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"Piripkura": um grande filme no coração da Amazônia

André Barcinski

09/03/2018 05h59

Há muito tempo um filme não me emocionava como “Piripkura''.

Dirigido por Mariana Oliva, Renata Terra e Bruno Jorge, o documentário, em cartaz nos cinemas, conta a história de uma missão de um grupo de funcionários da Funai, liderado por um homem chamado Jair Candor, em busca de dois índios da etnia Piripkura, na região das fronteiras de Mato Grosso, Rondônia e Amazonas.

Candor está na Amazônia há mais de meio século e é especializado em tribos isoladas. Há 30 anos, ele rastreia os passos de Pakyî e seu sobrinho, Tamandua, que vivem sozinhos na floresta.

Candor precisa encontrar os índios – ou pelo menos achar provas de que eles ainda estão vivos – para manter uma portaria do governo que protege a região destinada aos Piripkura. A área é ameaçada por extração de madeira e pecuária.

Documentários sobre questões ambientais e indígenas costumam ser povoados por alguns clichês irritantes. Em primeiro lugar, são excessivamente panfletários e professorais, com especialistas dando suas opiniões e tentando direcionar o espectador. Em segundo lugar, costumam tratar índios de forma condescendente e vitimista, e louvam o trabalho de ativistas como se fossem super-heróis. A floresta é geralmente mostrada como um paraíso verde, um cenário idílico ameaçado pela ação destruidora do progresso.

“Piripkura'' não sofre de nenhum desses males. Não há entrevistas com “experts''. Não há mocinhos ou bandidos. Não há imagens da Amazônia feitas por drones, mostrando a pujança da floresta. Toda a ação se passa na mata. A floresta não é um cenário de cartão-postal, mas um território inóspito e duro, onde cada quilômetro caminhado representa um sacrifício.

O filme não perde tempo denunciando o desmatamento da Amazônia e reclamando da ineficiência dos governos ao tratar das questões ambiental e indígena. Isso fica claro nas imagens de queimadas e de caminhões transportando imensos troncos de madeiras nobres. O filme é inteligente demais para espancar o público com significado.

O mais importante em “Piripkura'' são os personagens: Jair Candor, que há mais de meio século dedica a vida a brasileiros com os quais poucos se importam; Rita, a Piripkura que casou e largou a floresta, e Pakyî e Tamandua, que continuam vivendo como seus antepassados, enfrentando a Amazônia com uma tocha e um facão.

Um ótimo fim de semana a todos.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.