Topo
Blog do Barcinski

Blog do Barcinski

Categorias

Histórico

Disco ao vivo captura Neil Young em seu período mais trágico e inspirado

André Barcinski

26/09/2018 05h59


Na primeira metade da década de 1970, Neil Young lançou uma sequência impressionante de grandes álbuns: "Everybody knows this is nowhere" (1969), "After the gold rush" (1970), "Harvest" (1972), "On the beach" (1974), "Tonight's the night" (1975) e "Zuma" (1976).

Se a fase musical era das melhores, a vida pessoal de Young não ia tão bem. O período foi marcado por problemas pessoais e algumas tragédias.

Em 1972, depois de lançar seu LP de maior sucesso comercial, "Harvest", ele perdeu o amigo e parceiro Danny Whitten, guitarrista do Crazy Horse.

Whitten havia sido a inspiração principal da música "The Needle and the Damage Done" (em tradução literal, "A Agulha e o Dano Causado"), um dos hits de "Harvest".

Guitarrista talentoso e excelente compositor (fez a linda "I Don't Want to Talk About it", gravada por Rod Stewart), Whitten ficou viciado em heroína e acabou expulso do Crazy Horse em 1971.

Para ajudar o amigo, Neil o convidou para tocar em sua turnê de 72. Mas Whitten estava tão anestesiado pela heroína que não conseguiu. Chegou a dormir em pé durante os ensaios.

No dia 18 de novembro de 1972, Young despediu Whitten. Horas depois, Whitten morreu de uma overdose de bebida e Valium.

Ainda em 1972, nasceu Zeke, filho de Young com a atriz Carrie Snodgress. Zeke tinha um caso leve de paralisia cerebral (seis anos depois, Young estava casado com a cantora Pegi Morton e teve outro filho com paralisia cerebral, Ben).

Em junho de 1973, poucos meses depois da morte de Whitten, outro choque: seu "roadie", Bruce Berry, morreu de overdose de heroína. Neil homenagearia Bruce com uma citação no verso de abertura da música "Tonight's the Night".

Os dois álbuns de inéditas que Young gravou imediatamente após as mortes de Whitten e Berry – "Tonight's the night" e "On the beach" – são os mais pesados e depressivos de sua carreira. E também alguns dos melhores.

Talvez por causa de todas essas questões pessoais, a discografia de Young no período é um tanto caótica. "Tonight's the night" foi gravado em 1973, mas Young só o lançou dois anos depois. "On the Beach" (1974), espécie de continuação de "Tonight's the Night", foi renegado por Young, que só permitiu seu lançamento em CD quase 30 anos depois.

Em 1976, Young gravou um disco acústico, "Hitchhiker", que levou 41 anos para ser lançado.

Outro registro que chega agora, 45 anos depois de gravado, é o disco ao vivo "Roxy: Tonight's the night live". O álbum captura Neil Young e a banda batizada de Santa Monica Flyers – Nils Lofgren (piano, guitarra), Billy Talbot (baixo), Ralph Molina (bateria) e Ben Keith (guitarra pedal steel) – fazendo seus primeiros shows depois da gravação do álbum "Tonight's the night".

O disco ao vivo foi gravado em seis shows – dois por noite, nos dias 20, 21 e 22 de setembro de 1973 – na inauguração do clube Roxy, em Los Angeles.

É curioso ouvir faixas como "Albuquerque", "Tonight's the night", "Roll out the barrell" e "Roll another number (for the road)" sendo tocadas pela primeira vez. Ouça a versão matadora de "Tired Eyes":

A gravação tem clima de jam session: Neil Young conta piadas, conversa com a plateia e faz um "rap" em homenagem a uma dançarina do local (antes de abrigar o Roxy, o imóvel era uma conhecida casa de strip-tease de Hollywood).

A música é sensacional: uma banda afiadíssima pelos meses de ensaios e gravações, tocando um repertório então inédito. "Roxy: Tonight's the night live" é um registro raro de um dos períodos mais intensos e prolíficos da carreira de Neil Young.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

Sobre o autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.