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Este é o homem que “inventou” Donald Trump

André Barcinski

17/05/2017 05h59


A Netflix exibe “Get me Roger Stone”, documentário sobre o consultor político Roger Stone, um dos personagens mais polêmicos da política norte-americana dos últimos 40 anos.

Stone é um pilantra e se orgulha disso. A área em que atua, a consultoria política, sempre foi um terreno pantanoso, em que só os mais fortes – e mais espertos – sobrevivem.

Nenhum presidente americano, de Nixon a Ford, de Carter a Obama, dos Bush a Clinton, foi eleito porque era bonzinho e cumpridor das regras. Por trás de todo político poderoso há sempre alguém que faça o trabalho sujo.

O que diferencia Roger Stone da concorrência é que ele não só faz o trabalho sujo, mas encontra justificativas morais para isso. Como diz uma jornalista entrevistada no filme: “Stone é o tipo do cara que acha que moralidade é sinônimo de fraqueza”.

O arsenal de Roger Stone é vasto: ele dissemina informações falsas sobre oponentes, compra jornalistas, inventa relatórios, falsifica documentos, e faz tudo com um sorriso no rosto e uma desculpa na ponta da língua.

Sua carreira política começou há mais de 40 anos, quando fez pequenas sabotagens para o partido Republicano e acabou envolvido no escândalo de Watergate, que resultou na renúncia de Richard Nixon . Depois trabalhou para o próprio Nixon, Reagan e George Bush.

Nos anos 80, fez amizade com um bilionário do setor imobiliário e percebeu nele um grande potencial de votos. Seu nome era Donald Trump. Já em 1987, Roger Stone tentava convencer Trump a candidatar-se a presidente. “Eu sabia que Donald tinha enorme apelo a uma parcela grande da população, um público pouco escolarizado e com raiva do governo”, diz Stone no filme.

Stone é um demagogo que finge defender os pobres americanos esfolados pelo “excesso de governo”, mas na verdade presta serviço a quem pagar melhor, sejam grandes corporações industriais ou ditadores genocidas como Ferdinando Marcos (Filipinas) e Mobutu Sese Seko (Zaire). “O ditador para alguns é o salvador para outros”, justifica.

A verdade é que, de tanto Roger Stone insistir, Donald Trump acabou se convencendo de que tinha chance de ganhar a presidência. E Stone virou muito mais que um consultor político para Trump. Ele foi, de fato, seu “inventor” político.

Jornalistas contam no filme que várias expressões usadas por Trump em discursos e redes sociais foram copiadas do blog de Stone. Foi Stone que inventou o boato de que Barack Obama era muçulmano e não havia nascido nos Estados Unidos. E muitos dão como certo que foi ele que arquitetou com a Rússia e o site Wikileaks o vazamento de documentos de campanha de Hillary Clinton. Stone chegou a confirmar suas conversas com Julian Assange, do Wikileaks. Depois, como de hábito, negou tudo.

A melhor e mais maquiavélica história envolvendo Roger Stone aconteceu na campanha presidencial de 2000. Nas duas eleições anteriores, em 1992 e 1996, o Democrata Bill Clinton havia vencido os Republicanos George Bush e Bob Dole. Stone sabia que a presença do candidato do Partido Reformista, Ross Perot, que havia recebido cerca de 20% dos votos nos dois pleitos, havia tirado muitos votos dos Republicanos, e sabia que não poderia permitir que isso acontecesse novamente.

Usando sua influência política, Stone conseguiu ser contratado como consultor da campanha de Pat Buchanan, candidato do Partido Reformista, e sabotou a própria campanha, levando Buchanan a tomar decisões erradas que minaram sua candidatura. A cereja do bolo: Stone convenceu um amigo bilionário e poderoso a concorrer contra Buchanan e fazer declarações estapafúrdias, inclusive alegando que Buchanan era adúltero e promíscuo. O amigo se chamava Donald Trump. Buchanan teve 0,5% dos votos, e o Republicano George W. Bush venceu o Democrata Al Gore na mais apertada corrida presidencial da história norte-americana, vencida numa recontagem até hoje polêmica.

“Get me Roger Stone” é um excelente perfil de um profissional da mentira e desfaçatez, um trambiqueiro genial e que vive num tempo ideal para ele: a era da “pós-verdade” e dos “fatos alternativos”.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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