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Sete documentários para ver na quarentena (e adeus ao PASV, um ícone de SP)

André Barcinski

14/04/2020 06h00

Capitão McCluskey (Sterling Hayden) é morto por Michael Corleone (Al Pacino) em "O Podersoso Chefão"


Aqui vão sete excelentes documentários, de plataformas e temas diversos, para ver na quarentena. Sem ordem de preferência:

CRIP CAMP (James Lebrecht e Nicole Newnham, 2020)

Há muito tempo eu não via um documentário tão comovente. Produzido pelos Obama e disponível na Netflix, o filme começa em 1970 e conta a história de vários adolescentes que frequentavam o Camp Jened, um acampamento de verão para pessoas com todo tipo de deficiência, localizado no Estado de Nova York. Vários desses jovens se tornaram ativistas e tiveram papel fundamental na luta pelos direitos dos deficientes nos Estados Unidos. As histórias pessoais são lindas, e a maneira adulta e bem humorada como o filme trata os personagens foge da pieguice e comiseração que costumam atacar filmes dessa temática.
Disponível na Netflix. Veja aqui.

PHAROS OF CHAOS (Manfred Blank e Wolf-Eckart Buhler, 1983)

O grande público conhece o ator Sterling Hayden (1916-1986) como McCluskey, o policial que é morto por Michael Corleone (Al Pacino) em "O Poderoso Chefão", mas poucos sabem a vida incrível que ele teve. Filho único uma família miserável, venceu a fome e a Grande Depressão trabalhando como marujo em veleiros desde a adolescência. Aos 17 anos, já era capitão de uma imensa escuna e enfrentou os mares mais brutais do planeta. Virou astro hollywoodiano e largou tudo para combater Hitler. Foi herói de guerra, comandando barcos americanos na luta contra nazistas. Nos anos 50, foi acusado de ser comunista e, ameaçado de perder a guarda dos filhos, colaborou com os tribunais que caçaram "vermelhos", decisão que o atormentou por toda a vida. Quando a ex-mulher ameaçou lhe tirar os quatro filhos, pegou as crianças, botou-as dentro de seu veleiro Wanderer e rumou para o Taiti, abandonando o cinema. Este filme mostra Hayden vivendo em um barco na França, garrafa de uísque na mão, contando "causos" impressionantes. E para quem se interessa, recomendo "Wanderer", a autobiografia de Sterling Hayden.
Disponível no MUBI. Veja aqui.

MARIELLE – O DOCUMENTÁRIO (Caio Cavechini, 2020)

Série documental em seis episódios sobre os assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Um trabalho jornalístico meticuloso, que conta não só detalhes do crime e da investigação que prendeu o PM reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Vieira, mas também relata a trajetória de vida de Marielle desde a infância, passada na Favela da Maré, no Rio de Janeiro. Esperamos por um sétimo episódio, com a conclusão das investigações e a descoberta do mandante.
Disponível na Globoplay. Veja aqui.

MARIANNE & LEONARD: WORDS OF LOVE (Nick Broomfield, 2019)

Se você é fã de Leonard Cohen, também conhece Marianne Inhen, mesmo que indiretamente: a norueguesa Inhen foi a musa de Cohen e o inspirou a compor algumas de suas músicas mais bonitas, como "So Long, Marianne", "Bird on a Wire" e "Hey, That's No Way To Say Goodbye". Os dois se conheceram na ilha de Hydra, na Grécia, nos anos 1960, e permaneceram amigos até o fim. Quando Marianne foi diagnosticada com leucemia, Leonard escreveu uma carta: "Estou atrás de você, perto o suficiente para pegar sua mão. Este velho corpo desistiu, assim como o seu desistiu também. Tenha uma viagem segura, velha amiga. Te vejo na estrada". Marianne morreu em julho de 2016. Leonard a acompanhou quatro meses depois.
Disponível na Looke. Veja aqui.

SUPERMENSCH: THE LEGEND OF SHEP GORDON (Mike Myers, 2013)

Dirigido por Mike Myers, ator famoso pelo papel do detetive Austin Powers, "Supermencsh" é um divertidíssimo doc sobre Shep Gordon, lendário agente artístico norte-americano. Gordon conheceu todo mundo: vendeu ácido para Janis Joplin e Jim Morrison, trabalhou com Pink Floyd e Groucho Marx, namorou Sharon Stone e coelhinhas da "Playboy". No início dos anos 1970, virou agente de Alice Cooper e ajudou o cantor a criar sua imagem teatral. Suas histórias de hedonismo, mulheres e excessos inspiraram cenas de filmes como "Quase Famosos", de Cameron Crowe.
Disponível na Globoplay. Veja aqui.

OS DIÁRIOS ZEN DE GARRY SHANDLING (Judd Apatow, 2018)

O comediante Garry Shandling (1949-2016) nunca teve no Brasil a fama e o respeito que mereceu nos Estados Unidos. Shandling é considerado um humorista inovador, cujo trabalho buscou reinventar a forma de fazer comédia televisiva. Um dos grandes fãs de Shandling é o comediante Judd Apatow ("O Virgem de 40 anos"), que dirigiu e produziu esse documentário de mais de quatro horas, que a HBO exibe em duas partes. A lista de entrevistados dá uma ideia da moral que Shandling tinha entre os colegas comediantes: Jim Carrey, Jerry Seinfeld, Sarah Silverman, Jay Leno e Sacha Baron Cohen, entre muitos outros.
Disponível na HBO Go. Veja aqui.

O BARATO DE IACANGA (Thiago Mattar, 2019)

Numa época de megashows corporativos como Lollapaloozas e Rock in Rios, vale lembrar que o Brasil teve seu Woodstock: numa fazenda em Iacanga, interior de São Paulo, um maluco chamado Antonio Checchin Junior, o Leivinha, realizou, entre 1975 e 1984, quatro edições de um evento independente que marcou época: o Festival de Águas Claras. Esse doc, vencedor do festival In-Edit de 2019, conta a história do festival, de seus realizadores, e o impacto que ele teve na vida dos moradores da pacata Iacanga. Destaque para as ótimas histórias envolvendo o misantropo João Gilberto.
Disponível na Netflix. Veja aqui.

ADEUS, PASV, FOI BOM TE CONHECER

Mais um cliente satisfeito saindo do PASV…

A pandemia não mata só pessoas, mata cidades também. E um pedaço de São Paulo foi embora junto com o PASV, um botecão espanhol que estava há meio século na Avenida São João, perto do Largo do Arouche.

Alguns restaurantes antigos fecham porque não conseguem manter a qualidade. Não era o caso do PASV. Fui pela última vez no fim do ano passado, e a comida era tão boa quanto na primeira vez que entrei lá, trinta anos atrás.

O único pecado do PASV é que os donos tinham muito mais habilidade manejando a grelha do que o Instagram.

Comer lá era o mais próximo de um almoço na casa da vovó. Havia a Dona Maria, vovó de todos, sempre preocupada com nosso bem estar: "Filhinho, você está com uma aparência cansada, não quer mais um pouquinho de purê de batata?"

Meu amigo Paulo Cesar Martin, com quem dividi incontáveis mesas por lá, escreveu um texto lindão sobre o PASV e a necessidade de frequentar lugares como aquele. Leia aqui.

Ao seu Pepe e seu Ramon, ao pessoal da cozinha e do balcão, um beijo e um agradecimento de coração.

Veja meu site: andrebarcinski.com.br

Uma ótima semana a todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu sete livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental “História Secreta do Pop Brasileiro”.

Sobre o blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às terças-feiras.