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Quem fez subir o Balão Mágico?

André Barcinski

09/04/2018 05h59


Minha colega Adriana de Barros noticiou: o Balão Mágico voltará aos palcos no dia 2 de junho (leia aqui).

Para quem não lembra, A Turma do Balão Mágico foi um dos maiores vendedores de discos no Brasil dos anos 80. Foi também um grupo inteiramente criado dentro de uma gravadora, a CBS.

Em meu livro “Pavões Misteriosos”, contei a história da invenção do Balão Mágico e de como a CBS lucrou com a venda de 10 milhões de discos. O único que não faturou muito com o grupo foi justamente o autor da maioria das músicas (muitas delas, versões de canções estrangeiras), o talentoso músico Edgard Poças, pai da cantora Céu. É uma história que não tem nada de infantil…

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Na virada dos anos 1970 para os 1980, a indústria do disco no Brasil já não lembrava em nada aquele tempo de ingenuidade e amadorismo de dez anos antes. Gravadoras, TVs e rádios se uniram para espremer cada centavo dos consumidores, usando estratégias comerciais agressivas. Em um mercado cada vez mais competitivo, era necessário identificar públicos ainda pouco explorados. E a indústria não demorou a ir atrás de um tipo de consumidor extremamente fiel e numeroso: a criança.

Em 1981, o presidente da CBS, Tomás Muñoz, viu uma menina de cinco anos, Simony Benelli, cantando no programa de TV de Raul Gil. Ela pareceu ser a estrela que ele buscava para o projeto de um grupo pop formado por crianças. Na Espanha, terra de Muñoz, o duo Enrique y Ana fazia enorme sucesso cantando músicas para a criançada. O executivo sabia que o mercado infantil estava prestes a explodir no mundo todo, e no Brasil não seria diferente.

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Além de Simony, a CBS contratou um menino chamado Vimerson Benedicto, de dez anos, que havia se destacado em concursos de calouros na TV. Como Vimerson não era o nome mais apropriado a um pop star, a gravadora rapidamente arranjou-lhe um outro: Tob. O grupo se completou com Mike, de seis anos, filho do inglês Ronald Biggs, o famoso assaltante do trem pagador.

Biggs havia fugido da prisão na Inglaterra e vivia desde 1970 no Rio de Janeiro, onde se tornara uma atração turística, dando autógrafos para visitantes ingleses e participando de festas com bandas de rock como Sex Pistols e Rolling Stones. Em abril de 1981, foi sequestrado por um grupo de mercenários britânicos que queria levá-lo de volta à Inglaterra e exigir uma recompensa do governo do país. Mike apareceu na tv fazendo um apelo emocionado pela libertação do pai. Os executivos da cbs ficaram impressionados com o carisma do menino e o contrataram. Biggs também teve sorte: o navio no qual seus sequestradores o levavam teve problemas técnicos em Barbados, e a turma toda foi presa. Como Barbados não tinha tratado de extradição com a Inglaterra, Biggs retornou ao Brasil.

Com Simony, Tob e Mike, a CBS tinha finalmente o seu supergrupo pop infantil: A Turma do Balão Mágico.

Certo dia, o compositor Edgard Poças recebeu um telefonema de Claudio Condé, diretor da cbs (e ex-membro do grupo Lee Jackson), que lhe disse que a gravadora estava trabalhando sigilosamente no projeto de um grupo infantil e que gostaria que ele ajudasse com repertório e arranjos. “Condé me disse que a cbs queria fazer um disco de teste. Se vendesse o esperado, eles fariam o segundo.” O diretor pediu a Poças que selecionasse o repertório e prometeu mandar algumas músicas estrangeiras para ele escrever versões em português. Embora tivesse escrito canções para uma peça infantil em parceria com o pianista Nelson Ayres, Poças não tinha grande experiência com música para crianças e estava mais ligado à Bossa Nova e à MPB. Era amigo de Vinicius de Moraes, com quem havia tomado vários porres, e tinha uma carreira de sucesso compondo jingles publicitários. Ele é pai de Maria do Céu, a cantora conhecida pelo público apenas como Céu.

O músico Edgard Poças – Foto: arquivo pessoal

Poças selecionou 52 músicas para o disco, incluindo composições de Braguinha (“Tem gato na tuba”), Hervé Cordovil (“P.R. você”), Ary Barroso (“Upa, upa!”) e Wilson Batista (“Caubói do amor”). Algumas nem eram canções infantis. “Fiz uma seleção bem ampla, tinha coisas do Villa-Lobos, umas coisas bem poéticas. Gravei tudo com voz e violão e mandei a fita pra CBS.” Pouco depois, o compositor recebeu um malote da gravadora com músicas estrangeiras – na maioria, espanholas e italianas – para que ele criasse as versões em português. Entre elas estavam “El pato cantor”, do palhaço espanhol Emilio Aragon, e “El baile de los pajaritos”, que Poças traduziu por “Baile dos passarinhos” (“Passarinho quer dançar/ o rabicho balançar/ porque acaba de nascer/ tchu, tchu, tchu, tchu…”), uma famosa canção dos anos 1950 que, diferentemente do que muitos achavam, não era espanhola, mas havia sido composta por um acordeonista suíço chamado Werner Thomas.

O primeiro LP da Turma do Balão Mágico saiu em 1982. Tinha arranjos e regência de Lincoln Olivetti e um time de instrumentistas extraordinários: além do próprio Lincoln nos teclados, contou com seu parceiro Robson Jorge na guitarra, o baixista da Banda Black Rio, Jamil Joanes, o baterista Picolé, veterano de gravações com Raul Seixas, Rita Lee e Elis Regina, e o guitarrista e violonista Nilo Pinta. Os corais foram gravados por Jane Duboc, Claudia Telles e a dupla Cynara e Cybele, do Quarteto em Cy. Duboc cantou solo em “Baile dos passarinhos”.

Pouco depois do lançamento, Poças foi chamado à sede da CBS, no Rio, onde Condé lhe deu as boas notícias: o disco estava vendendo bem, e a gravadora resolvera lançar um segundo LP. Mais que isso: A Turma do Balão Mágico tinha virado prioridade na CBS. O novo disco seria ainda mais pop e comercial que o primeiro. Mauro Motta, produtor de Roberto Carlos, ficaria responsável pelo LP; os arranjos seriam de Lincoln Olivetti e do maestro Chiquinho de Moraes, veterano de trabalhos com Roberto Carlos, Elis Regina e Chico Buarque. Poças lembra que a ordem na empresa era fazer um disco mais dançante, para tocar no rádio. A gravadora já tinha até a primeira música: “Juntos”, um sucesso pop espanhol, que seria regravado em português com a participação de Baby Consuelo.

Poças percebeu que não teria mais espaço para incluir músicas de seus ídolos Ary Barroso, Braguinha ou Wilson Batista: “A gravadora queria músicas pop, isso ficou bem claro. Toda vez que eu vinha com uma ideia mais MPB, eles diziam: ‘Ih, lá vem o Tom Jobim!’”. Com exceção de “Mãe-iê”, do sambista Osvaldo Nunes, as outras nove faixas do disco eram versões de sucessos infantis do pop espanhol. Uma música que Tomás Muñoz não queria no disco acabou se tornando o maior sucesso do LP: “Superfantástico”, composta pelo espanhol Ignacio Ballesteros e imenso sucesso na Espanha com a dupla Enrique y Ana.

Os créditos de “Superfantástico” são motivo de disputa: cada um dos envolvidos tem a sua versão. No livro Banda de milhões, de Tom Gomes, o então diretor da CBS Marcos Maynard (e também ex-membro do grupo Lee Jackson), diz que a decisão de gravar a música foi dele, e à revelia do patrão, Tomás Muñoz: “Eu tinha certeza de que essa seria a grande música do segundo disco do Balão Mágico. Escondidos do Tomás, gravamos”. Já Edgard Poças conta outra história: diz que ouviu “Superfantástico” e imediatamente reconheceu o potencial da canção: “O Tomás Muñoz não gostava dessa música, mas eu achei boa pra cacete. Lembro que comentei sobre ela com o Mauro Motta, o produtor, e ele disse pra eu esquecer, que o Tomás não queria”. A música original era um dueto entre Ana, uma criança, e Enrique, um jovem adulto. Poças teve a ideia de colocar um adulto para cantar com o Balão Mágico. E o primeiro nome em que pensou foi Roberto Carlos, o maior astro da CBS.

A primeira versão em português de “Superfantástico” começava com os versos “Ei, meu amigo Roberto/ que bom estar contigo no nosso balão”, mas Poças achou que o “Rei” não toparia, e logo desistiu da ideia. Na mesma noite, ao botar as filhas para dormir, ele viu no quarto das crianças uma boneca negra de tranças longas e teve uma “epifania”: “Puta que pariu, o Djavan!”. Era perfeito: o cantor acabara de trocar a EMI pela CBS e havia estourado com o disco Luz, que trazia hits como “Samurai”, “Açaí” e “Sina”. Poças mudou a letra para “Ei, Djavan, meu amigo/ que bom estar contigo no nosso balão”, mas depois ficou inseguro com a decisão. “E se o Djavan não topasse? Achei que seria mais prudente fazer uma letra mais genérica, que pudesse ser cantada por qualquer um.” No fim, a letra ficou assim: “Superfantástico amigo/ que bom estar contigo no nosso balão”.

Poças gravou a música no violão e marcou um encontro com Condé, que estava na cidade para ver um show. “Tomamos um porre daqueles. Na hora de ir embora, eu disse ao Condé que queria mostrar uma coisa pra ele. Fui até o carro e coloquei a fita: ‘Claudio, vou colocar uma música pra você ouvir. No começo vai ser só o Balão Mágico cantando. Quando eu fizer um sinal, imagine que é o Djavan cantando… Daí, coloquei ‘Superfantástico’. Quando chegou na parte do Djavan, o Condé só conseguiu dizer uma coisa: ‘Puta que pariu! Puta que pariu! Puta que pariu!’. Eu implorei: ‘vamos gravar essa porra!’ Dois ou três dias depois, o Condé me ligou e disse que o Djavan queria gravar.”

O segundo disco do Balão Mágico chegou às lojas em 1983 e foi uma explosão. Em abril, o grupo estreou um programa na Globo, o que aumentou ainda mais as vendas. No ano seguinte, o Balão ganhou um novo integrante: Jairzinho, de nove anos, filho do cantor Jair Rodrigues. Tomás Muñoz contratou o menino depois de vê-lo na TV, cantando com o pai.

O maior desafio de Edgard Poças, entretanto, viria no terceiro disco do grupo: compor uma música para Roberto Carlos. Impressionado com as vendas estratosféricas do Balão Mágico, Roberto topou cantar na faixa “É tão lindo”, versão de “It’s Not Easy”, tema do filme Pete’s Dragon (1977), da Disney. Poças, dono de um senso de humor um tanto anárquico, aprontou uma armadilha para o “Rei”: “A cbs me mandou uma lista com todas as palavras que o Roberto não gostava de cantar – ‘azar’, ‘marrom’, essas coisas – e eu coloquei uma de que ele também não gostava, ‘velho’, só pra ver no que ia dar. O verso era ‘Somos velhos companheiros/ os três mosqueteiros’. Na hora da gravação, Roberto trocou ‘velhos’ por ‘grandes’”.

Veja aqui, a 2:07, o momento em que, segundo Poças, o “Rei'' mudou a letra da canção:

Até o fim do grupo, em 1986, A Turma do Balão Mágico lançaria mais dois LPs. Foi o grupo infantil campeão de vendas no país, com cerca de 10 milhões de cópias, e um marco da “fabricação” de pop stars pela indústria. O Balão foi um dos primeiros grupos pop brasileiros criados como um produto, a partir de pesquisas de mercado e de uma intensa participação do departamento de marketing da CBS. Em uma então inédita jogada de promoção, o quarto disco do grupo trazia, em cada cópia, um cheque no valor de 5 mil cruzeiros [cerca de R$ 3,30, em valores atuais], que as crianças poderiam usar para abrir caderneta de poupança na Caixa Econômica Federal.

Todo mundo ganhou muito dinheiro com o Balão Mágico. Menos Edgard Poças, o músico que escreveu quase todas as letras do grupo. “Não gosto nem de falar nisso, porque me dá uma tristeza enorme. Tem música pela qual não recebi e não tenho contrato até hoje. É uma coisa sórdida. Eu me sinto traído por caras que me chamavam de irmãozinho, que batiam nas minhas costas e diziam que tudo ficaria bem.” Uma das letras que Edgard Poças faria para o Grupo Dominó, outra invenção da CBS – e de Gugu Liberato –, resumiria sua frustração com o calote do Balão Mágico: “Tô p… da vida!”.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

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Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.