PUBLICIDADE
Topo

“A Máfia dos Tigres” é bizarro e divertido - só não chame de documentário

André Barcinski

21/04/2020 06h00

"A Máfia dos Tigres", da Netflix, é um grande sucesso de público, e não é difícil entender as razões de sua popularidade.

A minissérie une elementos de vários gêneros que sempre fizeram sucesso na TV: novelas, "reality shows", programas policiais tipo Sikera Júnior e exploração do Mundo Cão, tudo embalado por uma estética kitsch de novela bíblica da Record. Adicione sexo, crime, animais fofinhos e feras assassinas, e você tem uma receita infalivelmente apelativa.

O que não tira os méritos da empreitada. O produto é muito bom, inteligentemente realizado e feito por quem sabe manipular o telespectador. Só não chamem de documentário, por favor.

Porque a narrativa de "A Máfia dos Tigres" é tão manipulada, tão artificialmente feita para obter máximo impacto dramático, que é difícil separar fato de ficção.

Veja bem, não estou dizendo que documentaristas são artistas de alma pura, que só dizem a verdade e fazem filmes 100% isentos. Qualquer trabalho documental é manipulado. Quando você filma uma entrevista e escolhe exibir apenas trechos dela, está manipulando fatos. Quando você escolhe uma pessoa para ser entrevistada em detrimento de outra, está indicando a direção que deseja para seu documentário.

O que importa é o limite de manipulação que o espectador está disposto a tolerar. Se ele assiste a um filme documental e acredita que o realizador exibiu uma visão equilibrada dos fatos e demonstra credibilidade jornalística, o espectador tende a embarcar com mais interesse na história.

Infelizmente, não é o caso de "A Máfia dos Tigres". A minissérie funciona como entretenimento, mas é jornalisticamente inepta. No meio do segundo episódio – são oito – eu já estava me sentindo completamente enganado. A impressão é de que os diretores Eric Goode e Rebecca Chaiklin, quando confrontados com algum fato que atrapalhava sua história, o distorciam para caber na narrativa, ou pior: simplesmente o ignoravam.

ATENÇÃO: O TRECHO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS

"A Máfia dos Tigres" gira em torno da briga de dois personagens, ambos ligados ao mundo dos colecionadores de grandes felinos: Joe Exotic, dono de um parque temático de tigres, leões e jacarés em Oklahoma, e Carole Baskin, diretora de uma entidade na Flórida que combate o funcionamento de zoológicos particulares nos Estado Unidos. O trabalho de Baskin consiste em receber animais que foram resgatados de circos, zoológicos particulares e criadores.

Desde o início do filme, Joe Exotic aparece na cadeia. Não sabemos ainda por que ele está lá, mas fica claro que o sujeito cometeu algum crime. No entanto, ele é retratado como o "herói" do filme, mostrado como um doido de pedra, mas engraçado e divertido em sua bizarrice.

Carole Baskin, em contrapartida, é exibida como uma desgraçada manipuladora, uma hipócrita que também enjaula filhotes de tigre enquanto protesta por Joe Exotic fazer o mesmo.

Mas a verdade – basta uma pesquisa na Internet – não é bem assim. A entidade de Baskin, a Big Cat Rescue, é conhecida por fazer um trabalho importante de lobby contra a exploração de felinos e animais selvagens. Há várias reportagens na imprensa norte-americana com entrevistas de pesquisadores e ativistas que elogiam o trabalho de Baskin. Isso não aparece na minissérie.

Em "A Máfia dos Tigres", Joe Exotic reclama que Baskin mantém seus animais em jaulas pequenas e apertadas. Baskin é mostrada em fotos ao lado de leões e leopardos confinados em espaços diminutos. Mas essa reportagem do "The New York Times" mostra que a acusação não procede. As jaulas mostradas não são os lugares onde os animais normalmente ficam, mas espaços para onde eles são levados quando precisam ser tratados ou receber medicação.

Os diretores de "A Máfia dos Tigres" poderiam ter esclarecido esse ponto. Por que não o fizeram? Talvez porque isso tornaria Carole Baskin menos "vilã"?

A minissérie é cheia dessas pegadinhas, de omissões ou distorções de fatos que só servem para tornar a narrativa mais empolgante, mesmo que a verdade saia prejudicada. Até os clipes musicais de Joe Exotic – engraçadíssimos – são pegadinhas, porque a série esconde que ele não cantou na maioria deles, mas foi dublado por um cantor de verdade:

No fim do segundo episódio, há uma cena absolutamente constrangedora e que evidencia a tática apelativa dos realizadores: durante uma entrevista com um antigo funcionário de Joe Exotic, o sujeito casualmente menciona que o primeiro marido de Carole Baskin, um milionário chamado Don Lewis, havia sumido misteriosamente. O diretor da minissérie, Eric Goode, aparece ao lado do sujeito e diz, fingindo surpresa: "Como assim? O marido dela sumiu?". O episódio seguinte é inteiramente dedicado à história do sumiço de Don e das suspeitas – repito, SUSPEITAS – de que Carole Baskin teve algo a ver com aquilo.

Ora, alguém precisa ser muito idiota para achar que um cineasta que está trabalhando num projeto desses não conhece os detalhes da vida de seus entrevistados. É óbvio que o diretor Goode sabia do sumiço do marido de Baskin, um caso que teve ampla repercussão nos Estados Unidos, com reportagens na revista "People" e em programas policiais de TV como "Hard Copy". É inaceitável que Goode se preste ao papel de fingir surpresa com uma "revelação bombástica".

As cascatas, omissões e pistas falsas se sucedem aos montes, e a cada cena supostamente "documental" claramente armada para atiçar o espectador, meu interesse por "A Máfia dos Tigres" foi diminuindo. No quinto episódio, quando Joe Exotic se candidata a governador de Oklahoma, há uma cena em que ele assiste na TV à cobertura da contagem de votos, e Joe aparece na tela em terceiro lugar, com 19% dos votos. O espectador certamente pensou: "Nossa, como é que um louco desses teve 19% dos votos do Estado de Oklahoma?". O que a minissérie convenientemente "esqueceu" de explicar é que Joe Exotic nem chegou a disputar a eleição para governador. A eleição mostrada é a primária que escolheria o candidato do nanico Partido Libertário. Joe foi o terceiro colocado (de três!) na primária do Partido Libertário. Na verdadeira eleição para governador, o candidato Libertário acabou com pouco mais de 3% dos votos.

Enfim, "A Máfia dos Tigres" é um entretenimento de primeira, um "fast food" audiovisual que cai bem em noites de quarentena devorando um balde de pipoca. Mas não dá para levá-lo a sério como documentário. Fico imaginando o que cineastas geniais e com um gosto pelo bizarro, como Errol Morris ou Werner Herzog, teriam feito com esses personagens…

Uma ótima semana a todos.

Veja meu site: andrebarcinski.com.br

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu sete livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental “História Secreta do Pop Brasileiro”.

Sobre o blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às terças-feiras.