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"Village Green": 50 anos do disco clássico que quase destruiu os Kinks

André Barcinski

05/10/2018 05h59


Em outubro de 1968, o Kinks terminava de gravar "The Village Green Preservation Society", um dos melhores discos da banda. Mas o LP marcou uma fase difícil, que por pouco não acabou com o quarteto.

Em 2015, escrevi sobre o disco:

Para entender o caos que se abateu sobre a banda pós-1968, é preciso retroceder alguns anos no tempo, até 1965, quando o Kinks, então uma das estrelas da "Invasão Britânica", fazia grande sucesso nos EUA e Europa com hits como "You Really Got Me", "All Day and All of the Night", "Tired of Waiting for You" e "Till the End of the Day".

Enquanto seus contemporâneos, os Rolling Stones, ganhavam fama de bad boys, os Kinks eram os verdadeiros delinquentes daquela geração. Num show, o guitarrista Dave Davies xingou o baterista Mick Avory, que respondeu arrebentando a cabeça de Dave com um pedestal de prato. Avory fugiu do teatro acreditando que tinha matado o colega. Logo depois, o líder da banda, o cantor e guitarrista Ray Davies, irmão de Dave, deu entrevistas esculhambando Frank Sinatra ("Eu canto 'You Really Got Me' melhor que ele") e dizendo que qualquer um – "até Hitler" – era capaz de lotar um teatro de fãs. Numa turnê pelos Estados Unidos, Ray saiu no braço com um diretor de uma emissora de TV durante a gravação de um programa. O homem era poderoso, e os Kinks foram proibidos de excursionar na América por quatro anos.

Sem acesso ao maior mercado de discos do mundo e vendo seus competidores – Beatles, Stones, Who – fazendo fortuna na América, Ray e Dave piraram. A banda lançou discos fabulosos em 1966 ("Face to Face") e 1967 ( "Something Else"), que até obtiveram algum sucesso no Reino Unido, mas não venderam nada nos Estados Unidos.

Mas a maior tristeza foi perceber que "The Village Green Preservation Society" (1968), uma obra-prima que hoje figura ao lado de "Sgt. Pepper's", "Pet Sounds", "Are You Experienced?", "Da Capo" e "Blonde on Blonde" em qualquer lista dos álbuns mais importantes do fim dos anos 60, nem apareceu nas paradas. Depois de "Something Else", os Kinks nunca mais frequentaram as paradas britânicas e só voltaram a fazer algum sucesso na América em 1979, com o disco "Low Budget".

"Village Green" era uma ode saudosista a uma Inglaterra rural e provinciana, uma ópera-rock criada por Ray Davies, um jovem de alma velha, geniozinho de 24 anos que não se conformava com as transformações por que seu país passava e via tudo que mais amava – a cordialidade de velhos vizinhos, as tradições, a pacatez da vida em família e uma certa ordem vitoriana – sumindo sob os conflitos de gerações e a "modernidade".

Quando "Village Green" fracassou, Ray deu uma banana para a gravadora, os fãs, a crítica e as expectativas que tinham dele, e resolveu fazer o que lhe desse na telha. Seguiram-se alguns dos discos mais estranhos e anticomerciais já lançados por um herói pop. Alguns eram lindos, outros, apenas herméticos e pretensiosos. Mas, até quando falhava, Ray falhava de maneira espetacular. Ninguém nunca pôde acusá-lo de comedimento.

O período de 1968 até mais ou manos 1978 também foi marcado por imensas crises pessoais. Dave bebia como um peixe e tinha impulsos suicidas; Ray sofria de depressão e surtos imprevisíveis. Num show, surpreendeu os companheiros de banda ao anunciar que aquela seria a última apresentação deles, antes de desmaiar e ser levado para o hospital. Passou semanas recuperando-se ao som da Segunda Sinfonia de Mahler – "A Ressurreição".

Ray era paranoico e via o mundo como um lugar hostil e cheio de armadilhas. Começou a fazer músicas que refletiam seus sentimentos de raiva e descompasso com o mundo. "Arthur or the Decline and Fall of the British Empire" (1969) era exatamente o que o título dizia, um disco temático sobre a decadência – moral, social, ética – do império britânico.

Em "The Kinks Parte One – Lola Versus Powerman and the Moneygoround" (1970), Ray centrou fogo em outro adversário, a indústria musical. Algumas letras pareciam criticar os agentes da banda, que, irritados, largaram o grupo um ano depois do lançamento. O LP trouxe um dos raros sucessos do grupo nos anos 70, "Lola", em que Ray narra um encontro com um travesti.

Depois de "Lola", os discos ficaram cada vez mais estranhos: "Percy" (1971) era a trilha sonora de um filme sobre um transplante de pênis; em "Muswell Hillbillies" (1971), Ray usou um naipe de instrumentos de sopro para criar uma bizarra celebração de música folk britânica e um repúdio ao pop; "Everybody's in Showbiz" (1973) era um álbum duplo, com um disco de estúdio e outro ao vivo; "Preservation Act 1" (1973) e "Preservation Act 2" (1974) formavam uma confusa ópera-rock sobre artistas de vaudeville; "Soap Opera" (1975) e "Schoolboys in Disgrace" (1976) eram discos temáticos – o primeiro, aparentemente sobre culto a celebridades, o segundo, memórias do tempo de escola.

No meio de toda essa confusão de ideias e estilos, os Kinks eram capazes de criar ouro. É só ver a beleza de uma faixa como "Celluloid Heroes", do Lp "Everybody's in Showbiz":

No fim dos anos 70, o Kinks se reinventou como banda de hard rock, com discos mais pesados e populares. E a versão que o Van Halen fez de "You Really Got Me", em 1978, apresentou a banda a uma geração que nunca ouvira falar nela. Mas os LPs que os irmãos Davies fizeram entre o fim dos anos 60 e o fim dos 70 permanecem como um dos tesouros esquecidos da música pop. Mesmo que quase tenham levado a banda à falência.

Um maravilhoso fim de semana a todos.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

Sobre o autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.