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Inimigos públicos: a história dos reis do LSD

André Barcinski

17/04/2017 05h59

A Netflix exite “The Sunshine Makers”, documentário sobre os químicos Tim Scully e Nick Sand. Scully e Sand não são nomes conhecidos do grande público, mas o produto que eles criaram há pouco mais de 50 anos é um dos mais famosos e cultuados da contracultura: o Orange Sunshine, o ácido lisérgico mais conhecido dos anos 1960.

Scully era um idealista e acreditava que o LSD era a salvação da humanidade; queria fabricá-lo em quantidades industriais e distribuí-lo de graça em todo o mundo. Sand era mais pragmático e capitalista: seu sonho era criar uma rede de fabricação e distribuição que renderia muito dinheiro e usar a grana para financiar iniciativas comunitárias e libertárias.

Quando Scully e Sand se conheceram, em meados dos anos 1960, o LSD ainda era fabricado pela farmacêutica suíça Sandoz (que interrompeu a fabricação em agosto de 1965) e usado em tratamentos psiquiátricos em todo o mundo, mas já era alvo das autoridades norte-americanas. Em 1966, alguns estados proibiram sua fabricação e venda.

Isso não deteve Scully e Sand: em 1968, depois de muita pesquisa e tentativas fracassadas, eles criaram o Orange Sunshine, uma das mais potentes pílulas de ácido lisérgico já fabricadas. A essa altura, ambos eram procurados pela polícia, e acabaram presos.

Dirigido por Cosmo Feilding-Mellen, o documentário conta não só a história da dupla, mas de outros personagens importantes do período, como Owsley Stanley, químico, técnico de som e mentor de Scully, que foi o primeiro homem a fabricar grandes quantidades de LSD e depois criou o famoso sistema de som da banda Grateful Dead; Billy Hitchcock, herdeiro de uma família riquíssima e um verdadeiro mecenas da cena psicodélica, bancando pesquisas e montando laboratórios para fabricação de LSD, e Timothy Leary, o famoso professor, psicólogo, autor e fora da lei, considerado por Richard Nixon “o homem mais perigoso da América” por sua apologia ao uso de ácido lisérgico.

HEADS

Quem se interessar pelo assunto – e ler em inglês – vai se divertir com “Heads: a Biography of Psychedelic America”, de Jesse Jarnow, um dos livros mais interessantes que li nos últimos tempos. Jarnow conta a história da contracultura desde meados dos anos 1960, usando como base a trajetória da banda californiana Grateful Dead.

Mesmo que você não seja fã da música do Dead (eu, definitivamente, não sou), o livro é fascinante por revelar como a banda foi uma espécie de Meca para uma legião de freaks que popularizou o LSD e, no processo, mudou a tecnologia e o nosso mundo. Jarnow conta como muitos pioneiros do Vale do Silício e da Internet eram fãs do Dead (os chamados “Deadheads”) e levaram para seus trabalhos a filosofia libertária e coletivista da banda. Um dos pioneiros da Apple, Daniel Kottke, era Deadhead de carteirinha e tomou muito LSD com o amigo Steve Jobs.

O Grateful Dead foi a primeira banda a permitir que fãs gravassem seus shows e divulgassem as gravações piratas. Não só: a banda incentivava essa prática, reservando espaços na frente da mesa de som para que os fãs pudessem captar o som com mais qualidade. Algumas das primeiras trocas de arquivo virtual da história da Internet, conta Jarnow, foram realizadas por fãs do Dead, que trocavam gravações de concertos da banda com outros fãs, localizados em partes distintas dos Estados Unidos.

O livro conta como o Dead inspirou o surgimento dos hackers, de festivais como o Burning Man e o Bonnaroo, dos modernos sistemas de som para shows, do mercado de gravações piratas de shows, de catálogos de compras e de incontáveis entidades e organizações ambientais, sociais e de inovação tecnológica.

Tomara que alguém lance esse livro no Brasil.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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