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Há 50 anos, a maior cantora do mundo, Aretha Franklin, pediu R-E-S-P-E-I-T-O e fez um clássico da música pop

André Barcinski

02/03/2017 05h59

Em 10 de março de 1967, a gravadora Atlantic lançava “I Never Loved a Man the Way I Love You”. Era o 11º álbum de estúdio de uma cantora então prestes a completar 25 anos, chamada Aretha Franklin.

O disco marcava a estreia de Aretha na Atlantic depois de sua saída da gravadora Columbia, motivada pela insistência da Columbia em vender Aretha como uma cantora de jazz. Ela adorava jazz, mas queria gravar soul e rhythm’n’blues e lançar discos de maior vendagem. Aretha queria sucesso.

Um dos donos da Atlantic, Jerry Wexler, levou a cantora a Muscle Shoals, no Alabama, para gravar no estúdio FAME, gerenciado por um produtor e arranjador chamado Rick Hall. Wexler estava impressionado com o som forte e grooveado que Hall e sua banda de estúdio, o Swampers, havia conseguido em gravações com Etta James, Wilson Pickett e Otis Redding.

O Swampers teve várias formações, mas seu núcleo era formado por Roger Hawkins (bateria), Barry Beckett (teclados), David Hood (baixo), Pete Carr e Jimmy Johnson (guitarra) e Spooner Oldham (teclados). A banda era tão boa que artistas famosos faziam fila para contratar seus serviços. Um dia, Paul Simon ligou atrás daquela “banda negra” que fazia um som tão funkeado, e ficou surpreso ao descobrir que eram todos brancos.

Veja um trecho do ótimo documentário “Muscle Shoals” (com legendas automáticas em inglês), com um depoimento de Aretha e imagens dela gravando em Muscle Shoals.

Aretha chegou ao estúdio FAME e logo se enturmou com a banda, mas seu marido, Ted White, sujeito violento e explosivo, não gostou de vê-la gravando apenas com músicos brancos. White acabou discutindo com um saxofonista e exigiu que Wexler o demitisse, o que irritou Rick Hall. Depois da sessão, Hall foi ao hotel de Aretha e White tentar apaziguar os ânimos, mas acabou se envolvendo numa discussão violenta com White, que terminou com os dois trocando socos. Aretha e o marido foram embora no dia seguinte e nunca mais voltaram a Muscle Shoals.

A sessão havia rendido apenas uma música, mas era sublime: a faixa-título, “I Never Loved a Man (The Way I Love You)”:

De volta a Nova York, Aretha disse a Wexler que ficara impressionada com a qualidade e simplicidade da gravação que fizera no Alabama. Ela estava cansada dos arranjos orquestrais e complexos dos discos de jazz da Columbia, e queria manter as coisas simples. Wexler montou uma banda espetacular, que incluía os saxofonistas King Curtis e Charles Chalmers, além de alguns músicos de estúdio “importados” de Muscle Shoals, como o guitarrista Jimmy Johnson e o tecladista Spooner Oldham.

“I Never Loved a Man (The Way I Love You)” era um clássico da soul music, mas a canção que abria o disco conseguia ser ainda mais impactante: uma versão de “Respect”, música composta e gravada em 1965 por Otis Redding.

É curioso comparar as duas versões e ver como algumas mudanças no arranjo e na forma de cantar podem fazer a mesma música ter significados distintos. Aretha não mudou nada na letra de Redding, apenas acrescentou o antológico refrão em que soletrava a palavra “Respect” (“respeito”), mas a força do arranjo e da interpretação de Aretha transformaram a canção. A versão original é bem mais “tranquila”, e Redding parece fazer um apelo à mulher (ou à família) para que o respeitem “quando eu chegar em casa”. Ouça:

Já a versão de Aretha é uma bomba atômica, uma canção explosiva que virou hino feminista e de afirmação do orgulho negro.

Quando ouviu a versão de Aretha, Otis Redding teria dito: “Perdi minha música. Aquela menina a tirou de mim.”

Um ótimo fim de semana a todos.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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