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Lady Lu: a vida dura de uma cantora pop

André Barcinski

29/06/2018 05h59

Mano Véio entrevista Lady Lu no estúdio da Nativa FM


Quase duas da madrugada em São Paulo, e a van para em frente a um prédio em Pinheiros. “Alô, Lu? Pode descer!”, diz no celular um coroa com forte sotaque argentino. Seu nome é Santiago Malnati, mais conhecido como Mister Sam.

Também estou na van, junto com a equipe de filmagem de um documentário sobre Sam, que estou dirigindo e produzindo.

Poucos minutos depois, sai do prédio uma bonita loura com mais de 1,80. É Lady Lu, nome artístico de Luciane Caeiro.

Mister Sam e Lady Lu são velhos conhecidos. Em 1989, Lu era uma adolescente e fazia parte da equipe de patinação artística da Portuguesa de Desportos, quando foi descoberta num concurso de beleza e virou assistente de palco do programa dos palhaços Atchim e Espirro na TV Bandeirantes. Dois anos depois, Sam a contratou para um grupo de meninas que cantavam lambada, chamado As Ladies.

Nesses quase 30 anos, Lu cantou de tudo: pop, discoteca, sertanejo, lambada, música romântica, tendo sempre Mister Sam como produtor e compositor. O maior sucesso de Lady Lu foi a música “Loucura Loucura”, mais conhecida pelo refrão “Lindo, tesão, bonito e gostosão”, composta por Sam, claro.

Lady Lu e Mister Sam com um grande amigo dos dois, o saudoso Jair Rodrigues

Mister Sam é um verdadeiro mago do pop brasileiro. Cantor na Argentina, onde atuara na dupla Sam & Dan, chegou ao Brasil em 1973 e logo arrumou emprego na gravadora Beverly, fazendo versões em espanhol para sucessos de Wando, Benito Di Paula e Paulo Sérgio. Sam foi DJ de conhecidas casas noturnas de São Paulo (Dancing, Soul Train, Raio Laser) e apresentou programas de música na TV Gazeta (“Realce Baby”), mas ficou famoso mesmo depois que transformou uma cantora da banda do maestro Zaccaro chamada Maria Odete em Gretchen, e lançou sucessos como “Freak le Boom Boom” e “Conga Conga Conga”.

O produtor tinha um faro comercial impressionante. Outras de suas “descobertas” musicais foram a chacrete Rita Cadillac (“Eu vou pra Serra Pelada”), o apresentador de TV Wagner Montes (“Eu quero amor”) e o cantor Nahim, que Sam lançou com o pseudônimo de Babyface, na canção “Don’t Push, Don’t Push (Dance, Dance, Dance)”, também conhecida por “Melô do Tagarela” (Nahim jura que Mister Sam tirou a letra de uma bula de aspirina comprada nos Estados Unidos). Sam também foi o “inventor” dos Black Juniors, um grupo de dançarinos de break e cantores de hip hop que ele descobriu vendendo frutas na feira, e que tiveram enorme sucesso com a música “Mas Que Linda Estás” (composta, claro, por Mister Sam).

Naquela madrugada, Mister Sam levaria Lady Lu para entrevistas em dois programas de rádio. Seriam três, se os repentistas Caju e Castanha, apresentadores de um programa de forró na Rádio Capital, não tivessem viajado para uma festa junina.

O mote das entrevistas é o lançamento no exterior do novo disco de Lady Lu, “La Lu”. Segundo Sam, o disco está saindo na França, Alemanha, Estados Unidos e México, e traz uma sonoridade latina, com forte influência do reggaeton. “Este disco é pra explodir nas pistas, bitcho!”, diz Sam com o entusiasmo de sempre.

A primeira parada é no estúdio da Rádio Nativa FM, onde Lu é entrevistada pelo simpaticíssimo Mano Véio, nome artístico do paraibano Luiz Duarte Amorim Filho. Mano Véio tem mais de 50 anos de carreira no rádio e está no grupo Band, dono da Nativa, desde 1980.

Mano Véio é só elogios à beleza de Lu e às músicas novas: ao ouvir a animada “Yo Quiero Estar Up”, diz que a mensagem da canção é muito bonita: “Que bom ouvir letras assim, que jogam o ouvinte lá pra cima!”. Logo depois, elogia o pernambucano Ovelha, que divide com Lu os vocais em “Não Se Vá”, regravação da balada famosa nas vozes de Jane & Herondy: “Esse cabra canta muito!”.

O papo com Mano Véio termina perto de cinco da manhã. De lá, Lu e Sam correm para o estúdio da Band FM, onde são entrevistados por Emerson França e Tadeu Correia, do programa “Bom Dia Band”. A entrevista é divertidíssima: Emerson e Tadeu fazem inúmeras vozes e personagens, brincam com Lu sobre os ensaios fotográficos que fez para a revista “Sexy”, e esculhambam Mister Sam. Tudo numa boa, com a liberdade de velhos conhecidos.

Já são perto de sete da manhã quando a van retorna a Pinheiros para deixar Lu. Mister Sam vai para seu flat na Bela Vista. O plano é passar a manhã falando com contatos na Europa sobre o disco de Lu. “Bitcho, um produtor não pode parar”.

Um ótimo fim de semana a todos.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.