Topo
Blog do Barcinski

Blog do Barcinski

Categorias

Histórico

Fazer sucesso foi o “pecado” de Guilherme Arantes

André Barcinski

18/06/2018 05h59


Leio no UOL sobre um novo projeto de Guilherme Arantes em que ele interpreta, ao piano, 90 de suas músicas. Assinada por Leandro Vieira, a reportagem diz que Guilherme tem “a curiosa sensação de que suas músicas serão mais valorizadas daqui a muitos anos”.

Concordo com a afirmação. Em meu livro “Pavões Misteriosos”, fiz um perfil de Guilherme Arantes, tentando explicar por que boa parte da crítica musical torcia o nariz para ele. Separei alguns trechos:

Guilherme Arantes já estava acostumado com as ironias e brincadeiras de seus colegas da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da usp. Era só ele aparecer nos corredores da escola para alguém gritar: “Lá vem o ídalo!”. Guilherme não estava entre os melhores alunos da fau; faltava muito às aulas e atrasava com os trabalhos. Era compreensível: não devia ser fácil se concentrar nos estudos depois de passar a noite tocando em shows para 5 mil pessoas ou ser esmagado por fãs histéricas no auditório do Chacrinha.

No início de 1976, um diretor da Som Livre, Otávio Augusto Cardoso, cantor que gravara em inglês com o nome de Pete Dunaway, chamou Guilherme para fazer um compacto. A música foi “Meu mundo e nada mais”. Guto Graça Mello gostou e incluiu a canção na novela Anjo mau, da tv Globo. Os colegas de Guilherme na fau caíram matando. “Eles associavam a Som Livre e a Globo aos militares, e eu entrei nesse balaio. Eu era considerado um intelectual de segunda linha, um ídolo artificial criado pela Som Livre”, conta o compositor.

O compacto foi o primeiro lançamento de Guilherme Arantes depois do fim de seu grupo de rock progressivo, o Moto Perpétuo. “Meu mundo e nada mais” era uma canção romântica sobre traição: “Quando eu fui ferido/ vi tudo mudar/ das verdades que eu sabia/ só sobraram restos/ que eu não esqueci”. Foi um sucesso imediato e transformou o cantor, aos 22 anos, em “ídalo”. Com sua pinta de galã teen, ele causava frenesi nos programas de tv, e sua imagem decorava pôsteres em quartos de adolescentes: “Teve uma época em que eu tinha raiva de ser bonito, porque os compositores importantes eram feios. Eu tinha uma puta inveja do Zé Ramalho, por exemplo. Mas havia um preconceito na época, e acho que existe até hoje, de que uma pessoa bonita não pode querer tudo. Além de bonita, também quer ter talento? Que negócio é esse?”.

Além das fãs que lotavam os auditórios do Bolinha, do Chacrinha e de Raul Gil, havia mais gente prestando atenção em Guilherme Arantes. Lulu Santos, que em 1976 tocava na banda de rock Vímana, considera “Meu mundo e nada mais” o “big bang do novo pop brasileiro”. Seu parceiro na banda, o inglês Richard David Court, mais conhecido por Ritchie, lembra o choque que sentiu ao ouvir a canção pela primeira vez: “Era uma coisa supermoderna, bem-feita, completamente antenada com o que estava ocorrendo no exterior. O Guilherme sempre teve um talento incrível para fazer pop. Ele pode cantar a lista telefônica que todo mundo vai parar pra ouvir”.

“Meu mundo e nada mais” é uma síntese perfeita do estilo que consagraria Guilherme Arantes: uma letra simples, cantada com paixão e peito aberto, e um refrão bombástico, daqueles de levantar grandes plateias. Nem sinal dos sussurros contidos e melancólicos dos cantores da Bossa Nova. Guilherme achava que a geração da mpb engajada usava muitas metáforas nas letras, por causa da censura, e tentou fazer canções mais diretas, que se comunicassem bem com o público. “Meu estilo era ingênuo, quase naïf. Eu gostava muito dos poemas de Maiakóvski, e queria fazer uma música que tivesse aquela fulguração poética, aquele rompante franco de Maiakóvski. (“Escutai! Se as estrelas se acendem, será por que alguém precisa delas?”) Foi dentro de um ônibus, em São Paulo, que Guilherme escreveu “Amanhã” [“Amanhã/ será um lindo dia/ da mais louca alegria/ que se possa imaginar”], inspirado pelo poeta russo e por uma música de Chico Buarque chamada “Basta um dia”, que ele considerava uma obra-prima [“Pra mim/ basta um dia/ não mais que um dia/ um meio dia/ me dá/ só um dia/ e eu faço desatar/ a minha fantasia”].

“Meu mundo e nada mais” marcou o início da parceria de Guilherme Arantes com Guto Graça Mello. A partir dali, o compositor seria um dos maiores fornecedores de músicas para a tv Globo. Fez outras 23 canções que foram parar em novelas, como “Amanhã” (Dancin’ days, 1978), “Deixa chover” (Baila comigo, 1981) e “Um dia, um adeus” (Mandala, 1987). “O Guto Graça Mello foi o grande mentor da nossa geração. Foi ele que incentivou a carreira de todo mundo: a minha, dos Novos Baianos, do Djavan, do Alceu Valença e da Rita Lee, depois que ela saiu dos Mutantes. Ele é um cara fundamental desse período.”

A popularidade fez com que a crítica associasse Guilherme Arantes à música brega. Mas, quando artistas precisavam de um hit, eles sabiam a quem recorrer. “A Elis me ligou, ela queria um sucesso de qualquer jeito”, lembra o compositor. Guilherme mostrou à cantora duas músicas, “Só Deus é quem sabe” e “Aprendendo a jogar”. A primeira havia sido composta para Roberto Carlos, mas o “Rei” não se interessou: “Fiz uma besteira; no meu encontro com o Roberto eu estava vestindo calça marrom e uma jaqueta roxa; não sabia que ele não gostava de marrom”. Elis gravou as duas canções, e “Aprendendo a jogar”, um funk dançante, estourou nas rádios fm. A colaboração com a cantora rendeu a Guilherme o respeito, embora tardio, de seus colegas da fau. “Teve um amigo, o Rafic Farah, hoje um arquiteto e designer conhecido, que disse: ‘Agora que a Elis gravou músicas suas, serei obrigado a reavaliar a sua obra’.”

Além da “reavaliação” dos amigos, Guilherme ganhou outro presente: começou a namorar Elis. “Ela se apaixonou por mim no dia em que me viu dando papinha para a Maria Rita”, diz, referindo-se à filha de Elis com o pianista Cesar Camargo Mariano. “Ela achou que eu era um novo modelo de homem, mais sensível, não aquele tipo ‘uisqueiro’ que ela conhecia da Bossa Nova. Porque aqueles caras, como Bôscoli [com quem Elis fora casada] e Vinicius, por mais que conhecessem a alma feminina, eram uns puta machistas.” O romance de Guilherme e Elis durou menos de quatro meses.

A cantora queria que ele fosse seu diretor musical e ficou decepcionada quando Guilherme recusou: “Eu não tinha capacidade ou experiência para fazer um trabalho como o do Cesar Camargo Mariano, que era um músico excepcional. Na época, Elis e Cesar estavam se separando, e isso mexeu muito com a cabeça dela”.

Guilherme Arantes foi um grande vendedor de discos na virada dos anos 1970 para os 1980, mas sua consagração pessoal viria em 1987. Naquele ano, nomes importantes da mpb e do rock brasileiro se reuniram no apartamento de Chico Buarque, no Rio de Janeiro, para discutir propostas de mudanças no Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad, responsável pela arrecadação dos direitos autorais de músicas. Além de Chico e Guilherme, estavam presentes Tom Jobim, Paulinho da Viola, Nelson Motta e integrantes dos grupos Paralamas do Sucesso e Kid Abelha. Em um intervalo das discussões, Tom Jobim se voltou para Guilherme e disse: “Tem uma coisa que eu queria te contar há muito tempo: eu acho suas músicas lindas. Você é um compositor excelente. As suas canções têm harmonias bem-feitas. Várias vezes eu tive inveja de você como compositor”.

Guilherme conta que saiu do apartamento flutuando por causa das palavras de Tom Jobim: “Não consegui dormir direito por vários dias. Aquilo foi importante pra mim. Tom era uma pessoa muito humana e querida, que deu força pra muita gente. Ele não tinha inveja de ninguém. Tom foi o mais bonito de todos, o mais exitoso, e receber um elogio daqueles foi um presente. Chorei muito quando ele morreu”.

A razão do sucesso que obteve ainda é um mistério para Guilherme Arantes. “Juro que não sei como aquilo aconteceu”, diz. “O povão compra música por razões misteriosas e inexplicáveis. Outro dia, encontrei o Mano Brown [líder do grupo de rap Racionais mc’s] e ele falou que era meu fã, que a mãe, as tias, as primas, todo mundo lá no Capão Redondo adorava as minhas músicas. E ainda me disse uma coisa bem legal: que não adianta o artista querer ser popular, ele tem de fazer música com sinceridade. O povão é que vai decidir se compra ou não.”

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.