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Quanto custa a opinião de um Youtuber?

André Barcinski

22/02/2017 05h59

Um escândalo agitou as redes sociais semana passada, quando foi revelado que um popular canal no Youtube, o “Você Sabia?”, recebera R$ 65 mil do governo federal para fazer um vídeo em defesa das mudanças no ensino médio.

Apresentado pelos Youtubers Lukas Marques e Daniel Molo, o vídeo, chamado “Tudo que você precisa saber sobre o novo ensino médio” estreou em 31 de outubro de 2016 e já tem mais de 2 milhões de visualizações. Veja:

Não vou entrar na discussão sobre as reformas do ensino médio ou questionar se os Youtubers acreditam no que estão falando. O que impressiona mesmo é perceber que boa parte dos assinantes (o canal tem 7 milhões) não consegue diferenciar entre opinião e propaganda.

Sugiro ler os comentários sobre o vídeo. Grande parte mostra surpresa com o fato de os Youtubers terem sido pagos para gravar o vídeo. Aqui vão alguns:

Gostava desse canal… agora vi quem eles são…

Até no youtube tem propina…

O Youtube era um dos únicos refúgios para adolescentes isso era o diferencial e tals… Adultos querem nos influenciar politicamente até aqui e ainda mais através de vocês… Decepcionante…

Em agosto de 2016, a revista “Vanity Fair” publicou um artigo chamado “Estrelas do Youtube estão sendo usadas para fazer propaganda da Coreia do Norte”, em que dizia que o britânico Louis Cole, cujo canal de reportagens de turismo no Youtube tem 1,8 milhão de assinantes, havia feito uma série de filmetes elogiosos à Coreia do Norte, um dos países mais opressores do mundo. A reportagem levantava a hipótese de Cole ter sido pago pelo governo norte-coreano. Cole negou: “Procurei as coisas bonitas e positivas do país; quero me conectar com os locais e aprender sobre sua cultura e seu país”.

Verdade ou não, o fato é que muitos fãs de Cole acreditam no que ele diz e não imaginam que ele possa vender suas opiniões. Mas isso acontece com frequência cada vez maior, e não só no Youtube, mas em toda a mídia.

Em 2015, escrevi sobre o tema:

Falando especificamente da minha área, o jornalismo cultural: há uma profusão de blogs, sites, colunas e revistas que são meros reprodutores de informações passadas por gravadoras, estúdios de cinema e canais de TV. Na teoria, são empreendimentos jornalísticos; na prática, são assessores de imprensa ou relações-públicas.

Muitos dos “jornalistas” que trabalham nesses veículos ganham dinheiro escrevendo releases e textos para empresas e não cansam de elogiar todos os filmes, discos e séries lançados. Canso de receber releases de filmes e discos e depois ver o texto integralmente reproduzido em “críticas” por aí. Claro que esses jornalistas “amigos” recebem tratamento preferencial, como viagens pagas a sets de filmagem, entrevistas exclusivas com músicos, cachês para participar de “coberturas”, etc.

Não tenho absolutamente nada contra relações-públicas. Tenho grandes amigos, muitos saídos de redações de jornais, que trabalham em assessorias de empresas e governos. É uma opção profissional excelente e admirável.

O problema ocorre quando as duas profissões se misturam, criando uma confusão entre os papéis do jornalista e do relações-públicas. Essas confusões estão se tornando cada vez mais comuns. A impressão é de que existe toda uma geração de jornalistas que não entende mais a diferença.

Hoje trabalho para jornais e sites jornalísticos e não aceito escrever releases ou textos pagos por empresas. Se um dia vier a escrever conteúdo pago, certamente abrirei mão de fazer críticas em jornais e sites, para não criar nenhum tipo de conflito ético.

A verdade é que o mercado de relações-públicas só cresce, enquanto o mercado jornalístico definha. Em 2015, o professor de jornalismo do Brooklyn College, em Nova York, Eric Alterman, fez uma coluna no site Takepart com números alarmantes: nos Estados Unidos há 4,6 profissionais de relações-públicas para cada jornalista (a proporção era 3,2 para 1 em 2004 e de 1,2 para 1 em 1980).

Alterman informa que o salário médio de um repórter nos Estados Unidos equivale a 65% do salário médio de um assessor de imprensa, e que 60 a 65% dos estudantes de jornalismo em universidades norte-americanas escolhem trabalhar em relações-públicas.

No Reino Unido a situação não é diferente: segundo dados do “Press Gazette”, publicação especializada em jornalismo, o número de jornalistas caiu de 70 mil em 2013 para 64 mil dois anos depois. Enquanto isso, o número de pessoas que se descrevem como “profissionais de relações-públicas” subiu de 37 mil em 2013 para 55 mil no mesmo período.

Os números mais recentes que encontrei sobre a situação do jornalismo no Brasil são de 2012 e foram publicados em um estudo da Universidade Federal de Santa Catarina chamado “Perfil do Jornalista Brasileiro”. Diz o estudo: “Dos jornalistas, 55% atuam em mídia (veículos de comunicação, produtores de conteúdo, etc.), 40% atuam fora da mídia, em atividades de assessoria de imprensa ou comunicação ou outras ações que utilizam conhecimento jornalístico, e 5% trabalham predominantemente como professores”. Aposto que esses números já estão velhos, e que a proporção de assessores de imprensa aumentou. Sinal dos tempos.

Um ótimo Carnaval a todos. O blog volta na quarta-feira, dia 1º de março.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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