pé durante os ensaios.

No dia 18 de novembro de 1972, Young despediu Whitten. Horas depois, Whitten morreu de uma overdose de bebida e Valium.

Ainda em 1972, nasceu Zeke, filho de Young com a atriz Carrie Snodgress. Zeke tinha um caso leve de paralisia cerebral (seis anos depois, Young estava casado com a cantora Pegi Morton e teve outro filho com paralisia cerebral, Ben).

Em junho de 1973, poucos meses depois da morte de Whitten, outro choque: seu “roadie”, Bruce Berry, morreu de overdose de heroína. Neil homenagearia Bruce com uma citação no verso de abertura da música “Tonight’s the Night”.

Os dois álbuns de inéditas que Young gravou imediatamente após as mortes de Whitten e Berry – “Tonight’s the night” e “On the beach” – são os mais pesados e depressivos de sua carreira. E também alguns dos melhores.

Talvez por causa de todas essas questões pessoais, a discografia de Young no período é um tanto caótica. “Tonight’s the night” foi gravado em 1973, mas Young só o lançou dois anos depois. “On the Beach” (1974), espécie de continuação de “Tonight’s the Night”, foi renegado por Young, que só permitiu seu lançamento em CD quase 30 anos depois.

Em 1976, Young gravou um disco acústico, “Hitchhiker”, que levou 41 anos para ser lançado.

Outro registro que chega agora, 45 anos depois de gravado, é o disco ao vivo “Roxy: Tonight’s the night live”. O álbum captura Neil Young e a banda batizada de Santa Monica Flyers – Nils Lofgren (piano, guitarra), Billy Talbot (baixo), Ralph Molina (bateria) e Ben Keith (guitarra pedal steel) – fazendo seus primeiros shows depois da gravação do álbum “Tonight’s the night”.

O disco ao vivo foi gravado em seis shows – dois por noite, nos dias 20, 21 e 22 de setembro de 1973 – na inauguração do clube Roxy, em Los Angeles.

É curioso ouvir faixas como “Albuquerque”, “Tonight’s the night”, “Roll out the barrell” e “Roll another number (for the road)” sendo tocadas pela primeira vez. Ouça a versão matadora de “Tired Eyes”:

A gravação tem clima de jam session: Neil Young conta piadas, conversa com a plateia e faz um “rap” em homenagem a uma dançarina do local (antes de abrigar o Roxy, o imóvel era uma conhecida casa de strip-tease de Hollywood).

A música é sensacional: uma banda afiadíssima pelos meses de ensaios e gravações, tocando um repertório então inédito. “Roxy: Tonight’s the night live” é um registro raro de um dos períodos mais intensos e prolíficos da carreira de Neil Young.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

]]>
0
Dom Salvador: o mestre do samba-jazz faz 80 anos e lança disco e filme http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/09/14/dom-salvador-o-mestre-do-samba-jazz-faz-80-anos-e-lanca-disco-e-filme/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/09/14/dom-salvador-o-mestre-do-samba-jazz-faz-80-anos-e-lanca-disco-e-filme/#respond Fri, 14 Sep 2018 08:59:03 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2690 Dia 12 de setembro foi aniversário de 80 anos de Salvador da Silva Filho, mais conhecido por Dom Salvador.

Dom é um dos grandes pianistas brasileiros e um músico fundamental não só para a bossa nova, mas para o samba-jazz e a soul music brasileira.

Dom Salvador gravou discos clássicos de Elis Regina, Elza Soares, Jorge Ben e Roberto Carlos, entre dezenas de outros. No início dos anos 1970, montou o Abolição, um dos grandes grupos da black music brasileira.

Veja um clipe de 1971 de Dom Salvador e Abolição tocando “Uma Vida”, com participação de Elis Regina:

Em meados dos anos 1970, Dom Salvador foi visitar uma sobrinha que morava em Nova York. Gostou tanto que ficou por lá até hoje. Nos Estados Unidos, gravou com Harry Belafonte, Ron Carter e Lloyd McNeill, e desde 1977 toca no River Café, no Brooklyn.

Sua vida não foi moleza: em 2002, a esposa, a cantora Mariá, foi diagnosticada com demência, e perdeu a memória. Dom cuida de Mariá, enquanto batalha para continuar seus projetos musicais.

Dois desses projetos estão saindo agora.

O primeiro é o disco “Dom Salvador & Rio 65 Trio – Live at Zankel Hall in Carnegie Hall”, gravação de um show extraordinário realizado em 2015, em comemoração ao cinqüentenário do grupo Rio 65 Trio, que Dom Salvador liderou.

Para o show, Dom reuniu-se com o baixista original do trio, Sérgio Barrozo, e contou com a participação do baterista Duduka Fonseca, que substituiu a Edison Machado, morto em 1990.

O disco acaba de sair pela Universal Music e está disponível em vários serviços de streaming. Ouça alguns trechos aqui.

Além do disco, Dom Salvador será homenageado com um documentário, “Endless Soul”, dirigido por Lilka Hara e Artur Ratton, cineastas brasileiros radicados em Nova York. O trailer é emocionante:

E se você se interessa por samba-jazz e pelo trabalho de Dom Salvador, sugiro gastar 25 minutos de seu precioso tempo e assistir a este episódio do programa “O Som do Vinil”, do Canal Brasil, em que Charles Gavin entrevista Dom Salvador, enquanto especialistas como Tárik de Souza falam da importância de Dom para a música brasileira feita a partir da década de 1960.

Um maravilhoso fim de semana a todos.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

Estarei em viagem por dez dias. O blog retorna em 26 de setembro. E por favor não esqueçam que dia 23 tem Killing Joke. Até lá.

]]>
0
Jornalismo em crise: uma grande revista sucumbe ao tribunal do Twitter http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/09/12/jornalismo-em-crise-uma-grande-revista-sucumbe-ao-tribunal-do-twitter-2/ http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/09/12/jornalismo-em-crise-uma-grande-revista-sucumbe-ao-tribunal-do-twitter-2/#respond Wed, 12 Sep 2018 08:59:37 +0000 http://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/?p=2676 Em meio à crise global do jornalismo, com fechamento de jornais e revistas e perda de receitas publicitárias, algumas publicações conseguiram manter seu prestígio intacto.

A “The New Yorker” é uma delas. A revista existe desde 1925 e continua a ser uma referência devido à qualidade de suas reportagens, críticas e ensaios. Há 20 anos, a publicação é editada por David Remnick, um jornalista talentoso que ganhou um Pulitzer por uma excelente biografia de Muhammad Ali, “King of the World”.

Esses dias, Remnick e a “The New Yorker” se envolveram numa polêmica que, para alguns, abalou a credibilidade da revista e mostrou que até publicações respeitadas se curvam a pressões de redes sociais.

Tudo começou quando a revista anunciou, entre as atrações de seu badalado “New Yorker Festival” (uma série de debates e palestras que acontece em outubro), uma entrevista que o próprio David Remnick faria com Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump.

Bannon é uma figura polêmica nos Estados Unidos: ex-chefe do Breitbart News, um site de direita que cansou de publicar matérias inventadas e textos racistas e xenófobos, trabalhou por sete meses na Casa Branca de Trump, até brigar com o chefe.

A reação das redes sociais foi imediata: muita gente ameaçou cancelar a assinatura da revista caso a entrevista acontecesse. Outros convidados do evento, como os comediantes Jim Carrey e Judd Apatow, disseram que pulariam fora caso Bannon fosse escalado.

Aí, Remnick fez o que eu, que sempre admirei seus textos e estilo, não esperava: capitulou ao tribunal do Twitter e retirou o convite a Bannon.

O editor da “The New Yorker”, David Remnick (esq.), retirou o convite a Steve Bannon

“A reação na mídia social foi imensa, e o choque e raiva foram direcionados a mim e à minha decisão de convidar Bannon. Alguns membros da redação da revista também se mostraram contrários ao convite”, escreveu Remnick, tentando justificar o injustificável.

Beira o inacreditável que jornalistas de uma redação prestigiosa como a da “The New Yorker” se sintam ofendidos com a presença de alguém em sua festinha, mesmo um ser execrável como Bannon. Se eu estivesse lá, não só acharia fantástico ter a chance de assistir a uma entrevista com ele, mas pediria para participar dela.

Felizmente, nem todo mundo concordou com a decisão de Remnick. O colunista Bret Stephens, do “The New York Times”, deu-lhe uma merecida sapatada:

“O que isso significa de verdade é que o editor da ‘The New Yorker’ não é mais Remnick, mas o Twitter (…)

Uma jornalista da revista, Kathryn Schulz, escreveu no Twitter que estava ‘além de horrorizada’ e convidou leitores a escrever para Remnick para pressioná-lo. Isso é uma declaração assombrosa vinda de qualquer jornalista que acredita que sua vocação deve ser a de fazer perguntas duras para pessoas influentes, particularmente pessoas ruins (…)

Não faz tanto tempo que um desafio público como o imposto por Schulz resultaria em demissão. Mas a degradação gradual da autoridade editorial é outra marca deprimente de nossa era digital (…)

Nesse meio tempo, vale a pena considerar o que o desconvite de Remnick causou. Aqui vai minha lista:

Manteve o nome de Bannon no noticiário. Trransformou um intolerante em vítima de censura liberal. (…) Manteve os leitores da ‘The New Yorker’ trancados em sua costumeira câmara de eco. Reforçou a crença de que instituições veneráveis podem ser coagidas a submeter-se às demandas irascíveis dos linchadores da mídia social.

Da próxima vez que nós jornalistas exigirmos “coragem” de nossos políticos, vamos primeiro mostrar que sabemos o que a palavra significa e mostrar um pouco dela nós mesmos.”

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

]]>
0