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André Barcinski

E aí, já está com saudades das grandes gravadoras?

André Barcinski

21/06/2017 08h46

A gravadora Polysom, especializada em relançamentos de álbuns em vinil, acaba de recolocar no mercado dois discos importantes do pop brasileiro: "Lóki?" (1974), de Arnaldo Baptista, e "Alucinação" (1976), de Belchior.

"Lóki?" foi o primeiro LP de Arnaldo Baptista depois de sua saída dos Mutantes e do fim de seu romance com Rita Lee. Um disco dilacerante, em que o compositor de 26 anos expunha sua fragilidade emocional em canções sobre drogas, melancolia, discos voadores e amores não correspondidos. Tudo tão etéreo e delicado que parecia que Arnaldo iria se despedaçar a qualquer momento.

Já "Alucinação" foi o segundo disco solo de Belchior (1946-2017) e trazia músicas que se tornariam clássicas de seu repertório, como "Apenas um Rapaz Latino-Americano" e "Como Nossos Pais".

Vale a pena ouvir novamente os discos para perceber não só a qualidade das composições, mas de toda a produção dos trabalhos. "Lóki?" foi produzido por Roberto Menescal e Mazzola, e teve arranjos de Rogério Duprat. "Alucinação" foi produzido por Mazzola e contou com uma excelente banda de apoio, com o tecladista José Roberto Betrami (do grupo Azymuth), o guitarrista Rick Ferreira (braço direito de Raul Seixas) e o baixista Paulo Cesar Barros, entre outros.

"Lóki?" e "Alucinação" têm duas coisas em comum, além da qualidade: ambos foram lançados por uma grande gravadora multinacional (no caso, a holandesa Philips) e não tinham grandes perspectivas comerciais. Foram discos ousados, em que a gravadora claramente arriscou seu dinheiro em artistas talentosos, mas que não faziam grande sucesso comercial (nem os Mutantes, banda de Arnaldo, havia sido um sucesso de vendas).

Isso é mais uma prova de que as grandes gravadoras, tão demonizadas, não foram tão ruins assim para a música brasileira. Até o fim dos anos 1980, quando a qualidade de nossa música pop caiu (e isso é assunto para outra coluna), havia por aqui excelentes gravadoras e muitos executivos e produtores talentosos trabalhando para multinacionais.

Claro que ninguém era santo ou estava nessa por caridade. Gravadoras são empresas privadas, e empresas privadas precisam dar lucro. Mas quando a gente lembra que a Som Livre, braço fonográfico da Rede Globo, lançou discos como "Acabou Chorare" (1972), dos Novos Baianos, e "Sweet Edy" (1974), de Edy Star, talvez o primeiro LP de temática assumidamente gay do Brasil, é sinal de que talvez esteja na hora de reavaliar o papel das gravadoras na história de nossa música pop.

Escrevi sobre isso em meu livro "Pavões Misteriosos":

O período entre 1970 e 1976 foi uma época de ouro para o pop brasileiro, marcada por discos ousados dos Mutantes (Mutantes, A divina comédia ou Ando meio desligado e Jardim elétrico), de Fagner (Manera, Fru Fru, manera e Ave noturna), Caetano Veloso (Transa), Gilberto Gil (Expresso 2222), Jorge Ben (A Tábua de Esmeralda, Negro é Lindo), Raul Seixas (Gita, Novo Aeon), os primeiros discos de Tim Maia, Secos e Molhados (Secos e Molhados), Odair José (Assim sou eu), Belchior (Alucinação), Wilson Simonal (Simonal), Gal Costa (Legal, Fatal e Índia), Walter Franco (Revolver), Novos Baianos (Acabou chorare e Novos Baianos F.C.), Maria Bethânia (Drama e Pássaro proibido), Jards Macalé (Jards Macalé e Aprender a nadar), Luiz Melodia (Pérola negra), Alceu Valença (Vivo), Zé Rodrix (1o acto e Soy latino americano), Clube da Esquina (Clube da esquina), Ney Matogrosso (Água do céu – Pássaro e Bandido), Sá, Rodrix e Guarabyra (Passado, presente e futuro e Terra), O Terço (Criaturas da noite), Milton Nascimento (Minas e Geraes), Rita Lee & Tutti Frutti (Fruto proibido), Guilherme Arantes (Guilherme Arantes), Hyldon (Na rua, na chuva, na fazenda (Casinha de sapé)) e Marcos Valle (Garra, Vento sul e Previsão do tempo).

Por que tantos bons discos foram lançados na mesma época? Fiz a pergunta a todos os artistas e produtores que entrevistei para este livro, e a resposta foi quase sempre a mesma: "Porque havia liberdade para gravar". Ednardo disse: "Ninguém da gravadora me dizia o que fazer. Eu gravava o que queria e entregava o disco pronto pra ela". Pepeu Gomes descreve assim a reunião que os Novos Baianos tiveram com João Araújo, diretor da Som Livre – e pai de Cazuza –, quando assinaram contrato com a gravadora: "João disse que podíamos gravar o que a gente quisesse, que ninguém ia meter a mão em nada. E ele cumpriu a promessa". O resultado foi Acabou chorare (1972), um clássico absoluto do pop-rock brasileiro.

Em uma entrevista a Ruy Castro, publicada na revista Playboy, Erasmo Carlos falou de sua ida para a Philips/Polygram, em 1971. Na época, o cantor passava por um momento de ostracismo. A Jovem Guarda tinha acabado e seus integrantes eram malhados pela crítica e por outros artistas, que os recriminavam por ter feito música comercial e considerada de baixa qualidade. "O André Midani [diretor da gravadora] me levou para a Polygram, me deu plena liberdade e me disse: 'Você vai gravar o que quiser, com quem quiser, da forma que quiser. Faça o que você quiser, mas faça. É importante qualquer coisa que você crie'."

O primeiro disco de Erasmo na gravadora foi Carlos, Erasmo, um LP audacioso, com influências de samba-rock, soul music e rock psicodélico, que trazia letras eróticas ("Dois animais na selva suja da rua", de Taiguara) e até uma ode à maconha, "Maria Joana", composta em parceria com Roberto Carlos: "Só ela me traz beleza/ nesse mundo de incerteza/ quero fugir, mas não posso/ esse mundo inteirinho é só nosso". Quando perguntei a André Midani por que havia lançado discos tão anticomerciais nos anos 1970, como Araçá azul, um LP experimental de Caetano Veloso que bateu recorde de devoluções em lojas, ele respondeu: "Porque eu achei, com toda sinceridade, que ia vender. Na minha cabeça, aquilo seria um estouro. Não quero me atribuir um papel de Dom Quixote, mas eu achei que ia vender, e quebrei a cara".

A verdade é que as gravadoras brasileiras ainda eram, no fundo, empresas quase amadorísticas, onde um ou dois chefes decidiam tudo. Não que os executivos fossem diletantes ou mecenas, mas as estruturas das gravadoras eram enxutas, e muitas decisões artísticas eram tomadas por instinto e gosto pessoal. Não havia testes de preferência do público ou pesquisas de mercado. "Eu não me preocupava em medir o mercado ou em racionalizar muito", conta Midani. O executivo tentou criar na Philips um "grupo de estudo" que reuniu os jornalistas Zuenir Ventura, Artur da Távola e Dorrit Harazin, produtores musicais, como Nelson Motta, e até o escritor Rubem Fonseca e a psiquiatra Nise da Silveira. A função do grupo era entrevistar os artistas e tentar descobrir o "segredo do sucesso", mas a iniciativa se mostrou improdutiva. "Aquilo era um saco", lembra Odair José. "Os caras achavam que eu fazia sucesso porque toda música tinha um 'tema' forte. Ficaram um tempão perguntando sobre meus 'temas', como eu pensava no 'tema', era 'tema' pra cá, 'tema' pra lá, foi chato pra cacete. Lembro que o Tim Maia ficou cinco minutos em uma entrevista dessas e disse que ia pra casa fumar maconha."

Sobre o autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu sete livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental “História Secreta do Pop Brasileiro”.

Sobre o blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às terças-feiras.