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Chuck Berry, o gênio que inventou a adolescência

André Barcinski

18/03/2017 22h17


Little Richard foi o mais extravagante, Jerry Lee Lewis o mais selvagem, e Elvis o mais sensual. Mas, dos pioneiros que inventaram o rock’n’roll no início dos anos 1950, o maior compositor foi Chuck Berry. Com seus elegantes riffs de guitarra e letras geniais, Berry – que morreu dia 18, aos 90 anos – criou o imaginário do rock, um paraíso adolescente de carros velozes, meninas lascivas e uma atmosfera festiva de diversão inconsequente.

Chuck Berry influenciou todo mundo: os Beach Boys copiaram “Sweet Little Sixteen” (1957) para fazer o sucesso “Surfin’ USA” (1963), os Beatles gravaram inúmeras versões de suas músicas (“Roll Over Beethoven”, “Rock and Roll Music” e “Too Much Monkey Business”), e Keith Richards há meio século imita o estilo “cool” e minimalista da guitarra de Berry, com seu “suingue sem esforço”, como disse o guitarrista dos Stones.

Mais do que um grande compositor, Chuck Berry foi um gênio do marketing, um dos primeiros criadores a perceber o potencial de consumo dos adolescentes norte-americanos do pós-Segunda Guerra. Até então, não havia música feita especificamente para os “teenagers”. Mas Berry, um veterano do circuito de blues e rhythm’n’blues de Saint Louis e Chicago, mudaria isso, criando uma sonoridade nova e que viria a se tornar a música de uma geração.

Poucos artistas da música pop tiveram tanta importância na destruição de barreiras raciais e sociais quanto Chuck Berry. Era um negro tocando uma música nova e polêmica para plateias brancas e negras. Nos anos 1950, com a América racialmente dividida, isso foi uma revolução.

OK, os punks dos anos 70 foram importantes, com suas canções agressivas e ofensas à monarquia inglesa e a governos em geral, mas os verdadeiros punks, aqueles que arriscaram até a vida por sua música, foram os pioneiros do rock dos anos 1950, em especial os negros, como Chuck Berry, Little Richard, Bo Diddley, Fats Domino e Sister Rosetta Tharpe (esta nos anos 1940!), que excursionaram pelos cafundós dos Estados Unidos numa época em que negros ainda eram linchados e pendurados em árvores.

Chuck Berry entendia seu país e sua cultura, e criou uma música que uniu todos os jovens – brancos e negros – em uma celebração coletiva. Suas canções falavam de um mundo “teen” idealizado e fantástico, onde cantores de rock viram astros (“Johnny B. Goode”), gatas lindas dirigem carrões envenenados (“Maybellene”) e a escola é um tédio sem fim (“School Days”).

Mas o grande tema musical de Chuck Berry foi o próprio rock’n’roll. Ele percebeu, antes de todos, que o adolescente precisava de uma música para chamar de sua, algo com que se identificasse e que o diferenciasse de seus pais, e compôs verdadeiros hinos em que celebrava o rock e o contrapunha a outros gêneros musicais: em “Rock and Roll Music”, Berry canta que “não tem nada contra jazz moderno”, mas gosta mesmo é de rock. Em “Roll Over Beethoven”, brinca que Ludwig Van Beethoven rolaria em seu túmulo ao ver que o rock estava dominando o mundo. E em “School Days”, sintetizou lindamente o conflito de gerações que ele tão bem musicou: “Salve, salve, rock’n’roll / Livrai-me dos dias de outrora”.

Gênio é pouco.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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