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Lollapalooza: público é "eclético" ou só gosta do que faz sucesso?

André Barcinski

27/03/2017 08h44


A cobertura do Lollapalooza 2017 na imprensa elogiou o “ecletismo” e “diversidade musical” do festival.

De fato, o Lolla, assim como outros festivais musicais de massa – no Brasil, seu equivalente mais “adulto” é o Rock in Rio – preza por uma programação diversa, que contempla do pop mais adolescente ao heavy metal. Mas essa impressão pode ser enganosa.

Há pelo menos uma década, o entretenimento musical de massa tem feito do “ecletismo” sua bandeira. Festivais de nicho, ou divididos por gêneros musicais, são preteridos em favor de programações que tentam abarcar todas as tribos. Não estou falando de pequenos festivais dedicados a gêneros específicos, que felizmente continuam a existir por aí, mas de eventos grandes e corporativos como Coachella, Lollapalooza e Bonnaroo, que começaram como shows independentes e dedicados a um tipo específico de música, foram comprados por empresas gigantes de entretenimento, e hoje têm programações diversificadas.

O que se vê nesses grandes festivais é o crescimento de um tipo de público que não liga para rótulos ou gêneros musicais, mas que gosta de qualquer coisa que toque no rádio ou bombe no Spotify e Youtube.

Isso não é uma crítica ao público, mas uma constatação. Ninguém é obrigado a entender de música, e todo mundo tem o direito de ir ao show que preferir. Mas que esse público está crescendo, é fato.

No Rock in Rio, tem fã que pira com o Metallica e pira com a Ivete. O cara pula na hora de “Enter Sandman” e pula quando a Ivete canta “Poeira… poeira!”. Já o Lolla é um evento com público mais jovem e, por isso, mais ortodoxo, mas o mesmo fenômeno é perceptível. De certa forma, o Lolla está preparando o público que daqui a alguns anos estará no Rock in Rio.

Não estou falando daqueles fanáticos que ficam colados na grade empunhando cartazes de seus artistas preferidos, mas da maioria silenciosa, que fica no fundão, conhece uma ou duas músicas de cada artista e anda pelo festival vendo shows dos mais diversos.

Isso é bom?

Para o festival, certamente; para a música, nem tanto.

O que está ocorrendo é um fenômeno sem volta: cada vez mais, o público gosta daquilo que conhece e não tem o menor interesse em ouvir o que desconhece.

Isso ficou evidente para mim no Rock in Rio de 2013, quando mais da metade do público que viu John Mayer foi embora na hora do show de Bruce Springsteen. Ora, guardadas as devidas proporções de talento e relevância artística, Mayer e Bruce habitam a mesma seara musical: a música folk norte-americana, o country, o rock interiorano e o blues. Hoje, Mayer é muito mais popular: vende mais, é sonho molhado das adolescentes e namorou a Katy Perry. Mesmo assim, foi triste ver hordas de adultos – e não só meninas adolescentes – indo embora sem ver um segundo do show de Bruce. Acho que isso diz muito sobre o tal “ecletismo” do público.

Tenho certeza que o mesmo se aplicaria ao Lollapalooza: digamos que, depois do show da Tove Lo (uma espécie de Gretchen sueca, com letras escritas em inglês do Joel Santana), o festival escalasse outra artista do mesmo gênero, mas desconhecida. Será que a galera pararia para ouvir ou procuraria outro palco assim que percebesse que não conhece as músicas?

Claro que o Lollapalooza não permitiria isso. Ali não há espaço para o desconhecido, e só entram os artistas mais populares em seus respectivos gêneros. Uma vez ou outra, e só para agradar os críticos e alguns fãs, o festival põe umas velharias boas, tipo Duran Duran e Rancid. De resto, só entra o que o público gosta e conhece. E hoje, com a profusão de algoritmos de buscas, é fácil entender a preferência do público e criar uma programação musical que contemple o maior número possível de consumidores.

Em nenhum gênero musical essa busca pela padronização do consumidor fica mais evidente do que na música eletrônica: há cerca de dez anos, algum gênio do showbiz teve a ideia de acabar com os subgêneros da dance music – electro, house, techno, dubstep, trance, etc. – e chamar tudo de EDM (Electronic Dance Music), um nome que não diz nada, mas engloba tudo. Foi só depois de exterminar os nichos que a música eletrônica tornou-se um fenômeno global, com festivais que rivalizam com o pop em tamanho e faturamento. E se o Lollapalooza hoje traz uma overdose de EDM e pop eletrônico, é por uma única razão: a empresa dona do festival, a Live Nation, também é dona de marcas gigantes e festivais de música eletrônica, como Cream, Insomniac e Hard.

No mundo do entretenimento de massa, nada acontece por acaso.

P.S.: E parabéns à apresentadora Titi Muller. Independentemente de você concordar ou não com a opinião dela sobre um DJ que se apresentou no festival, é muito legal – e cada vez mais raro – ver alguém na TV dizendo o que realmente pensa. Agora só falta o Multishow, canal que emprega Titi, liberar os comentaristas para dizer o que realmente pensam dos shows, sem obrigação de ficar enchendo a bola de qualquer porcaria. Afinal isso é cobertura jornalística ou assessoria de imprensa?

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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