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Ray Davies canta sua obsessão com a América

André Barcinski

23/05/2017 05h59

Já existiu, na música pop, algum compositor mais “britânico” que Ray Davies?

Desde que lançou suas primeiras composições, em 1964, Davies, líder do grupo The Kinks, teve como maior inspiração sua Inglaterra natal.

Suas canções são retratos – na maioria afetuosos, outros bem ácidos – de pessoas que observou durante sua vida. Em canções como “Waterloo Sunset”, “Village Green”, “Arthur”, “Victoria”, “Do You Remember Walter” e dezenas de outras, Davies criou um panorama lúdico e nostálgico de uma Inglaterra que ele viu desaparecer.

Em seu novo disco, “Americana”, Ray Davies mantém o gosto pela nostalgia, mas vai buscar inspiração no outro lado do Atlântico, no cinema e na música norte-americanos que marcaram sua juventude.

Davies nasceu em 1944. Cresceu num país que ainda se recuperava das bombas nazistas. Ainda menino, ficou fascinado pelos filmes, discos e revistas que chegavam da América. Ia a matinês ver faroestes de Roy Rogers, ouvia no rádio canções de pioneiros do blues como Big Bill Broonzy e Muddy Waters, e depois se apaixonou pelos ritmos selvagens do rock’n’roll de Little Richard e Jerry Lee Lewis.

Ray não foi o único. Todos os músicos daquela geração, de Joe Cocker a Ringo Starr, de Ozzy Osbourne a Lemmy, de Jimmy Page a Rod Stewart, de Keith Richards a Elton John, contam que viam na cultura pop norte-americana um contraponto à vida dura e cinzenta que tinham na Inglaterra.

live 20

Ray Davies amava os Estados Unidos, mas sempre teve uma relação conturbada com o país. Em junho de 1965, durante a primeira turnê norte-americana dos Kinks, ele saiu no braço com um representante do sindicato dos músicos durante a gravação de um programa de TV, o que levou a um boicote à banda, que não voltou ao país por quatro anos. Nesse período, bandas contemporâneas dos Kinks, como Beatles e Stones, conquistaram a América.

Nos anos 70 e 80, Ray passou longos períodos nos Estados Unidos e o Kinks fez diversas turnês no país, mas as vendas de discos nunca foram dignas da importância e qualidade da banda. Ray passou um bom tempo em Nova York, onde era vizinho de Lennon e Yoko.

Em 2004, quando morava em New Orleans, Ray e sua então namorada foram atacados na rua por um assaltante. Ray levou um tiro na perna, entrou em choque e quase morreu. Dez anos depois lançou um livro, “Americana”, espécie de autobiografia romanceada (na verdade sua segunda, depois de “X-Ray”, lançada em 1994), em que fala de sua vida no país e sua relação de amor de ódio com ele.

“Americana”, o disco, é a versão musical do livro, uma coleção de canções em que Ray Davies lembra suas influências, fala da vida nas estradas americanas e presta tributos a artistas que o marcaram. Mas o disco não é só uma apologia a um país: com sua ironia habitual, Davies também toca em questões como o consumismo, o domínio corporativo do país, com suas redes de fast food decorando todas as highways, e fala de sonhos feitos e desfeitos em Hollywood.

Em “Americana”, Ray Davies usou como grupo de apoio a veterana banda de alt-country The Jayhawks. Mas não é um disco de música country. Quem gosta de Kinks vai reconhecer na hora os rocks básicos misturados ao pop barroco e exuberante, típicos de Ray Davies. É um de seus melhores trabalhos solo.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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