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Se você gostou de “A Forma da Água”, experimente ver “Trama Fantasma”

André Barcinski

22/02/2018 05h59

Em 4 de março, quando a Academia de Hollywood entregar o Oscar, “Trama Fantasma”, de Paul Thomas Anderson, provavelmente sairá de mãos abanando, enquanto “A Forma da Água”, de Guillhermo Del Toro, receberá vários prêmios.

Isso não será surpresa. O filme de Del Toro é favorito não porque é “melhor” do que o de Anderson, mas por se adequar aos parâmetros de “bom cinema” que costumam influenciar premiações. Em suma, “A Forma da Água” é um filme mais fácil de gostar.

“Trama Fantasma”, que estreia hoje nos cinemas, conta a história de Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), um famoso estilista na Londres dos anos 1950. Reynolds é um artista obsessivo e perfeccionista, mas seu mundo ultracontrolado corre o risco de entrar em colapso quando ele conhece Alma (Vicky Krieps), uma garçonete com quem inicia uma misteriosa relação de amor e sadismo.

Não vou comparar “Trama Fantasma” e “A Forma da Água”, até porque são obras diferentes em temática e estilo. Mas vale a pena analisar algumas características dos filmes.

“A Forma da Água” (leia minha crítica aqui) tem personagens arquetipais e estereotipados – há a mocinha, o artista sensível, o malvadão – enquanto “Trama Fantasma” é habitado por personagens multidimensionais e complexos, capazes de gestos de bondade num minuto e crueldade extrema em outro.

A trama do primeiro filme não traz surpresas (você sabe exatamente o que vai acontecer em todos os momentos), enquanto o segundo tem uma história misteriosa, cheia de reviravoltas e sequências surpreendentes.

Os diálogos do primeiro servem a um propósito: reforçar a estereotipização dos personagens e a banalidade da história: tudo que os personagens falam serve apenas para confirmar o que o espectador está vendo na tela. O filme segue uma narrativa de novela de TV, em que nada pode ficar inexplicado ou subentendido. Já os diálogos de “Trama Fantasma” são, muitas vezes, enigmáticos: o espectador pode não entender, a princípio, as minúcias da história, mas a trama vai se revelando aos poucos, assim como as motivações dos personagens.

“A Forma da Água” entrega tudo mastigado ao espectador: bom é bom, ruim é ruim, aqui é hora de chorar, aqui é hora de rir, etc., enquanto “Trama Fantasma” não entrega nada, mas força o público a tirar suas próprias conclusões (depois que o filme terminou, minha mulher e eu ficamos discutindo um tempão sobre uma personagem; nossas opiniões sobre ela divergiam completamente).

O filme de Paul Thomas Anderson é cheio de pequenos detalhes e minúcias estilísticas que ajudam a explorar (mas nunca explicar!) a psique dos personagens. Há uma sequência em que um casal toma café da manhã. Anderson usa um artifício simples – aumenta o volume do barulho do café sendo derramado na xícara e da faca passando manteiga na torrada – para evidenciar a tensão entre marido e mulher. A cena consegue ser, ao mesmo tempo, imóvel e impactante; silenciosa e angustiante.

Paul Thomas Anderson é um dos melhores cineastas da atualidade. Se você gostou de “Trama Fantasma”, sugiro “O Mestre”, “Vício Inerente” e “Boogie Nights”. E não deixe de assistir à outra colaboração entre o cineasta e o ator Daniel Day-Lewis, “Sangue Negro”, um dos grandes filmes do cinema das últimas décadas.

“Trama Fantasma” merece ser visto também por marcar a despedida de Day-Lewis, que, aos 60 anos, anunciou sua aposentadoria do cinema. “Preciso acreditar no mérito do que estou fazendo”, justificou o ator. “O trabalho pode parecer vital; irresistível, até. E se o público acredita nele, isso deveria ser o suficiente para mim. Mas, ultimamente, não está sendo”.

Daniel Day-Lewis: está aí um artista que NUNCA saiu de casa só por dinheiro, que nunca fez um filme de super-herói ou um papel abaixo do que julgava digno. Esse vai fazer falta.

P.S.: Adiantei o texto de sexta por conta da estreia de “Trama Fantasma”. O blog volta segunda. Um ótimo fim de semana a todos.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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