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Orson Welles: “Fazer ‘Cidadão Kane’ foi a grande maldição de minha vida”

André Barcinski

05/11/2018 05h59

A Netflix estreou "O Outro Lado do Vento", um longa-metragem inédito de Orson Welles (1915-1985).

Welles começou a rodar o filme em 1970, trabalhou nele por uma década, e morreu sem conseguir finalizá-lo.

Depois de mais de 40 anos guardados em arquivos, os negativos foram negociados com uma produtora, que vendeu a distribuição para a Netflix. O editor Bob Murawski ("Guerra ao Terror") foi chamado para montar "O Outro Lado do Vento" de acordo com anotações e pedaços de roteiros deixados por Welles.

E que tal o filme?

Bom, se você gosta de cinema e alguém lança um filme inédito de Orson Welles, sua obrigação é parar o que estiver fazendo e assisti-lo imediatamente. Afinal, não é todo dia que se tem a chance de ver cenas inéditas do diretor de "Cidadão Kane", "Soberba" e "A Marca da Maldade".

Mas esteja avisado: "O Outro Lado do Vento" é uma das obras mais pessoais e estranhas de Welles. Não é um filme fácil. Tão misteriosa é sua trama que o ator principal do filme, o cineasta John Huston, um dia parou a filmagem e perguntou: "Orson, sobre que diabos é esse filme?"

Aparentemente, nem Welles sabia. Ou se sabia, nunca deixou claro para ninguém. Várias pessoas da equipe tinham a impressão de que ele inventava as cenas à medida que filmava.

"O Outro Lado do Vento" é dividido em duas narrativas: a primeira conta o último dia da vida de um cineasta, Jake Hannaford (John Huston). A segunda mostra o filme em que ele trabalhava quando morreu, uma trama bizarra sobre uma linda mulher (Oja Kodar) perseguida por um homem (Bob Random).

Assistir a "O Outro Lado do Vento" pode ser uma experiência atordoante. O filme tem uma edição frenética e cenas que não parecem fazer o menor sentido. Algumas sequências são lindas (uma cena de sexo dentro de um carro é das coisas mais bonitas que Welles já filmou), outras beiram o amadorismo.

Para fazer sentido da coisa toda e entender por que Orson Welles fez "O Outro Lado do Vento" da maneira que fez, sugiro assistir antes ao documentário "Serei Amado Quando Morrer", de Morgan Neville ("A Um Passo do Estrelato"), que a Netflix também estreou esses dias.

O documentário conta os últimos 15 anos da vida de Welles e sua batalha para terminar "O Outro Lado do Vento". Neville entrevista atores, técnicos e amigos do cineasta e explora um vasto material de arquivo e cenas de bastidores das filmagens para tentar "explicar" o filme e as motivações de Welles.

Assistir a "O Outro Lado do Vento" sem antes ver o documentário é perda de tempo. O documentário é tão fascinante e cheio de grandes histórias que o "impenetrável" filme de Welles passa a fazer sentido.

ORSON WELLES VS. HOLLYWOOD

Quando começou a filmar "O Outro Lado do Vento", Welles havia voltado para os Estados Unidos depois de duas décadas na Europa. Ele era um pária em Hollywood, um diretor considerado genial, mas que estúdios não queriam contratar porque não conseguiam controlá-lo.

Welles havia brigado com vários produtores e não aceitava interferências criativas em seus filmes. Além disso, vivia atormentado pelas comparações com sua obra-prima, "Cidadão Kane", que dirigira aos 25 anos de idade. "A grande maldição de minha vida foi ter feito 'Cidadão Kane'", dizia o cineasta.

Welles começou bancando "O Outro Lado do Vento" do próprio bolso, mas depois conseguiu alguns financiadores, entre eles o Xá do Irã, Reza Pahlavi. Quando a grana acabava, Welles fazia trabalhos como ator e aparições em TV para conseguir dinheiro e continuar as filmagens.

Não foi a primeira vez que o cineasta fazia filmes aos pedaços. Quando a grana acabou durante as filmagens de "Othello", em 1949, ele levou dois anos para voltar a filmar. Uma cena de briga teve um soco filmado em 1949 e a reação ao soco filmada dois anos depois, em outro país e com outros atores.

"Serei Amado Quando Morrer" é repleto de histórias fantásticas sobre as artimanhas usadas por Welles para driblar a falta de recursos. Ele filmou "O Outro Lado do Vento" durante três anos sem o ator principal, com os outros personagens reagindo a um protagonista imaginário. Quando John Huston, amigão de Welles, aceitou fazer o papel principal, teve de filmar sozinho várias cenas em que dialogava com os outros personagens.

Welles não tinha dinheiro para pagar a equipe, então se cercou de um grupo de jovens fãs, que trabalhavam por muito pouco ou até de graça. O diretor de fotografia Gary Graver, colaborador mais próximo de Welles durante os últimos 15 anos da vida do cineasta, mantinha uma carreira paralela como diretor de filmes pornô para poder trabalhar de graça com Welles. O documentário conta que Welles chegou a editar cenas de sexo de alguns filmes de Graver para ajudar o amigo.

Aliás, Gary Graver (1938-2006) merecia um documentário. O cara fez um monte de filmes horríveis só para poder trabalhar com ídolos como Orson Welles e John Cassavettes. Chegou a fotografar, sem crédito, o abacaxi "One Million AC/DC" (1969), um filme pornô dirigido pelo lendário Ed Wood, em que homens e mulheres da época das cavernas faziam sexo grupal enquanto fugiam de um Tiranossauro Rex. Gary Graver é certamente o único ser humano que colaborou com o melhor (Welles) e o pior (Wood) cineasta de todos os tempos.

Durante o velório de Welles, Graver sobe ao púlpito e diz: "Durante 15 anos, toda manhã eu ligava para Orson e perguntava o que eu deveria fazer naquele dia. E amanhã, o que faço?". É de cortar o coração.

Igualmente tocantes são as revelações sobre a amizade de Welles e John Huston, as confissões dolorosas do amigo e discípulo Peter Bogdanovich, cujo sucesso no cinema causou tanta inveja em Welles, e as histórias melancólicas sobre os últimos anos de vida de Welles, em que ele, falido e cansado, praticamente implorou por dinheiro para terminar "O Outro Lado do Vento".

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

Sobre o autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.