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O mundo é do Google e do Facebook, nós só vivemos nele

André Barcinski

09/06/2017 05h59


Acabei de ler um livro muito interessante: “Move Fast and Break Things”, de Jonathan Taplin. O subtítulo resume bem a tese defendida pelo autor: “Como Facebook, Google e Amazon encurralaram a cultura e o que isso significa para nós”.

Taplin tem quase 70 anos, mas não é um ludita que vive numa caverna e acha que a Internet é obra do diabo. Pelo contrário: é um pioneiro do uso da tecnologia e da Internet na indústria cultural, tendo fundado uma das primeiras empresas de vídeo on demand do mundo. Também foi produtor musical e de cinema e trabalhou com Bob Dylan, The Band, Martin Scorsese e Gus Van Sant.

No livro, Taplin explica que a Internet surgiu para ser um instrumento de democratização da informação, mas acabou sendo usada por algumas empresas, como Google, Facebook, Amazon e Paypal, para monopolizar mercados e dar a seus donos um poder econômico e uma capacidade de controle da sociedade nunca antes imaginados.

Essa monopolização se dá em todos os segmentos do mercado de consumo, mas Taplin se concentra na indústria cultural, sua especialidade, e conta como essas megacorporações de tecnologia hoje dominam as indústrias da música, informação, audiovisual e literatura.

Os números são impressionantes: em 2004, o Google tinha 35% do mercado mundial de ferramentas de busca, enquanto o Yahoo tinha 32% e o MSN, 16%. Hoje, o Google detém 88% desse mercado nos Estados Unidos e 91% na Europa.

Em 2004, a Amazon faturava 7 bilhões de dólares por ano. Em 2015, o número pulou para 107 bilhões de dólares. A empresa hoje controla 65% de todas as vendas online de livros.


Desde o início dos anos 2000, o faturamento global com música gravada caiu de 27,3 bilhões de dólares por ano para 10,4 bilhões, enquanto a publicidade em jornais norte-americanos caiu de 65,8 bilhões em 2000 para 23,6 bilhões em 2014.

Esse dinheiro foi para algum lugar. Mais especificamente, para os bolsos de algumas poucas empresas. Em 2016, o faturamento de publicidade do Google nos Estados Unidos chegou a 60 bilhões de dólares, fazendo do Google a maior companhia de mídia do planeta.

Alguns podem pensar: “Ah, se faturam tanto é porque merecem, são melhores que a concorrência e é assim que o mercado funciona”.

Esse raciocínio é simplista e perigoso. Google, Facebook e Amazon prosperaram porque governos fecharam os olhos para o perigo da monopolização dos mercados e leis foram criadas – a custo de centenas de milhões de dólares em lobby com governos – para favorecer essas empresas, que não criam absolutamente nada e vivem de explorar conteúdo criado por outros.

DO QUE VIVEM GOOGLE E FACEBOOK?

Se Google e Facebook não criam nada, do que vivem?

Simples: essas empresas vivem da venda de anúncios. E os anúncios estão cada vez mais específicos e eficientes. É o chamado “programmatic advertising”, ou publicidade programática.

Usando dados coletados em perfis de usuários em redes sociais e em buscas que os usuários realizam na Internet, Google e Facebook vêm montando um banco de dados de preferências pessoais de, basicamente, todos os habitantes do planeta. E se o resultado comercial disso não qualifica como “monopólio”, então é preciso redefinir o conceito de monopólio. No primeiro trimestre de 2016, nada menos que 85% do faturamento de toda a publicidade online nos Estados Unidos ficou com Facebook e Google. Escreve Taplin:

“O modelo de negócios do Facebook se baseia em vender anúncios a um preço maior que o da concorrência (…) e ele consegue esse valor maior porque tem o poder de saber com absoluta certeza como atingir certos consumidores. Se eu quiser fazer um anúncio para mulheres de 25 a 30 anos que moram em um determinado quarteirão, gostam de música country e bebem bourbon, o Facebook é capaz de fazer isso.”

Alguns podem achar isso bom. Eu acho assustador. Isso dá às empresas o poder de influenciar diretamente em toda a vida da sociedade. E Taplin mostra como a publicidade programática já está sendo usada por políticos para vencer eleições.

Tem mais: quando o internauta faz uma conta no Facebook, não só autoriza a empresa a coletar todos os seus dados pessoais e de relacionamentos, como permite ao Facebook fazer “leilões virtuais” usando o perfil de cada usuário. Tenho certeza que todos os leitores do blog, sem saber, já foram perseguidos por esses leilões: basta realizar uma busca no Google – “dicas de hotel em Las Vegas”, por exemplo – para ser azucrinado para sempre com anúncios de hotéis em Las Vegas.

A logística desse processo é espantosa: assim que você faz uma busca por “Las Vegas”, você fica com um cookie “Las Vegas” armazenado em seu computador. Da próxima vez que você se conectar, seu cookie é repassado a um serviço de venda de anúncios online, que leiloa a informação em tempo real para todas as empresas de Las Vegas que podem se interessar. Quem pagar mais pelo anúncio vence o leilão e aparece na tela de seu computador quase instantaneamente (o processo todo leva alguns milésimos de segundo).

E se esse papo pode parecer paranoia distópica, preste atenção nesse dado: no fim de 2016, quase metade dos norte-americanos já tinha em suas casas um termostato “smart”. O aparelho é uma beleza: controla a temperatura da casa, desligando e ligando o ar condicionado e o aquecimento, e assim poupando energia. Mas a geringonça não faz só isso: ela também é capaz de saber que quartos de sua casa estão ocupados em que horas do dia e quantas horas por dia você passa em sua própria casa. E qual o termostato líder de mercado nos Estados Unidos? O Nest, comprado em 2014 pelo Google por 3,2 bilhões de dólares.

PROPRIEDADE INTELECTUAL VIROU PALAVRÃO

Taplin conta como muitos dos criadores dessas megacorporações tecnológicas, como Peter Thiel (Paypal, Facebook) e Larry Page (Google) foram inspirados pela filosofia individualista e antialtruísta de Ayn Rand (1905-1982), que pregava, entre outras coisas, que o governo não deveria se meter no mercado.

Curiosamente, esses randmaníacos subverteram uma das ideias de Rand, que era a defesa da propriedade intelectual. Escreveu Rand: “Patentes e direitos autorais são a aplicação legal na base de todos os direitos proprietários: o direito do homem ao produto de sua mente”. Thiel, Page e outros convenientemente “esqueceram” essa lição, inventando uma tese segundo a qual a propriedade intelectual deveria ser banida da face da Terra.

Algumas conclusões a que cheguei lendo o livro:

– Temos o hábito de analisar o período de ouro das gravadoras e estúdios de cinema como uma fase dominada por capitalistas inescrupulosos e egocêntricos, que exploravam artistas e ficavam ricos à custa do talento de outros. Mas, comparados a Mark Zuckerberg (Facebook), Peter Thiel (Facebook, Paypal), Jeff Bezos (Amazon) e Larry Page (Google), esses executivos de outrora eram bebês inocentes. E por piores que fossem gravadoras e estúdios, eles reinvestiam parte de seus lucros nos artistas.

– A tal “democracia digital” não tem nada de democrático. Pelo contrário: a informação nunca esteve tão concentrada na mão de tão poucos.

– Existe uma diferença entre ter um governo pequeno e eficiente e não ter governo. Ninguém agüenta um Estado imenso, lento e incompetente, mas é perigoso ter um mercado sem regras e que permita a monopolização que existe hoje. Quem acredita em competição justa não pode defender monopólios.

– Quem acreditava que a Internet iria democratizar o acesso à cultura se enganou. Nunca o mercado foi tão dominado por tão poucos, e nunca tão poucos artistas ganharam tanto, enquanto a grande maioria viu seu ganha-pão evaporar.

– Quem acha que baixar filmes e músicas da Internet é uma espécie de vingança libertária contra os estúdios e gravadoras está apenas servindo de massa de manobra para gente muito pior. O criador do site Megaupload, o alemão Kim “Dotcom” Schmitz, ficou famoso ao declarar que baixar músicas e filmes de graça na Internet era uma forma liberdade de expressão. Só se esqueceu de dizer a seus fãs que tinha 180 milhões de dólares no banco, faturados com anúncios em seu site (e obviamente nunca divididos com os artistas que tiveram seu trabalho surrupiado).

– Quando você vir um advogado com pinta descolada e modernex reclamando de qualquer tentativa de regularizar a Internet, desconfie. Ele certamente trabalha para alguma dessas empresas de tecnologia e usa a liberdade de expressão como desculpa para defender e ampliar o monopólio delas. O cururu é lobista, não arauto da liberdade.

COMO ISSO AFETA OS ARTISTAS?

Uma das histórias mais comoventes relatadas por Taplin – e que o inspirou a escrever o livro – ocorreu com seu amigo Levon Helm (1940-2012), baterista da The Band. Taplin conta que, até o início dos anos 2000, Levon tinha uma vida confortável com os rendimentos de direitos autorais de seus discos antigos. A partir do surgimento do Napster e do livre tráfego de música na Internet, esses rendimentos simplesmente sumiram.

Para piorar, em 1998 Helm foi diagnosticado com câncer na garganta. Sem a grana de direitos autorais, teve de organizar shows para arrecadar fundos para seu próprio tratamento. Artistas como Elvis Costello, Chris Robinson (Black Crowes) e Allen Toussaint ajudaram o amigo.

Mas o que acontece com artistas que não têm amigos tão populares?

Um ótimo fim de semana a todos.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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