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Gosta de Ramones, The Doors e Stooges? Agradeça a esse cara...

André Barcinski

10/03/2017 08h40

O Netflix exibe “Danny Says”, de Brendan Toller, um documentário sobre um dos personagens mais importantes – e desconhecidos – do rock nos últimos 50 anos: Danny Fields.

Você provavelmente nunca ouviu falar de Danny, mas conhece as bandas com as quais ele esteve envolvido: Velvet Underground, The Doors, The Stooges, MC5, Patti Smith, Modern Lovers e tantas outras. Ele é talvez o único empresário e assessor de imprensa da história do rock homenageado em uma canção por um de seus clientes: “Danny Says”, dos Ramones.

Danny Fields tem 78 anos e sempre foi um freak. “Sou estranho desde pequeno”, diz ele no filme. Filho de uma família judia de classe média do Queens, em Nova York, começou a tomar anfetaminas aos dez anos de idade e nunca parou (“Havia uma tigela de pílulas na cozinha, era normal, todo mundo tomava, até minha mãe”). O menino tinha uma inteligência fora do normal, sempre foi o melhor aluno da classe e foi aceito em Harvard. Por outro lado, era irresistivelmente atraído por figuras que não se encaixavam na caretice da sociedade da época. Ficou amigo de poetas, artistas e desordeiros em geral. Danny era gay e viciado em sexo. Diz que passou seus anos em Harvard “tomando drogas e trepando”.

No início dos anos 60, chegou a Nova York e logo se enturmou com a turma de Andy Warhol. Foi editor de uma revista pop adolescente, “Datebook”, a primeira publicação norte-americana a dar a famosa entrevista de John Lennon em que ele dizia que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. A declaração causou protestos em todo o país durante a turnê dos Beatles em 1966: discos da banda foram incendiados em praças públicas e a Ku Klux Klan ameaçou atacar shows do grupo. Foi a última turnê dos Beatles.

Logo depois, Danny foi contratado como assessor de imprensa da gravadora Elektra, fundada em 1950 por um visionário chamado Jac Holzman. O selo começou lançando música folk, mas Holzman logo percebeu o potencial comercial da então nascente cena psicodélica e assinou grupos iniciantes, como The Doors e Love. Foi Danny que sugeriu a Holzman cortar metade dos sete minutos de “Light My Fire”, do Doors, e lançar a música em compacto. Ela chegou a número um nas paradas.

Danny Fields tinha um ouvido impressionante para a novidade. Quando foi a Detroit, em 1967, checar a nascente cena de rock da cidade, voltou com duas contratações para a Elektra: o MC5 e sua “banda-irmã”, um grupo de psicopatas e delinquentes chamado The Stooges. Os discos que MC5 e Stooges lançaram pela Elektra não venderam nada, mas mudaram o rock para sempre. Aliás, vários discos lançados por influência direta de Danny, como “The Marble Index”, de Nico, e “Horses”, de Patti Smith, só foram realmente compreendidos muito depois de seus lançamentos.

Danny foi despedido da Elektra depois de alguns fracassos comerciais, mas se vingaria em 1975, quando foi a uma pocilga chamada CBGB’s, em Nova York, e viu “uma banda que não sabia tocar, fazendo um show de 14 minutos” e virou empresário deles na hora. Eram os Ramones, claro.

Danny Fields é um grande contador de histórias, e muitas delas estão no filme. Quando os Ramones chegaram à Inglaterra, em 1976, foram paparicados por um fã chamado Paul Simonon, que disse ter uma banda chamada The Clash. “Mas não fazemos muitos shows, porque somos muito ruins e ainda não sabemos tocar”, disse Simonon. Ao que Johnny Ramone retrucou: “Não deixe isso te impedir, nos também somos uma merda, espere para ver!”.

Foi Danny que apresentou Jim Morrison a Nico, Patti Smith a Bob Dylan, e Iggy Pop a David Bowie. Os relatos dele sobre orgias com Morrison, overdoses com Iggy e bebedeiras com Lou Reed são antológicas. Num dos momentos mais incríveis do filme, Danny mostra uma fita cassete com uma gravação feita no fim de 1975, em que bate papo com Lou Reed sobre os Ramones. “Esses caras são incríveis!”, exulta Reed. “Muito melhor do que eu! As músicas são violentas e acabam rápido, é maravilhoso isso, é tudo que mais irrita a tradicional família americana!”

Um ótimo fim de semana a todos.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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