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Na “linha de tiro” com Borges, Muhammad Ali, Groucho Marx e Dalai Lama

André Barcinski

20/02/2017 05h59


Maldito o amigo que deu a dica e me transformou num zumbi prostrado em frente a uma tela: a Universidade de Stanford acaba de disponibilizar no Youtube cerca de 400 episódios do programa “Firing Line”, apresentado por William F. Buckley entre 1966 e 1999. São conversas longas com personalidades da política, cultura e esporte, gente como Henry Kissinger, Margaret Thatcher, Jorge Luis Borges, Muhammad Ali, Timothy Leary, Norman Mailer, Bret Easton Ellis (com 21 anos!), Madre Teresa de Calcutá e Groucho Marx, entre muitos outros.

Algumas entrevistas são legendadas em inglês, como a de Borges, gravada em 1977 em Buenos Aires. O papo é sensacional: o grande escritor argentino fala de sua adoração por Melville e Poe, diz que não merece o prêmio Nobel de Literatura (que morreria sem receber), e que preferiria ser executado a passar um ano na prisão. Aqui está, na íntegra:

William F. Buckley Jr. (1925-2008) era um intelectual conservador que por 33 anos apresentou “Firing Line”. O Netflix disponibiliza um ótino documentário chamado “Best of Enemies”, sobre a rivalidade de Buckley com o escritor Gore Vidal. Em 2015, escrevi sobre o documentário:

Acredite: houve um tempo em que pessoas ligavam a TV para ver dois intelectuais debatendo.

Nem faz tanto tempo assim – foi em 1968 – mas parecia outro mundo. Naquele ano, no mês de agosto, a rede de TV ABC, habitual saco de pancadas das gigantes CBS e NBC, teve uma ideia arriscada: reunir Gore Vidal e William F. Buckley, dois autores de posições políticas, sociais e ideológicas opostas, para uma série de dez debates, realizados durantes as convenções dos partidos Republicano e Democrata à Presidência dos Estados Unidos.

Vidal e Buckley eram mais que antagônicos: eles se odiavam com todas as forças. Naquele ano emblemático – 1968 – marcado pela Guerra do Vietnã, a explosão da contracultura e imensos conflitos sociais e raciais, cada um simbolizava, na visão do outro, a personificação da decadência norte-americana.

Gore Vidal (1925-2012) era liberal, progressista, crítico da política externa americana e homossexual assumido.

William F. Buckley (1925-2008) era conservador, amigo de Ronald Reagan e editor da revista “National Review”, uma Bíblia dos movimentos conservadores no país.

Se estavam em lados opostos da política, religião e hábitos sociais, Vidal e Buckley eram dois gênios da retórica e adoravam um pugilato verbal. Desde o primeiro debate, a única missão deles foi destruir o outro.

O resultado foi um marco da história da televisão. Até ali, dizem estudiosos, a cobertura jornalística televisiva de grandes eventos primava pela imparcialidade. A confiança dos telespectadores em grandes nomes do jornalismo da TV, como Walter Cronkite, era quase absoluta, até porque eles se limitavam a noticiar os fatos com a maior isenção possível.

As brigas entre Vidal e Buckley mudaram as coberturas políticas para sempre. A receptividade da audiência surpreendeu até mesmo a ABC, que trucidou as concorrentes no horário. A partir dali, a opinião passou a ser muito mais valorizada.

Voltando a “Firing Line”: boa parte dos programas disponibilizados agora no Youtube dizem respeito a velhas questões políticas e sociais norte-americanas e não interessam muito hoje em dia, mas há episódios absolutamente imperdíveis, como Carl Bernstein, um dos jornalistas do “The Washington Post” que revelou o escândalo de Watergate, falando sobre “os limites do jornalismo investigativo”, Groucho Marx respondendo à questão “O que é ser engraçado?” e um debate antológico sobre hippies com o escritor Jack Kerouac (completamente bêbado) e o músico e autor Ed Sanders, autor de um livro fundamental sobre Charles Manson, “A Família”:

Outros trechos interessantes (todos com legendas automáticas – e ruins – em inglês):

Buckley pergunta a Muhammad Ali, em 1968, porque ele, que estava sendo perseguido pelo governo norte-americano, não fugia do país:

Em 1967, Timothy Leary participa de um debate sobre os efeitos do LSD:

“Firing Line” é viciante. E agora temos 400 horas para explorar.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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