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André Barcinski

"O Mecanismo": o problema é narrativo, e não ideológico

André Barcinski

28/03/2018 05h59

Crítica de filme não é lugar para patrulhamento ideológico. Acho que cineastas são livres para fazer o filme que bem entenderem. Wagner Moura tem o direito de filmar a vida de Marighella como quiser, assim como José Padilha pode contar a história da Operação Lava Jato da maneira que preferir. Foi o que Padilha fez em "O Mecanismo", série que estreou esses dias na Netflix.

"O Mecanismo" não é um documentário, e se apresenta como "uma obra de ficção inspirada livremente em eventos reais". Padilha inventou dois personagens centrais, os delegados Marco Ruffo (Selton Mello) e Verena Cardoni (Caroline Abras), que investigam o doleiro Roberto Ibrahim (Enriquer Diaz), este claramente inspirado em Alberto Youssef.

Assisti a seis dos oito episódios. Meu colega Daniel Castro viu a série inteira, e escreveu sobre como os personagens reais – Lula, Dilma, Aécio, Temer – são retratados (leia aqui).

Não tenho o menor problema com obras de ficção que se permitem liberdades com personagens reais. Meu problema com "O Mecanismo" não é de ordem ideológica, mas narrativa: a série simplesmente não funciona como "thriller" político. Falta ritmo, falta emoção e, principalmente, falta surpresa.

Assim como fez na série "Narcos", José Padilha usa e abusa do recurso da narração em "off", na qual os personagens narram a história, explicam os acontecimentos e contam inclusive o que estão pensando em certas cenas (aliás, contam também o que outros personagens estão sentindo e pensando).

A narração em "off", quando bem usada – pense em quase todos os filmes de Scorsese – pode ser um trunfo para dar ao espectador "insights" sobre os personagens. Usada sem parcimônia, como em "O Mecanismo", se torna um fardo, uma muleta para tentar amarrar a história e explicar a trama e motivações dos personagens.

Aqui, a narração atrapalha tudo: em primeiro lugar, prejudica a apreciação do trabalho dos atores, porque o espectador está constantemente sendo alertado sobre os sentimentos de cada personagem: "Fulano estava puto"; "Sicrana ficou arrasada".

Em segundo lugar, atrapalha a fluência da história, porque todo passo da investigação é acompanhado por uma explanação. A série perde ritmo, e isso é fatal para um "thriller".

Em terceiro lugar, e mais irritante, a narração trata o espectador como uma toupeira, porque não lhe dá o direito de pensar por si próprio.

Um exemplo: na série há um personagem que surge de repente na trama e passa a trabalhar com a equipe da Polícia Federal. Ninguém sabe nada sobre o sujeito. Em certo momento, ouvimos a voz da delegada Verena dizendo algo como: "Eu deveria ter desconfiado, ele passava todas as nossas informações para alguém", enquanto vemos o sujeito se escondendo num banheiro para ligar para seu contato e alertar sobre uma operação da PF. Não bastaria mostrar o sujeito dando o telefonema às escondidas? Será que o espectador não conseguiria entender sozinho que ele era um agente duplo? É preciso explicar o que o espectador está vendo?

Algumas narrações são tão estrambólicas que chegam a ser engraçadas. Separei quatro:

"Se o Brasil fosse um país sério, e as pessoas que trabalham com afinco fossem respeitadas, se houvesse justiça divina e o bem sempre vencesse o mal (…) só que o Brasil não é um país justo, Deus não existe, e não é brasileiro."

Ora, se Deus não existe, certamente não é brasileiro, certo?

E que tal essa:

"A bala bateu na quina do osso estenoide, desviou pra baixo num ângulo oblíquo, e saiu pela base do maxilar direito. O médico disse que isso acontece uma vez a cada três mil tentativas de suicídio. É, foi um baita milagre!"

Também tem essa, que parece saída de uma pornochanchada brazuca dos anos 70:

"No final da noite, só o Ibrahim gozou, mas quem tava pronta pra foder com todo mundo era eu!"

E minha predileta:

"A delação tava salva. Pena que eu não podia falar o mesmo do meu casamento."

O curioso é que algumas cenas que não apelam ao tsunami de narrações funcionam muito bem: há um excelente diálogo entre os personagens de Selton Mello e Enrique Diaz dentro de um camburão, e uma sequência em que ricaços corruptos queimam documentos comprometedores à beira de uma piscina diz mais sobre a mentalidade de parte de nossa elite do que todos os monólogos em que Selton Mello fala das "ratazanas que infestam o Judiciário em Brasília".

Em entrevistas, os produtores de "O Mecanismo" disseram ter se inspirado em clássicos dos "thrillers" políticos, como "Três Dias do Condor" (Sidney Pollack, 1975), e "Todos os Homens do Presidente" (Alan J. Pakula, 1976). Está aí uma boa comparação: "Todos os Homens do Presidente" tem uma penca de personagens e uma história complexa, envolvendo espionagem nos mais altos escalões do governo norte-americano, e não apela uma vez sequer para a narração. Toda a trama é contada por meio de ação e diálogos. Você pode não ter a menor ideia de quem é Richard Nixon, mas entende a história perfeitamente. A narrativa é tão bem feita que o espectador vai desvendando a trama junto com os dois repórteres.

O Mecanismo", infelizmente, não parece confiar tanto assim na inteligência de seu público.

Para terminar: estou ficando surdo, ou realmente não dava para entender boa parte dos sussurros do Selton Mello Confesso que apelei às legendas para acompanhar os diálogos. Eu não tinha enfrentado tanta dificuldade para entender frases em português desde que vi um programa de TV em que Paulo César Peréio entrevistava Jards Macalé.

Um ótimo feriado a todos. O blog volta segunda, dia 2 de abril.

Sobre o autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu sete livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental “História Secreta do Pop Brasileiro”.

Sobre o blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às terças-feiras.