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Zeca Pagodinho, Dona Ivone Lara, Hermeto Pascoal: as histórias secretas da MPB

André Barcinski

24/03/2017 05h59


Difícil parar de ler os dois volumes de “MPBambas – Histórias e Memórias da Canção Brasileira”, do jornalista, pesquisador e crítico Tárik de Souza.

Os livros reúnem entrevistas que Tárik fez para seu programa “MPBambas”, no Canal Brasil, com artistas como Gal Costa, Nei Lopes, Dominguinhos, Elza Soares, Dóris Monteiro, Johnny Alf, Milton Nascimento, Renato Teixeira e muitos outros.

Selecionei cinco trechos especiais. Confira:

Zeca Pagodinho fala sobre Bezerra da Silva
O Bezerra era um grande cara, meu amigo. Morava ali no Cantagalo. Ele só vivia por ali naquele morro. Os caras gostavam, a gente também gostava. É que hoje não dá mais pra subir no morro e ficar ali até de manhã cantando. É muito tiro, muita polícia, muito vagabundo, muita coisa assim na frente de todo mundo. Antigamente as coisas eram mais… só sabia quem sabia. Quem não sabia, não sabia onde era. “Chama Seu Fulano!” E vinham aqueles caras com violão de aço, com os dedos todos verdes do “zinabre”… Botava uma garrafa de cachaça, um Ki-Suco, uma caneca de alumínio, que lá no Morro do Querosene tinha um cara que fazia. Colocava ali e ficavam cinco ou seis pessoas cantando samba. Mas sem a pretensão de gravar. Simplesmente cantando por gostar de cantar, e daqui a pouco tem que trabalhar…

Nana Caymmi fala dos últimos dias da mãe, Stella Maris, e do pai, Dorival Caymmi, que acabariam morrendo num intervalo de dez dias, depois de quase 70 anos de casamento
Quando papai deixou de ir a São Pedro do Pequiri, porque ficou difícil a locomoção pra mamãe, fiquei segurando mais a parte musical [em casa] também. Ouvíamos muita coisa clássica, ele gostava de Vivaldi, “As Quatro Estações”, ouvíamos de tudo um pouco. Posso dizer que fui DJ deles (risos), e muita coisa também eu cantava, porque eu dizia: “Pai, você tem que cantar, senão perde a voz!” (…) Mas ele já não cantava. E no último aniversário de mamãe, 6 de janeiro, ele pegou o violão, fiz ele pegar o violão, e ele tocou. Deu uma cantadinha, cantou umas canções lá pra ela, pra toda a família, tava todo mundo, os netos todos, bisnetos todos, os filhos todos. Foi muito bom. Sabe o que acontece?É uma família fantástica porque todos fazem a mesma coisa!

Dona Ivone Lara fala de seu trabalho como enfermeira e terapeuta ocupacional, quando auxiliou a respeitada psiquiatra Nise da Silveira
Ela é consagrada porque foi a criadora da terapêutica ocupacional, o modo de tratar o doente sem levar aqueles choques, sem levar aqueles tratamentos bruscos (…) Ela se serviu muito dos assistentes sociais, porque ela precisava de muitas informações, não só dos familiares do doente, como do próprio doente. Então, nós fazíamos o quê? Nós íamos nas casas dos familiares dos doentes pra fazer o histórico dos doentes, e por aqueles históricos ela idealizava o tratamento, junto com os outros médicos psiquiatras. Quer dizer, nosso serviço foi muito bom para a doutora Nise e nós aprendemos muito, porque tinha muito doente, por exemplo, que se submetia a choque elétrico, se submetia a outros tratamentos bruscos, que muitas das vezes, em vez de melhorar, pioravam a situação, compreendeu?

Chico Anysio “inventa” a bossa nova
Tárik: Quero que você me tire uma dúvida… Acho que descobri uma coisa histórica aqui.
Chico Anysio (ouvindo a gravação): É minha e do Hianto, “Cinema Bossa Nova”.
Tárik: Eu queria perguntar exatamente isso: acho que essa é a primeira vez que se usa a expressão bossa nova numa música brasileira: 1955!
Chico Anysio: Foi antes do advento da bossa nova.
Tárik: Como é que você descobriu esse termo bossa nova e por que você fez essa letra?
Chico Anysio: Não sei, não sei, não sei! (…) Bossa nova porque a bossa já existia, era tudo cheio de bossa e tal.
Tárik: É, desde o Noel Rosa: “O samba, a prontidão e outras bossas”. Agora, bossa nova foi a primeira vez.
Chico Anysio: Primeira vez, foi!
Tárik: Como é que você sacou essa?
Chico Anysio: Não sei… veio e ficou! Engraçado isso!

Hermeto Pascoal inspira Miles Davis
Fui assistir a um show do Airto [Moreira] e o Miles Davis veio falar comigo (…) eu disse pra ele: “Da próxima vez, toma cuidado, porque não quero papo com homem não… ” (risos). Ai ele já viu que eu era um cara brincalhão, né? Peguei um violão, mostrei um monte de música, toquei pra ele, que disse assim: “Ah, se eu pudesse gravar todas essas músicas, que coisa linda”. Eu disse: Se pudesse? Vou escolher as músicas e vou lhe dar pra gravar. Aí ele falou pro Airto: “Esse albino é muito louco, cara!” (risos) (…) Depois, numa entrevista na rádio France, o repórter perguntou se ele morresse e voltasse à Terra, ele queria voltar como o quê? Músico? Aí ele disse: “Eu queria ser um músico que nem aquele brasileiro albino louco, o Hermeto Pascoal.”

Um ótimo fim de semana a todos.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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