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Zé do Caixão: os bastidores de um talk show diabólico

André Barcinski

16/05/2018 05h59

Padre Quevedo apavora Zé do Caixão


Esses dias, fiz uma entrevista para o canal de Youtube de meu amigão Júlio Bernardo (veja aqui na íntegra), e algumas pessoas elogiaram os trechos sobre minha experiência dirigindo o talk show “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, apresentado por José Mojica Marins. A estréia do programa acaba de completar dez anos, e achei uma boa oportunidade para escrever um pouco mais sobre a experiência.

“O Estranho Mundo de Zé do Caixão” foi o trabalho mais legal e divertido que fiz. Estreou em 2008 e durou sete temporadas. Era exibido por minha emissora favorita, o Canal Brasil (favor não confundir com a emissora pública TV Brasil). O Canal Brasil já tinha na grade programas diferentes como o “Larica Total” e talk shows sensacionais apresentados por Paulo Cesar Pereio e Ângela Ro Rô, e era o único canal da TV brasileira ousado o suficiente para bancar um programa de entrevistas apresentado por Zé do Caixão.

Tentamos fazer um talk show diferente, sem perguntinhas inofensivas sobre a próxima turnê de um cantor ou a cena favorita de um ator de “Malhação”. A tônica do programa seria o inusitado. Como os entrevistados estavam diante de um sujeito muito mais esquisito que eles próprios, acabavam se abrindo e contando coisas que raramente falavam em outros programas. Mojica sabia, melhor que ninguém, extrair confissões surpreendentes dos convidados.

O grande Lima Duarte falou de sua infância, passada numa casa habitada por espíritos; Elza Soares lembrou seus vários encontros com extraterrestres; Marcelo Rubens Paiva contou o dia em que viu o Saci (ou teria sido a Mula Sem Cabeça? Não lembro); o cantor Serguei relatou suas transas com seres alienígenas, e o sambista Dicró falou de suas experiências em terreiros de umbanda.

Foram 182 entrevistas no total. Algumas me marcaram muito: o dia em que conseguimos juntar dois lókis geniais como Mojica e Arnaldo Baptista foi um dos mais felizes de minha vida profissional. Veja aqui um trecho:

Outro momento mágico foi ver Zé do Caixão e Zé Bonitinho (Jorge Loredo) trocando de roupa e de personagem:

Jorge Loredo e Mojica trocam de personagens: Loredo de Zé do Caixão, e Mojica de Zé Bonitinho

Fizemos uma das últimas entrevistas com o Doutor Sócrates e batemos papos esotéricos e inesquecíveis com Padre Quevedo e INRI Cristo (que Mojica insistia em chamar de “Henry”). Essas confusões com os nomes dos convidados, aliás, se tornaram outra atração do programa.

Antes de continuar, preciso explicar que José Mojica Marins vive num universo próprio. Ele não sabe quem são os novos cantores do Brasil e não conhece atores surgidos depois de Tony Ramos, além de ter uma dificuldade patológica em lembrar nomes (Mojica conhece minha mulher há 17 anos e ainda a chama de “Garota legal”, porque não lembra o nome dela).

Na primeira temporada, entrevistamos o estilista Alexandre Herchcovitch. Mojica levou mais de 40 minutos para acertar o “Herchcovitch”. Era “Hercochique” pra cá, “Hepatich” pra lá, um desespero. A situação ficou tão crítica que Mojica, exausto, implorou para apresentá-lo simplesmente por “Alexandre”. Eu estava na mesa de corte, dirigindo a entrevista pelo ponto eletrônico, quando comecei a ouvir um grunhido baixinho, mas que vazava nos microfones. Era o coitado de um assistente de som, encolhido num canto, chorando de rir e mordendo o próprio braço para não deixar vazar o barulho de seus muxoxos.

Depois disso, começamos a fazer algo raro num talk show: gravar a apresentação dos convidados sem os convidados. Era a única maneira de evitar que eles fossem chamados de outra coisa.

As gravações das apresentações logo viraram atração no estúdio: equipes de outras salas de filmagem e funcionários do lugar vinham à nossa gravação só para ver Mojica errando o nome de todo mundo.

A jornalista Lorena Calabria virou Lilian Calabresa; o rapper Emicida virou “o cantor Homicida”; Edgar Scandurra foi chamado de “Hildegard”, e o cantor BNegão virou “Benergão”. Para piorar, Mojica sofria – aliás, ainda sofre – de uma espécie de síndrome de Cebolinha às avessas, e frequentemente trocava o “L” pelo “R”. Assim, apresentou o humorista Cráudio Paiva e os roqueiros Supra e Toni Pratão.

Como fazíamos várias entrevistas no mesmo dia, Mojica confundia alguns dos entrevistados: chamou Nelson Motta de Agnaldo Timóteo (e, minutos depois, de Agnaldo Rayol!), Almir Guineto de Emílio Santiago, Moacyr Luz de Osvaldo Montenegro, e apresentou Juca Chaves como comentarista esportivo.

Não deixe de assistir, aqui e aqui, coletâneas de erros de gravação do programa; dá para ouvir as gargalhadas da equipe.

Certa vez, entrevistamos a banda de rock Gangrena Gasosa. Como só vieram dois integrantes para a entrevista, Mojica achou tratar-se de uma dupla, Gangrena e Gasosa (veja a entrevista, hilária, aqui).

Mas os papos eram tão descontraídos e Mojica, tão amável, que os convidados não se importavam. Um dos mais gentis foi Eduardo Dussek. Ao fim da entrevista, Dussek perguntou:

– André, você percebeu que ele me chamou de Eduardo Durex, né?

– Pô, Eduardo, desculpe, espero que você não tenha ficado chateado…

– Chateado, eu? De jeito nenhum! Fiquei encantando! Nunca ninguém me chamou de Durex antes!

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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