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“Blow Up”: clássico do cinema ou abacaxi inacabado?

André Barcinski

09/12/2016 05h59

“Blow Up – Depois Daquele Beijo” volta aos cinemas brasileiros

Escrevendo sobre um filme de Stanley Kubrick (não lembro se “Doutor Fantástico” ou “2001”, mas tanto faz), o crítico de cinema Rogério Durst (1961-2015) inventou uma expressão que definia perfeitamente o filme: “sessentoso”.

O que Rogério quis dizer é que aquela obra de Kubrick tinha características estéticas e temáticas típicas dos anos 60, uma época em que o cinema passava por grandes transformações.

Foi um período em que cineastas tentaram “reinventar” o cinema, experimentando com montagem, com o uso criativo do som, fazendo filmes mais livres e que buscavam, cada qual a seu modo, capturar o momento conturbado por que passava o mundo, então às voltas com a Guerra Fria, o Vietnã e conflitos sociais, raciais e geracionais.

Esse período de liberdade criativa durou por toda a década de 60 e tem a ver com a crise financeira dos grandes estúdios e o surgimento de uma geração de cinéfilos que buscavam novidades (a quem se interessa pelo tema, sugiro o documentário “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague”, de Antoine de Baecque e Emmanuel Laurent, e o livro “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood”, de Peter Biskind).

Na Europa, cineastas como Godard, Truffaut, Resnais, Rohmer, Varda, Chabrol, Antonioni, Bertolucci e outros criavam uma nova maneira de filmar: mais livre, com câmera na mão, explorando temas pessoais e narrativas criativas e vanguardistas. A moda se espalhou, tanto nos Estados Unidos, com cineastas como John Cassavetes, quanto no Brasil, com Glauber Rocha e Walter Hugo Khouri.

Em 1962, inspirado pela revista francesa “Cahiers du Cinéma”, o crítico norte-americano Andrew Sarris inventou a “teoria do autor”, que dizia que o diretor – e não o produtor – era a verdadeira força criativa de um filme. Nascia o que hoje se chama, pejorativamente, de “cinema cabeça”.

E haja cabeça: filmes como “O Ano Passado em Marienbad” (Alais Resnais, 1961), “A Chinesa” (Godard, 1967), “Terra em Transe” (Glauber Rocha, 1967) e “Cléo de 5 às 7” (Agnès Varda, 1962) entortavam a cuca dos cinéfilos com um tsunami de simbolismos, metáforas e inovações estéticas. Mas de todos esses filmes, nenhum foi tão popular e causou tanta discussão quanto “Blow Up” (1966), de Michelangelo Antonioni.

Inspirado num conto do argentino Juio Cortázar, “Blow Up” foi o primeiro filme em inglês dirigido por Antonioni, conhecido por uma fabulosa trilogia de filmes sobre o isolamento e a incomunicabilidade: “A Aventura” (1960), “A Noite” (1961) e “O Eclipse” (1962).

Na superfície, “Blow Up” é uma história detetivesca sobre um famoso fotógrafo de moda, Thomas (David Hemmings) que, sem querer, fotografa o que poderia ser um assassinato. Dependendo de quem opina, o filme pode ser um estudo sobre a vacuidade da fama, um ensaio acerca da artificialidade e consumismo da vida moderna ou uma crítica à incapacidade do homem de enxergar o mundo além do seu próprio nariz. Pode ser muitas coisas. Ou nada.

Muita gente enxergou profundidade no filme de Antonioni. Foi um dos lançamentos mais comentados de 1966 e, por muitos anos, o “filme de arte” mais rentável do mundo. Outros críticos não foram tão generosos, incluindo a influente Pauline Kael, da revista “The New Yorker”, que só enxergou um festival de pretensão e pouca substância. Meu malvado favorito, o venenoso Rex Reed, foi além: “Outro exercício de petrificante tédio, cortesia do niilista italiano Antonioni. ‘Blow Up’ poderia ter sido um thriller ingênuo, mas foi arruinado pela inabilidade de Antonioni em contar uma história de forma simples ou apaixonada e sua recusa em usar filmes com outro propósito senão o de aliviar suas próprias frustrações”.

Revi o filme esses dias e acho que ele realmente envelheceu muito mal. Antonioni tentou fazer um retrato da “Swinging London”, uma era de promiscuidade sexual, drogas e uma certa atmosfera “blasé”. Pode ter parecido forte e verdadeiro em 1966, mas hoje lembra uma página velha da “Playboy”. A impressão é de que Antonioni, que já tinha 54 anos à época, falava sobre um mundo que não conhecia.

Hoje é fácil ironizar os exageros estéticos de “Blow Up”. O filme virou até motivo de chacota, como nessa cena maravilhosa de “Austin Powers” em que Mike Myers “homenageia” o fotógrafo criado por Antonioni. Veja a cena original:

E a recriação de Myers:

Por outro lado, é um perigo avaliar “Blow Up”de acordo com padrões estéticos e temáticos modernos. Para o bem ou para o mal, ele foi um retrato dos anos 60, e analisá-lo fora do contexto de sua época é injusto. Um filme pode ser um clássico e ter um lugar importante na história do cinema, mas ao mesmo tempo parecer falso, datado e pomposo para plateias modernas.

E se você acha que muita coisa no filme não faz sentido, você pode estar correto. Em 1999, o ator inglês Ronan O’Casey, que participou do filme, escreveu uma carta ao crítico norte-americano Roger Ebert (leia aqui, em inglês) em que classificava “Blow Up” de “obra inacabada” e dizia que muitas cenas que ajudariam a elucidar a trama não foram filmadas porque Antonioni estourou o orçamento.

Segundo O’Casey, depois que o produtor Carlo Ponti, furioso com os atrasos, avisou a Antonioni que a filmagem estava encerrada, o cineasta “pegou os pedaços do filme que havia rodado e os juntou num filme elogiado por seu ‘mistério’ e ‘enigma’. Claro que era misterioso: ele nunca foi terminado!”.

Escreve O’ Casey: “Essa carta não é uma reclamação de um ator insatisfeito, mas uma reflexão sobre a dificuldade de ser preciso na análise da arte e das intenções do artista. A verdade é multifacetada, especialmente a 24 quadros por segundo”.

Minha sugestão: assista a “Blow Up” e tire suas próprias conclusões.

Um ótimo fim de semana a todos.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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