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Um perdido numa noite suja: o estranho mundo de Humberto Finatti

André Barcinski

04/12/2017 05h59


Todo mundo tem uma história com Humberto Finatti. Outro dia, eu estava numa livraria com uma amiga, quando encontrei o figura. Minha amiga disse: “Olha, sou uma pessoa pacífica e nunca briguei com ninguém, mas esse cara me tirou do sério. Foi a única vez que saí no tapa com alguém na minha vida!”

Finatti é um personagem icônico da night paulistana, como Marcelona ou Fofão da Augusta. Jornalista, DJ e mala profissional, é do tipo que chega chegando, costumeiramente bicudo, com os olhos saltando das órbitas, mais empenado que um berimbau e despejando perdigotos num volume digno das cataratas do Iguaçu.

Há quase 15 anos, Finatti mantém um blog, “Zap’n’Roll”, onde conta seus casos movidos a pó, birita e sexo. Costuma referir-se a si mesmo como “Finaski”, emulando Henry Chinaski, o alter ego de Charles Bukowski (além da devassidão, outra qualidade de Finatti é sua modéstia).

Algumas dessas histórias foram reunidas em “Escadaria para o Inferno (Editora Kazuá), primeiro livro de Finatti. Na capa, verdadeiramente pavorosa, o bravo homem de imprensa tem a cabeça superimposta ao corpo de um demônio. Para adicionar outro toque trash, a diagramação faz o nome do livro parecer “Inferno – Escadaria para o”.

O prefácio é assinado por meu amigo Luis Antonio Giron e tem um trecho antológico:

“Ao contrário de Fausto, o jornalista, crítico, DJ e melômano paulistano Humberto Finatti nunca tentou fazer um pacto com Mefistófeles. Jamais vendeu sua alma e, mesmo se tentasse fazê-lo, certamente o diabo não a teria comprado.”

Alguns dos casos descritos por Finatti são bem engraçados, como uma briga com John Lydon numa coletiva de imprensa em que o jornalista, exasperado com a falta de educação do cantor, mostra que Joãozinho Podre ainda tem muito a aprender quando o assunto é grosseria: “Seu mal educado do caralho! Vai pra puta que o pariu!”. Outros casos são tragicômicos, como a descrição do vexame que o autor, travado de farinha, deu num voo para Belém, e sua subseqüente demissão da revista “Rolling Stone”, depois de enviar uma crítica de um festival em que avaliava bandas que não haviam tocado no evento.

As histórias são curiosas, mas as pérolas de verdade estão escondidas nas entrelinhas, em pequenos detalhes que dão a real dimensão da dureza da vida de um aspirante a gonzo. Quem, senão um true falido, seria capaz de escrever frases da mais absoluta indigência, como essa:

“Então trocamos os contatos possíveis (leia-se: telefone da vizinha dela, já que ela não tinha telefone em casa e eu também não; passei o telefone da redação da IstoÉ, onde eu havia voltado a colaborar após ter saído da Folha da Tarde.”

Ou essa:

“Com um calor dos infernos castigando a capital amazonense, fui tomar um chopp em um Habib’s.”

Ou minha preferida:

“Era um hotel de trepação mesmo, modesto, mas bem arrumado, limpo e confortável. E o principal: com preço decente pelo pernoite!”

Em outro trecho hilariante, Finatti conta como Pablo Capilé, que depois ficaria conhecido como líder do Fora do Eixo, o convidou para cobrir um festival em Cuiabá:

“Eu disse que iria, mas com a ressalva de sempre: ‘A Dynamite não tem grana pra bancar essa viagem’, informei. Ele: ‘Sem problema! Daremos passagens, hospedagem e alimentação para você. Só um detalhe: você se importaria de vir de… ônibus?’ Puta que pariu! Ir de busão de São Paulo a Cuiabá? Eram nada menos que 25 horas de viagem, com o ônibus passando por todo o interior paulista, entrando em Minas Gerais, passando por Goiás, para finalmente adentrar Mato Grosso. Mas como sempre fui aventureiro e adorei enfrentar desafios, aceitei.”

No início do texto, eu disse que todo mundo tem uma história com Finatti. Eu tenho algumas, e minha favorita é essa:

Em 2001, Ian McCulloch veio ao Brasil para promover um disco do Echo and the Bunnymen, e foi ao programa “Garagem”, que eu apresentava na rádio Brasil 2000, em São Paulo. No dia seguinte, Ian atacou de DJ numa festa em um pequeno clube da capital paulistana. Eu o ajudei a discotecar. O lugar ficou lotado, e nos colocaram numa varanda, isolados do público.

Havia cerca de 20 pessoas ali, entre gente da gravadora, jornalistas e amigos nossos. Um segurança foi postado na entrada da varanda, impedindo a entrada de bicões. Certa hora, o segurança virou-se para nós: “Tem um cara pedindo pra entrar… Ele disse que o nome dele é Fi… Fi… Caramba, como é mesmo?” E eu disse: “Finatti?” As 20 pessoas que estavam na varanda gritaram, em uníssono: “NÃOOOOOOOOOOO!!!”.

R.I.P. CHERRY

Muito triste com a notícia da morte de Cherry Taketani, de bandas como Okotô e Nervochaos. Cherry morreu dia 3, vítima de câncer. Era uma figura importante e influente da cena musical alternativa desde os anos 80, com o Okotô. Veja Cherry liderando a banda no programa “Musikaos”, apresentado por meu amigo Gastão Moreira:

Minhas condolências aos familiares, amigos e fãs de Cherry.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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