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80 anos sem Noel Rosa, o maior letrista da música brasileira.

André Barcinski

08/05/2017 05h59


Dia 4 de maio foi o 80º aniversário da morte de Noel Rosa.

A música brasileira tem grandes letristas – Cartola, Nelson Cavaquinho, Aldir Blanc, Lamartine Babo, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Raul Seixas, Zé Ramalho – mas na minha opinião, ninguém supera Noel.

Em 2010, ano do centenário do compositor, fiz um especial para a “Folha”. Reproduzo aqui alguns trechos, incluindo dois “Top 10: um com os maiores clássicos de Noel e outro com minhas dez músicas prediletas.

Se você tivesse de escolher apenas um disco de sua coleção para salvar de um incêndio, qual seria?

Eu não hesitaria: correria até minha estante e salvaria das chamas “Noel Pela Primeira Vez”, uma caixa com 14 CDs contendo todas as gravações originais de Noel Rosa. Aquilo ali me basta para a vida toda.

É difícil acreditar que suas músicas foram compostas há 70 ou 80 anos. Elas não envelheceram um dia sequer.

Mais difícil ainda é imaginar que Noel Rosa morreu aos 26 anos.

Ele nasceu em 1910. Escreveu suas primeiras músicas por volta de 1929 e morreu em 1937. Ou seja: compôs por menos de oito anos. E, nesse curto período, escreveu cerca de 300 canções, incluindo dezenas de obras-primas como “Último Desejo”, “Conversa de Botequim”, “Com Que Roupa”, “Fita Amarela”, “Quem Dá Mais”, “Gago Apaixonado” e tantas outras.

Noel fez a ponte entre o morro e o asfalto. Foi o maior cronista da boemia carioca e um satirista sem igual. Suas letras são engraçadíssimas, pequenas jóias de humor negro e ácido.

Em matéria de amor, era um pessimista. Via a paixão como um jogo de cartas marcadas, em que sempre perdia. Perdia a mulher, mas não perdia a esportiva e sempre conseguia rir da própria desgraça: “Quando no reino da intriga / Surge uma briga / Por um motivo qualquer / Se alguém vai pro cemitério / É porque levou a sério / as palavras da mulher”, cantava em “Mentiras de Mulher”.

Várias coisas impressionam nas letras de Noel. Seu poder de síntese é uma delas. Suas letras são, na teoria, simples, sem a linguagem empolada e rococó de muitos compositores da época.
Noel dizia muito falando pouco. E sua habilidade com as palavras era assombrosa: “Agora, vou mudar minha conduta / eu vou à luta / pois eu quero me aprumar / vou tratar você na força bruta / Pra poder me reabilitar”, diz o início de “Com Que Roupa”, um de seus primeiros sucessos.

Noel tinha um humor fino. Adorava esculhambar os hábitos provincianos da burguesia da época. Em “Seu Jacinto”, uma de minhas músicas prediletas, traça um perfil hilariante de um desses sujeitos que se acha mais do que é: “O seu Jacinto que é cheio de chiquê / Eu não sei dizer por quê / Dorme de cartola e fraque / Anda dizendo que o seu sonho dourado / É morrer esmigalhado / Por um carro Cadillac”.

Alguns compositores da época, mesmo sujeitos geniais como Lamartine Babo e Braguinha, tinham um pé no ufanismo que eu, pessoalmente, não curto. Mas Noel não. Em vez de louvar o Brasil, preferia cutucar nosso complexo de inferioridade, sempre com ironia, como em “Não tem Tradução”: “Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição / Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês / Tudo aquilo que o malandro pronuncia / Com voz macia é brasileiro, já passou de português”.

Outra coisa que impressiona em Noel é a qualidade quase cinematográfica de suas letras. Ouvindo algumas, você imediatamente consegue visualizar o ambiente descrito por ele. Como em “Conversa de Botequim”, uma ode à pilantragem narrada por um espertalhão que faz do boteco “o seu escritório”: “Seu garçom me empresta algum dinheiro / Que eu deixei o meu com o bicheiro / Vá dizer ao seu gerente / Que pendure esta despesa / No cabide ali em frente”. É um roteiro de filme, esperando para ser filmado.

DEZ GRANDES CLÁSSICOS DE NOEL ROSA

Se você ainda não conhece a obra do compositor, aqui vai uma seleção para começar.

Quem Dá Mais?
A ironia de Noel em grau máximo: “Quem dá mais / Por um samba feito nas regras da arte / sem introdução e sem segunda parte / Só tem estribilho / Nasceu no Salgueiro / e exprime dois terços do Rio de Janeiro”.

Conversa de Botequim
Uma obra-prima da pilantragem e uma das canções mais cinematográficas de Noel: você ouve e imediatamente consegue visualizar algum boteco suspeito da Lapa e um cliente folgado que abusa do garçom. João Máximo e Carlos Didier, em “Noel Rosa – Uma Biografia”, atentam para a perfeita acentuação da letra, que acompanha a acentuação musical. Coisa de gênio.

Não Tem Tradução
O complexo de inferioridade brasileiro e a supervalorização de tudo que vem de fora, tratados com ironia fina. Veja essa letra e diga se não é atual: “Amor, lá no morro é amor pra chuchu / as rimas do samba não são ‘I love you’ / e esse negócio de ‘Alô, alô boy, alô Johnny!’ / Só pode ser conversa de telefone”

Gago Apaixonado
Letra engraçadíssima que usa a gagueira do personagem como artifício rítmico: “Mu.. mu.. mulher / em, mim fi… fizeste um estrago / Eu de nervoso / Estou… tou… fi… ficando gago”

Último Desejo
Uma das músicas mais bonitas de Noel, fala de um amor que já acabou e que não tem volta: “Às pessoas que eu detesto / Diga sempre que eu não presto / Que meu lar é o botequim / Que eu arruinei sua vida / Que eu não mereço a comida / Que você pagou pra mim”.

Feitiço da Vila
Nunca a palavra “farofa” foi usada com tanta elegância: “A Vila tem um feitiço sem farofa / Sem vela e sem vintém / Que nos faz bem”. Uma elegia à Vila Isabel, com uma estrofe que periga ser uma das maiores criações de Noel: “O sol na Vila é triste / Samba não assiste / Porque a gente implora: / Sol, pelo amor de Deus / Não venha agora / Que as morenas / Vão logo embora”.

Palpite Infeliz
Quando Noel fez “Feitiço da Vila”, o sambista Wilson Baptista atacou com um samba irônico, “Conversa Fiada”: “É conversa fiada / Dizerem que o samba na Vila tem feitiço / Eu fui ver pra crer / E não vi nada disso”.
A réplica de Noel foi “Palpite Infeliz”: “A Vila é um cidade independente / Que tira samba, mas não quer tirar patente / Pra que ligar a quem não sabe / aonde tem o seu nariz / Quem é você que não sabe o que diz?” Genial.

Fita Amarela
Samba melancólico e fetichista, em que Noel continua fazendo graça mesmo depois de “morto”: “Não tenho herdeiros / Não possuo um só vintém / eu vivi devendo a todos / Mas não paguei nada a ninguém”.

Com Que Roupa
Primeiro grande sucesso de Noel, em que ele antecipava a auto-paródia que seria uma de suas marcas registradas: “Agora eu não ando mais fagueiro / Pois o dinheiro não é fácil de ganhar / Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro / Não consigo ter nem pra gastar / Eu já corri de vento em popa / Mas agora com que roupa? / Com que roupa em vou / Pro samba que você me convidou”.

Feitio de Oração

Essa é de chorar. Versos minimalistas, sem floreios ou adjetivos desnecessários: “O samba na realidade / não vem do morro nem lá da cidade / E quem suportar uma paixão / Sentirá que o samba então / nasce no coração”.

UM TOP 10 PESSOAL

Aqui vão, sem ordem de preferência, minhas dez músicas favoritas de Noel Rosa:

O “X” do Problema
Uma das maiores criações de Noel. A narradora é uma mulher que recebe convites para largar a boemia e morar “num grande palácio”, mas não consegue abandonar a escola de samba. A última estrofe é uma obra-prima: “Nasci no Estácio / Não posso mudar minha massa de sangue / Você pode crer que palmeira do Mangue / Nâo vive na areia de Copacabana”.

Seu Jacinto
Eu morro de rir toda vez que escuto essa música. Uma cutucada em todos que comem mocotó e arrotam caviar: ”Quando tem baile lá na casa da Teresa / Ela faz pano de mesa / com lençol que cobre a cama / Bota nos copos água usada na banheira / depois diz à turma inteira / que é cerveja lá da Brahma”.

Coração
Enquanto a maioria dos compositores fala do coração com analogias parnasianas, Noel disseca o órgão de maneira cirúrgica. Pra mim, uma das letras mais surpreendentes e engraçadas da música brasileira: “Coração, grande órgão propulsor / transformador do sangue venoso em arterial / coração, não é sentimental / mas, entretanto, dizem que és o cofre da paixão / Coração, não estás do lado esquerdo / nem tampouco do direito / ficas no centro do peito, eis a verdade / Tu és pro bem-estar do nosso sangue / o que a casa de correção / é para o bem da humanidade”.

Mentiras de Mulher
Várias vezes Noel criou perfis pouco elogiosos de mulheres que conheceu. Este aqui é engraçadíssimo: ”Quando no reino da intriga / surge uma briga por um motivo qualquer / se alguém vai pro cemitério / é porque levou a sério / as palavras da mulher”.

Mulher Indigesta
Hoje, Noel seria linchado por esse samba machista e violento. Mas é de rolar de rir: “Mas que mulher indigesta / indigesta / merece um tijolo na testa (…) e quando se manifesta / o que merece é entrar no açoite / ela é mais indigesta do que prato / de salada de pepino à meia-noite”.

Coisas Nossas
Noel canta as coisas do Brasil trocando o ufanismo pela ironia. O primeiro verso é, na minha lista, um dos mais belos versos de abertura de todos os tempos: “Queria ser pandeiro / pra sentir o dia inteiro / a sua mão na minha pele a batucar”.

Positivismo
Imagine alguém, hoje em dia, escrever algo assim: “A verdade, meu amor, mora num poço / É Pilatos, lá na Bíblia, quem nos diz / e também faleceu por ter pescoço / o autor da guilhotina de Paris (…) O amor vem por princípio, a ordem por base / o progresso é que deve vir por fim / desprezaste esta lei de Augusto Comte / e foste ser feliz longe de mim”.

Você, por Exemplo
Outra letra de crítica social em que Noel esculhamba os esnobes. Atenção para a contraposição das palavras “muda” e “mudo”: “Quanto barbado que não paga o engraxate / muda de casa e deixa mudo o alfaiate / Quanto barbado que jejua mais que o Gandhi / Você, por exemplo / você, por exemplo / não tem barba grande!”

Pra Que Mentir?
Uma das músicas mais melancólicas de Noel. Muita gente gravou, incluindo Silvio Caldas, mas a versão de Aracy de Almeida é insuperável: “Pra que mentir / se tu ainda não tens / a malícia de toda mulher / pra que mentir, se eu sei / que gostas de outro / que te diz que não te quer?

Três Apitos
Uma das músicas mais bonitas já compostas por Noel, em que ele faz um apelo a uma namorada que trabalha numa fábrica (na verdade a moça, chamada Fina, não trabalhava no local, apenas ia lá para levar marmita para a irmã). A letra faz um contraponto incrível entre o apito da fábrica e a buzina do carro de Noel: “Quando o apito na fábrica de tecidos / vem ferir os meus ouvidos / eu me lembro de você (…) Você que atende ao apito de uma chaminé de barro / Por que não atende ao grito tão aflito / da buzina do meu carro?”. A versão de Aracy de Almeida, novamente, deixa todas as outras no chinelo.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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