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Sangue, crimes e Bob Marley: “Sete Assassinatos” é o livro policial do ano

André Barcinski

31/07/2017 05h59


Um dos destaques da Flip, encerrada ontem em Paraty (RJ), foi o escritor jamaicano Marlon James.

Em 2015, James, 46, venceu o prestigioso Man Booker Prize por "Breve História de Sete Assassinatos", que sai agora no Brasil pela editora Intrínseca. Li há uns dois anos e achei fora de série.

O título do livro é enganoso. Em primeiro lugar, não é uma história "breve" – tem mais de 700 páginas e 76 personagens – em segundo lugar, não descreve sete assassinatos, mas algumas dezenas.

O livro de James é um épico histórico-policial que conta a história criminal da Jamaica entre as décadas de 1970 e 80, focada em um grupo de bandidos que viria a formar a mais temida gangue do pedaço – e, posteriormente, expandir suas atividades para os Estados Unidos.

O centro da narrativa é o atentado contra o cantor Bob Marley (chamado no livro de "Artista"), um acontecimento real ocorrido em 1976 e que por pouco não matou o rei do reggae.

Não é só a história do livro que é interessante. O estilo narrativo empregado por James também. Ele usou múltiplos narradores, que contam os acontecimentos por seus próprios pontos de vista e com linguajares próprios. O resultado é uma narrativa um tanto fragmentada e por vezes caótica, mas que adquire um tom quase surreal graças às vozes bizarras e imaginativas (e chapadas também, claro) de alguns personagens.

Deve ter dado um trabalho monstruoso criar todas essas vozes. E outro trabalho penoso certamente foi traduzir para o português as impenetráveis gírias e o "patois" jamaicano de alguns dos personagens, tarefa que ficou com o tradutor André Czarnobai. Li o livro em inglês e não tenho como falar da tradução, mas dois amigos que leram a versão em português elogiaram bastante o texto.

Alguns críticos enxergaram na prosa de James influência de "Enquanto Agonizo" (1930), em que William Faulkner usa mais de uma dezena de narradores para contar uma história sob diversos pontos de vista. James admite a influência de Faulkner, mas sempre disse que a obra que realmente o influenciou foi "Tablóide Americano" (1995), de James Ellroy, em que Ellroy usa um crime – a morte do presidente John Kennedy – como base para contar a história do submundo policial e político dos Estados Unidos entre 1958 e 1963. Ellroy, por sua vez, nunca escondeu a admiração por "Libra" (1988), de Don De Lillo, que também mistura fato e ficção para contar a vida de Lee Harvey Oswald, assassino de Kennedy.

Tentei entrevistar Marlon James para o blog, mas infelizmente não foi possível. Ele estava com a agenda de entrevistas lotada e, no único dia em que poderia falar, eu tinha a mediação de dois debates. Por sorte encontrei-o andando pelo Centro Histórico de Paraty, procurando um restaurante para almoçar, e falamos por alguns minutos. Ele disse estar adorando Paraty e a Flip.

Perguntei sobre o tema do debate que ele faria no domingo ("O Grande Romance Americano"), e ele respondeu: "Não sei se existe um grande romance que sintetize os Estados Unidos, mas se alguém botasse uma arma na minha cabeça e exigisse que eu escolhesse um, seria 'Tablóide Americano'."

ACREDITE: KILLING JOKE NA TV

O Sundance Channel anuncia para hoje, às 19h25, "The Death and Ressurrection Show", excelente documentário sobre a banda pós-punk Killing Joke. Uma palavra: assista.

Sobre o autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu sete livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental “História Secreta do Pop Brasileiro”.

Sobre o blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às terças-feiras.

André Barcinski