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Livro de espionagem de Bill Clinton é a jogada de marketing do ano

André Barcinski

22/06/2018 05h59


Mais que um livro, “O Dia em que o Presidente Desapareceu” é uma genial jogada de marketing: junte um ex-presidente do país, conhecido por escândalos sexuais picantes, a um escritor que inventou uma verdadeira linha de montagem de “best sellers”, e o resultado será um fenômeno de vendas.

O ex-presidente, no caso, é Bill Clinton, o 42º presidente dos Estados Unidos, e o escritor é James Patterson, cujos romances policiais e de espionagem já venderam cerca de 375 milhões de cópias em todo o mundo.

Nas últimas semanas, a “colaboração” dos dois, “O Dia em que o Presidente Desapareceu”, foi o livro mais vendido nos Estados Unidos. Em alguns mercados, chegou a vender sete vezes mais que o segundo colocado, “The Outsider”, de Stephen King.

Escrevi sobre o livro na “Folha”:

Patterson é uma verdadeira fábrica de “best sellers”: vendeu cerca de 375 milhões de cópias em todo o mundo, incluindo séries famosas com personagens como os detetives Alex Cross (vivido no cinema por Morgan Freeman) e Michael Bennett. Em 2017, o autor detinha o impressionante recorde de 114 livros na lista de mais vendidos dos “The New York Times”.

Patterson tem cerca de 150 livros publicados em uma carreira de 42 anos, o que dá quase 3,6 livros por ano. Esse impressionante ritmo de trabalho depende de uma estratégia engenhosa: o escritor conta com um time de cerca de uma dezena de coautores, que pegam suas idéias e as transformam em romances.

No caso da colaboração com Clinton, não está claro quem fez o quê. Em entrevistas, Patterson disse que a participação do ex-presidente garantiu ao livro informações de bastidores que só um homem na posição de Clinton poderia fornecer. Mas, lendo o romance, é difícil achar algo novo ou surpreendente, com exceção de algumas descrições de cômodos na Casa Branca.

“O Dia em que o Presidente Desapareceu” é um “thriller” político narrado por Jonathan Duncan, presidente dos Estados Unidos. Quando a história começa, Duncan está na pior, sendo pressionado pela oposição por conta de uma embaraçosa ligação com um conhecido terrorista. Mas o presidente tem uma coisa mais urgente – e secreta – com o que se preocupar: a ameaça de um ataque cibernético sem precedentes aos Estados Unidos, um vírus que poderia destruir o sistema financeiro e deixar o país em guerra civil, com escassez de alimentos e falta d’água. Ou como diz um terrorista: “Os Estados Unidos da América vão se transformar no maior país de Terceiro Mundo do planeta!”.

Não é só o presidente que desaparece na história: sumiram também lógica, credibilidade, tensão, suspense e emoção. A trama é tão absurda e cheia de passagens inverossímeis que o livro se torna divertido. Ou alguém acredita que o presidente dos Estados Unidos fugiria da Casa Branca e se disfarçaria para encontrar “secretamente” com um terrorista num estádio de beisebol com 30 mil espectadores?

Quem já leu um livro de Patterson sabia o que esperar: diversão escapista para matar tempo durante um vôo internacional. Mesmo assim, a trama surpreende pelo insólito: Duncan é perseguido por uma assassina de aluguel que adora ouvir sonatas de Bach enquanto acerta tiros de rifle a dois quilômetros do alvo, e organiza um encontro secreto e de “urgência” com os líderes políticos de Israel, Alemanha e Rússia, para falar sobre a ameaça do vírus cibernético.

A má qualidade da obra não impediu – aliás, deve ter ajudado – o livro a se tornar o mais vendido nos Estados Unidos nos últimos tempos. Na semana de 4 a 10 de junho, “O Dia em que o Presidente Desapareceu” vendeu cerca de 260 mil cópias em todos os formatos, incluindo e-books. Mais um número um na lista do “New York Times” para James Patterson.

Um ótimo fim de semana a todos.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.