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André Barcinski

Dolly Parton: a "loura burra" que doou 100 milhões de livros

André Barcinski

16/03/2018 05h59

Quando lançou seu primeiro LP, em fevereiro de 1967, a cantora e compositora Dolly Parton, então com 21 anos, incluiu uma canção que era uma verdadeira declaração de princípios: "Dumb Blonde" ("Loura Burra").

"Quando você me deixou, achou que eu ficaria sentada / achou que eu esperaria / achou que eu choraria / me chamou de loura burra / ah, mas de alguma maneira eu sobrevivi / e aprendi uma coisa / que as louras se divertem mais (…) só porque sou loura / não pense que sou burra / porque essa loura burra não é trouxa".

Os 51 anos seguintes mostraram que Dolly Parton estava certa: ela não tinha nada de burra ou trouxa. Pelo contrário: tornou-se uma das artistas de maior sucesso comercial do mundo, uma compositora consagrada e, mais importante, uma celebridade que usou sua fama e riqueza para fazer o bem.

Há duas semanas, a Biblioteca da Imaginação, a fundação que ela inaugurou em 1996 em homenagem ao pai, que morreu analfabeto, chegou ao número espantoso de 100 milhões de livros doados gratuitamente para crianças pobres nos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália.

A Biblioteca da Imaginação envia para as casas de famílias um livro por mês, até a criança completar cinco anos. A ideia, segundo Dolly, é que a criança, depois de ser alfabetizada, tenha à disposição uma coleção de bons livros. A seleção dos títulos é feita por uma comissão de especialistas em literatura infantil.

A inspiração para a Biblioteca da Imaginação, segundo Dolly, foi seu pai, Lee, um operário e trabalhador rural que morreu aos 79 anos, sem aprender a ler. "Vi como isso marcou a vida de meu pai", disse Dolly.

Os Parton tiveram uma vida difícil. Moravam numa área rural e pobre no interior do Tennessee. Antes de completar 35 anos, a mãe de Dolly, Avie, havia dado à luz 12 crianças. Dolly começou a cantar em igrejas e rádios locais, e aos 18 anos mudou-se para Nashville, capital da música country, onde fez uma carreira de compositora e rapidamente atraiu atenção de cantores e gravadoras. Antes de fazer 21 anos, Dolly já havia composto sucessos para Hank Williams Jr., Skeeter Davis e Kitty Wells.

Em 1974, Dolly lançou um compacto com uma bonita canção que escreveu, chamada "I Will Always Love You". A música chegou a primeiro lugar na parada country duas vezes: a primeira em 1974 e a segunda em 1982, quando Dolly a regravou para a trilha da comédia "A Melhor Casa Suspeita do Texas". Alguns anos depois, Whitney Houston regravaria a canção e venderia perto de 20 milhões de cópias do compacto, além de 17 milhões de LPs com a trilha do filme "O Guarda-Costas", até hoje a trilha sonora mais vendida da história da música.

Em mais de 50 anos de carreira, Dolly Parton compôs cerca de 3 mil canções, vendeu 100 milhões de discos, atuou em filmes e séries de TV, escreveu livros e produziu peças musicais. Mas seu maior feito é enviar, todo mês, 900 mil livros para 900 mil crianças.

Dolly Parton sempre brincou com a própria imagem e não se importa em ser vista como a personagem da loura burra: "Eu não me importo com as piadas de loura burra", disse certa vez. "Porque sei que não sou burra… e também sei que não sou loura!"

Um ótimo fim de semana a todos.

Sobre o autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu sete livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental “História Secreta do Pop Brasileiro”.

Sobre o blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às terças-feiras.