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Holyfield x Todo Duro: a luta do século

André Barcinski

28/10/2016 05h59

luta
A Mostra de Cinema de São Paulo exibe sexta, dia 28 (15h30, no Espaço Itaú de Cinema – Augusta 1) e sábado, dia 29 (14h, na Cinesala), o documentário "A Luta do Século", de Sérgio Machado.

O filme conta a história da rivalidade entre dois boxeadores nordestinos, o baiano Reginaldo "Holyfield" Andrade e o pernambucano Luciano "Todo Duro" Torres.

Em 1993, os dois lutaram pela primeira vez. Todo Duro ganhou por pontos, numa decisão contestada até por seus próprios torcedores. Holyfield não engoliu o resultado, e o ódio entre eles só cresceu. Os dois não saíam no braço apenas no ringue, mas também em entrevistas de TV e coletivas de imprensa.

A animosidade entre os lutadores refletia também uma antiga rixa entre Bahia e Pernambuco. Em entrevistas, os lutadores faziam questão de ironizar o estado natal do rival. Quando Todo Duro disse que ia "acabar com a raça" de Holyfield, o baiano retrucou: "Ah é? E você não sabe quanto negão tem na Bahia?". O clima era tão pesado que uma luta em Salvador terminou com o público baiano tentando linchar Todo Duro.

Holyfield e Todo Duro fizeram seis lutas, com três vitórias para cada lado. A sexta aconteceu em 2004, quando os lutadores já estavam em decadência e o interesse do público pela rivalidade havia diminuído bastante. Onze anos depois, em 2015, quando ambos já tinham quase 50 anos de idade, decidiram enfrentar-se uma última vez.

"A Luta do Século" não é só um filme sobre boxe, mas um drama comovente sobre dois homens pobres e orgulhosos que viram no esporte a chance de mudar de vida. Holyfield trabalhava nas docas em Salvador e tinha sete filhos. Todo Duro era analfabeto. A rivalidade transformou os dois em astros regionais.

O filme tem vários elementos de um grande drama humano: dois personagens cheios de carisma e humor, histórias pessoais trágicas, a decadência financeira e de popularidade dos dois lutadores, e o cenário melancólico do esporte amador brasileiro.

Se "A Luta do Século" tem um defeito, é o de usar uma estrutura narrativa que não aproveita todas as possibilidades dramáticas desse enredo excepcional. O filme abusa da narração em "off", o que lhe confere, por vezes, um ar de reportagem de telejornal.

Acho que cinema não tem regras. Um cineasta tem todo o direito de usar o artifício que quiser para contar sua história. Mas é inegável que a narração, especialmente quando se limita a contar o que o espectador está vendo na tela, tira muito da surpresa e da força dramática da história.

Vários eventos narrados pelo locutor em "A Luta do Século" são incríveis: Todo Duro tinha três esposas, Holyfield salvou dois sobrinhos de um incêndio e quase morreu, e o empresário que bancou a volta dos dois aos ringues era traficante de drogas.

Essas histórias maravilhosas são relatadas de passagem, sem maiores explicações. Por que não ouvir do próprio Todo Duro a razão para ter três esposas? E as esposas, o que teriam a dizer? Por que não deixar o próprio Holyfield contar o dia em que quase morreu nas chamas?

A narração do filme é tão intrusiva e redundante que não permite ao espectador sequer se emocionar com as seis primeiras lutas, já que o narrador antecipa os resultados e conta o que está por vir. Já o sétimo combate é mostrado sem narração, cortando lindamente do ringue para as reações de espectadores, e o resultado é um dos melhores momentos do filme.

As grandes cenas, para mim, são as mais silenciosas e menos intrusivas: Holyfield, visivelmente acima do peso, correndo pelas ruas de um bairro pobre de Salvador para perder alguns quilos antes da luta e sendo incentivado por admiradores; Todo Duro brincando com o netinho em um casebre humilde. São imagens que dizem muito sobre os personagens e não precisam de maiores explicações.

Li na Internet que uma nova luta entre Holyfield e Todo Duro está marcada para o final de ano em Salvador. Que tal uma continuação: "A Luta do Século 2 – O Conflito Final"?

Um ótimo final de semana a todos.

Sobre o autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu sete livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental “História Secreta do Pop Brasileiro”.

Sobre o blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às terças-feiras.