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Já estragamos nosso futebol; agora é a vez do Carnaval

André Barcinski

15/02/2017 05h59

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O “padrão FIFA” e nossa obsessão em copiar tudo que há de pior no esporte norte-americano acabaram com a graça de ir aos estádios de futebol. Não podemos mais torcer em jogos com torcidas divididas, tomar cerveja ou levar bandeiras. Xingar o goleiro adversário pode render punição ao time. Em compensação, temos animadoras de torcida segurando pompons, times entrando perfilados e telões exibindo closes de casais se beijando na arquibancada em ações de marketing patrocinadas por marcas de chocolate. Parabéns aos envolvidos.

Não contentes em destruir qualquer resquício de diversão em estádios de futebol, agora queremos estender essa chatice ao Carnaval. E a primeira medida é proibir as antigas marchinhas, consideradas ofensivas por alguns arautos da moralidade.

Leia essa matéria na coluna de Monica Bergamo, na “Folha”, sobre blocos paulistanos que vetaram marchinhas como “Cabeleira do Zezé” e “Maria Sapatão”. Até a palavra “mulata”, considerada ofensiva por alguns, está proibida.

Na mesma “Folha”, o colunista Hélio Schwartsman escreveu:

A ideia de alguns grupos de militar ativamente para que as tais marchinhas deixem de ser tocadas me parece uma combinação de desconhecimento histórico (ignora-se o contexto em que a obra foi produzida) com desatino mesmo (ninguém fica mais racista por ouvir “O Teu Cabelo…”). A extensão dessa lógica tortuosa à filosofia e à literatura nos privaria, entre outros, de Aristóteles (escravagista), Eurípedes (misógino) e Shakespeare (antissemita).

E Ruy Castro resumiu bem:

Enxergar ofensa nas marchinhas é caso para terapia de grupo — com o ofendido no divã e um grupo de psiquiatras em volta.

Proibir marchinha é uma mistura de ignorância e desrespeito às tradições. É absurda a ideia de que alguém pode ser preconceituoso por cantar um samba que tem a palavra “mulata”. Se a pessoa está na rua cantando samba, está demonstrando apreço por uma das mais ricas heranças da cultura afro-brasileira, e não pode ser acusada de racismo por dizer uma palavra que supostamente ofende mulheres negras.

Na coluna de Monica Bergamo, chama a atenção a notícia de que um bloco de temática drag queen censurou marchinhas como “Maria Sapatão” e “Cabeleira do Zezé”. “A gente tem preocupação de não fazer nada que vá machucar ninguém”, disse um dos organizadores do bloco.

Gostaria de entender o tal conceito de “machucar”. Será que alguém fica realmente ofendido ao ouvir essas letras durante o Carnaval? Ou será que marchinhas e músicas antigas têm um poder sobrenatural de provocar reações extremas? Alguém ouve “Cabeleira do Zezé” e sai tosando cabelos de homossexuais? Crianças que cantam “Atirei o Pau no Gato” viram torturadoras de bichinhos indefesos? Haja paciência.

O que ofende mesmo é perceber que alguns se acham no direito de escolher o que outros podem ou não cantar.

Falando em drags: quando eu era criança, meus pais nos levavam para ver o desfile do Bloco das Piranhas, em Madureira, em que jogadores de futebol se vestiam de mulher. Era divertidíssimo ver zagueirões como Moisés e Brito e atacantes como Dé desfilando pelas ruas. Outro habitué era Joel Santana, que aparece aqui, do lado esquerdo, de sainha branca, ladeado por Brito, Moisés e, de vestido branco longo, Alcir:

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O Carnaval sempre foi uma festa do escracho e não da ofensa. Como disse à revista “Mundo Estranho” a filóloga Rachel Valença, diretora do Centro de Pesquisas da Fundação Casa de Rui Barbosa: “A explicação está na própria psicologia da festa, um espaço de inversão, em que se busca ser exatamente o que não se é no resto do ano”.

Quem fica ofendido e quer censurar marchinhas por julgá-las preconceituosas não entende o conceito de Carnaval. Parece confundir brincadeira com ofensa e não percebe que a imitação é a melhor forma de elogio. A exemplo de Joselito, imortal criação de “Hermes e Renato”, essa turma não sabe brincar.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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