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O dono do Coachella apoia causas antigay - e você vai dar dinheiro para ele de um jeito ou de outro

André Barcinski

09/01/2017 08h21

(Photo by Robert Mora/Getty Images)

(Photo by Robert Mora/Getty Images)


Philip Anschutz tem 77 anos e é um dos 40 homens mais ricos dos Estados Unidos, com uma fortuna pessoal avaliada em 11 bilhões de dólares.

Semana passada, jornais e sites do mundo inteiro revelaram que Anschutz havia feito inúmeras doações a grupos anti-LGBT e a entidades que negam o aquecimento global e fazem lobby pela aprovação de leis que beneficiam empresas poluidoras do meio ambiente.

Até aí, nada de mais: os bilhões são de Anschutz e ele os investe como quiser. Ele tem todo o direito de apoiar as causas que preferir.

A questão é que Anschutz é dono da AEG, uma gigante no setor de entretenimento no mundo, responsável por alguns dos festivais de música mais conhecidos, como o Desert Trip, que em outubro reuniu Stones, Dylan, Neil Young, The Who, Roger Waters e Paul McCartney, e o Coachella, o evento musical mais rentável do planeta, que este ano terá Radiohead e Beyoncé.

Não é estranho ver artistas ligados a causas ambientais, como Neil Young e Roger Waters, tocando num evento produzido por um sujeito que nega o aquecimento global? E Beyoncé cantando num show bancado por alguém que apoia grupos antigay?

Em um comunicado à imprensa, Anschutz negou ser contra gays e disse ser a favor da diversidade, mas não negou ter feito as doações. Disse que apoia centenas de grupos e que, se ficar comprovado que algum deles age de forma discriminatória, vai parar de doar para ele.

O caso leva a uma questão complexa: nesse mundo corporativo de fusões e aquisições, em que imensos grupos econômicos compram empresas menores a rodo e expandem seus negócios para setores diversos, será que o consumidor sabe para quem está dando seu dinheiro?

Vamos ficar só no caso da AEG: se você quisesse evitar que um centavo de seu suado dinheirinho fosse para o bolso de Anschutz, teria grande dificuldade.

Gosta de cinema? Anschutz controla sete mil salas em todo o mundo. Curte tênis? Anschutz produz as finais da ATP. Foi ver um jogo de futebol na Arena Pernambuco? Anschutz é dono de parte do estádio. Foi a alguma convenção na Malásia? A AEG é dona do Centro de Convenções de Kuala Lumpur.

No terceiro trimestre do ano passado, cerca de 60% dos ingressos vendidos nas 100 maiores arenas e teatros do mundo foram de eventos da AEG. A empresa promove turnês de Justin Bieber, Maroon Five, Bruno Mars e Elton John, entre centenas de outros artistas. A AEG também é dona do time de basquete do Los Angeles Lakers e de equipes de hóquei no gelo e futebol nos EUA e Europa, incluindo o Los Angeles Galaxy.

A verdade é que o público não tem a menor ideia de quem é dona do quê (ano passado, fiz uma matéria aqui no UOL sobre quem controla os maiores festivais de música do mundo – leia aqui). Isso cria casos curiosos como o do Lollapalooza, um festival que começou nos anos 90 como uma reação à dominação corporativa da música e aos preços inflados dos megafestivais, e que em 2014 foi comprado pela Live Nation, dona da Ticketmaster, maior empresa de venda de ingressos do mundo e considerada por muitos a grande responsável pelo aumento nos preços dos ingressos de entretenimento nas últimas duas décadas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu sete livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental “História Secreta do Pop Brasileiro”.

Sobre o blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às terças-feiras.