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“La Casa de Papel”: mesmice com grife

André Barcinski

31/01/2018 05h59

Foram tantos os elogios à série espanhola “La Casa de Papel” que resolvi assisti-la.

Se estivesse vendo apenas por diversão, teria desistido depois de uns oito minutos. Mas o dever profissional falou mais alto, e aguentei até o fim do primeiro episódio. Não foi fácil.

“La Casa de Papel” conta a história de nove bandidos que executam o “maior roubo da história”, surrupiando 2,4 bilhões de euros da Casa da Moeda da Espanha.

ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS

A série é um produto de qualidade: tem um nível de produção alto, cenários suntuosos, figurino caprichado, enfim, percebe-se que não foi uma filmagem barata. Esteticamente, traz um visual polido e superproduzido, típico do cinema publicitário.

Eu até aturaria a cara de anúncio de SUV, se a história não fosse inteiramente composta das fórmulas mais batidas do cinema policial e a narrativa não apelasse ao primarismo absoluto.

Para começar, o episódio é inteiramente narrado em “off” pela protagonista, uma bandida/assassina gatíssima e sexy chamada Tokyo (curioso que essas personagens sempre têm nomes bacanudos, tipo Nikita ou Lara Croft, nunca se chamam Shirley ou Maria Aparecida). Tokyo explica tudo que está acontecendo, tintim por tintim, para o espectador não se perder.

Apesar do currículo criminal impressionate, que faz de Tokyo uma das bandidas mais procuradas pela polícia espanhola (numa manjadíssima cena em flashback, vemos o namorado dela sendo morto pela polícia num assalto malsucedido), a moça tem a inteligência de uma lombriga: mesmo caçada por todo o país, decide visitar a mãe, que obviamente está sendo vigiada pela polícia.

Antes de ser presa, Tokyo é resgatada por um gênio do crime, um nerd chamado “Professor”, que a leva para uma casa onde ela será treinada para o assalto junto a outros sete criminosos, cada um especializado em uma área da bandidagem (tem o perito em abrir cofres, o especialista em armas, a falsificadora de documentos e os leões de chácara, além, claro, do hacker, um verdadeiro MacGyver moderno, capaz de parar os computadores da NASA com um grampo de cabelo).

Não há UMA sequência que não tenha sido copiada de outros filmes. E tome diálogos engraçadinhos em meio a cenas de ação, um casal de bandidos que se apaixona, e personagens que levam tiros em ordem decrescente de sua importância para a trama.

Uma cena especialmente preguiçosa é a da pilha de notas voando pelos ares (por incrível coincidência, na mesma hora em que eu via esse abacaxi, o Canal Futura exibia “O Grande Golpe”, dirigido há 62 anos por Stanley Kubrick e roteirizado pelo rei do “pulp”, Jim Thompson, que termina com uma das mais memoráveis revoadas de dinheiro que o cinema já viu).

Mas a pior cena é mesmo a da caminhada da gangue de meliantes em câmara lenta, fórmula que já era mofada em 1992, quando Tarantino a ressuscitou dos antigos faroestes de Sam Peckinpah.

“La Casa de Papel” é uma espécie de compêndio do cinema policial-aventuresco para pessoas de 14 anos. É um produto muito bem acabado, eficiente, descomplicado, desprovido de surpresas e embalado num verniz modernoso. Sua maior qualidade é vender o velho como se fosse a maior novidade da praça. Passo.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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