PUBLICIDADE
Topo

André Barcinski

MUBI exibe filme clássico que inspirou “Parasita”

André Barcinski

31/03/2020 06h00

Para quem chegou agora, um aviso: este blog não tem "conteúdo patrocinado".

Isso quer dizer que as dicas de filmes, discos e livros que o leitor encontra aqui não são motivadas por nenhum interesse pecuniário. Acho importante deixar isso claro, especialmente nesses tempos de Youtubers e influencers, em que o leitor não consegue mais diferenciar jornalismo de jabá.

Esclarecido esse ponto importante, gostaria de recomendar o MUBI, um serviço de filmes sob demanda especializado em cinema de arte. O MUBI custa vinte e poucos mangos por mês e tem uma seleção extraordinária. Cada dia entra um filme novo, que fica disponível por 30 dias. Ou seja: a qualquer hora que você acessa, há 30 títulos disponíveis, de clássicos antigos a produções novas de toda parte do mundo. E tudo com legendas em português.

Hoje você pode ver filmes recentes do Irã, Romênia, Espanha, Japão, Bélgica, Gana e Brasil ("O Som ao Redor", de Kleber Mendonça Filho, e "Maria", um documentário sobre a escultora brasileira Maria Martins, dirigido por Elisa Gomes e Francisco C. Martins), além de clássicos dos franceses Louis Malle ("Trinta Anos Essa Noite") e Robert Bresson ("Diário de um Pároco de Aldeia"), do norte-americano King Vidor ("O Pão Nosso") e do japonês Yuzo Kawashima ("Duas Almas e um Destino").

Esses dias, o grande destaque da programação é uma série dedicada ao cineasta norte-americano Joseph Losey (1909-1984), com quatro filmes que ele dirigiu em seu exílio europeu, depois que deixou os Estados Unidos em 1953 pela perseguição que sofreu da temida HUAC, uma comissão de deputados que investigava pessoas supostamente envolvidas em atividades "subversivas" e ligações comunistas.

Os filmes são "Eva" (1962), "Cidadão Klein" (1976), "O Criado" (1963) e "Estranho Acidente" (1967), os dois últimos com roteiros do dramaturgo inglês Harold Pinter, vencedor do Nobel de Literatura.

Os três filmes são excelentes, mas "O Criado" periga ser o melhor filme de Losey e um dos mais perturbadores dramas psicossexuais do cinema, além de ter inspirado um filmaço recente – "Parasita", do sul-coreano Bong Joon Ho. Nesse artigo, Joon Ho fala de cinco filmes que inspiraram "Parasita".

Em "O Criado", James Fox ("Performance", "Vestígios do Dia") faz Tony, um jovem playboy milionário que compra uma casa imensa e contrata um mordomo, Hugo Barrett (o genial Dirk Bogarde) para cuidar da residência.

No início, tudo vai bem: Hugo é um funcionário exemplar, e Tony está felicíssimo com seu trabalho. Mas a noiva de Tony, a aristocrática Susan (Wendy Craig) tem um pressentimento ruim sobre Hugo. A desconfiança de Wendy se confirma quando Hugo traz para a casa a irmã, Vera (Sarah Miles), e convence Tony a contratá-la como arrumadeira.

Vou parar por aqui para não dar nenhum "spoiler", mas as semelhanças com "Parasita" são evidentes: uma família de trambiqueiros invade a mansão de um ricaço e transforma sua vida idílica de luxo e sofisticação em um pesadelo.

A forma como Losey mostra a crescente degeneração da relação entre Tony e Hugo é brilhante. No início do filme, a casa é fotografada como um oásis de tranquilidade: a luz é tênue e os espaços, amplos. Quando Hugo passa a controlar o ambiente – e, por consequência, a mente de Tony – Losey e seu fotógrafo, o grande Douglas Slocombe (que depois faria os três primeiros filmes de Indiana Jones) passam a usar lentes grandes angulares, que distorcem o ambiente e o transformam num cenário Expressionista, tornado ainda mais grotesco por uma iluminação forte e altamente contrastada, dando à segunda metade do filme um efeito de enclausuramento e paranoia.

James Fox, Joseph Losey e Harold Pinter no set de "O Criado"

O roteiro de Harold Pinter, adaptado de um romance do britânico Robin Maugham, consegue falar de temas complexos – guerra de classes, repressão sexual, a falácia da tese de superioridade moral das classes economicamente desfavorecidas – de forma concisa. O filme tem, basicamente, dois ou três cenários e quatro atores. O elenco inteiro, incluindo figurantes – entre eles, o próprio Harold Pinter – não passa de 15 pessoas.

Enfim, aqui está um filme feito há 57 anos e que se mantém tão atual que inspirou Bong Joon Ho a fazer um dos grandes filmes de 2019.

DOIS DISCOS: "THE TONY BENNETT / BILL EVANS ALBUM" (1975) e "TOGETHER AGAIN" (1977)
Para esses dias de angústia, poucos discos trazem tanto conforto e placidez quanto essas colaborações entre o cantor Tony Bennett e o pianista de jazz Bill Evans.

ADEUS A GIGANTES DO JAZZ E DO SOM INDUSTRIAL

MANU DIBANGO
O saxofonista e vibrafonista camaronês Manu Dibango morreu em 24 de março, aos 86 anos, vítima do Coronavírus. Dibango foi um dos grandes nomes da música africana e influenciou artistas do pop, funk e disco com sua empolgante mistura de jazz e ritmos africanos. Até Michael Jackson "se inspirou" – eufemismo para "plagiou" – Dibango na faixa "Wanna Be Startin' Somethin'", que abria o álbum "thriller". Jackson admitiu ter copiado o refrão da música "Soul Makossa" (1972) e pagou uma merecida indenização ao camaronês. Aqui está Dibango ao vivo em uma apresentação no ano passado, ainda em plena atividade.

GENESIS P-ORRIDGE
O(a) músico(a), poeta, ocultista, antagonista de todo e qualquer sistema e defensor(a) de toda e qualquer liberdade individual, morreu de leucemia em 14 de março, aos 70 anos. Genesis fundou grupos seminais do som industrial, como Throbbing Gristle e Psychic TV, que influenciaram de Ministry a Nine Inch Nails, passando pelo techno experimental e a música eletrônica de vanguarda. Aqui está Gensesis e o Psychic TV com "Godstar", homenagem a Brian Jones, o mais trágico dos Stones:

E aqui, Genesis e o Throbbing Gristle desvirtuando a juventude em 1981, ao vivo em São Francisco:

BILL RIEFLIN
Antes de tocar no REM e no King Crimson, Bill Rieflin, que morreu de câncer em 24 de março, aos 59 anos, foi baterista de alguns dos maiores grupos de som industrial, como Ministry, KMFDM, Swans, Pigface, Lard e Revolting Cocks. Aqui está ele com o Ministry em 1990, tocando "Breathe" (o outro baterista, o louro de cabelo espetado, é Martin Atkins). Tive a sorte de ver o Ministry nessa época, um dos melhores shows que já assisti. Rieflin foi um grande baterista e tocou em muitos discos fundamentais.

Uma ótima semana a todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu sete livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental “História Secreta do Pop Brasileiro”.

Sobre o blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às terças-feiras.