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20 anos sem Paulo Francis: a falta que ele faz

André Barcinski

01/02/2017 05h59


Sábado, 4 de fevereiro, é o 20º aniversário da morte de Paulo Francis. Tenho me divertido lendo “Paulo Francis – A Segunda Profissão Mais Antiga do Mundo” (Editora Três Estrelas), coletânea de artigos que Francis escreveu para a “Folha” entre 1975 e 1990.

Fosse falando de política, literatura, ópera ou cinema, Francis não era comedido; ou gostava muito de algo ou o desprezava. Era um dos poucos articulistas que se lia com prazer mesmo discordando dele. E para a minha geração, que cresceu num Brasil completamento isolado do mundo, vê-lo dando pitacos sobre politica internacional da Rede Globo, nos anos 80, era quase um milagre.

O livro foi organizado por Nelson de Sá, e é legal demais. Em cada página há pelo menos uma frase memorável e uma opinião interessante. Farei um teste: abrirei em cinco páginas quaisquer:
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Pág. 80 – 14 de maio de 1978
É bom saber que São Paulo terá uma revista literária (ou já tem), “Leia Livros”, editada por dois intelectuais de verdade, Cláuio Abramo e Caio Graco, se bem que isso cria um problema: pelos meus cálculos, há doze intelectuais de verdade no Brasil. Se dois editam, os outros vão ter um bocado de trabalho. Darão conta do recado?

Pág. 179 – 10 de junho de 1982
A visão que o povo americano tem do Oriente Médio é que “nossa amiga” Israel é vítima frequente de atentados de “negros” monstruosos, chamados de OLP, que matam mulheres e crianças israelenses, que só querem viver em paz, depois de terem experimentado algo muito triste chamado “Holocausto”, que foi até serializado em TV. O americano não sabe que paga quase 2 mil dólares ao ano por israelense e que um terço do auxílio que os EUA concedem ao mundo vai para israel (população: 2,5 milhões de judeus).

Pág. 275 – 8 de maio de 1986
A maioria das pessoas não gosta de jornalistas. Não deve ser surpresa que jornalistas não gostam da maioria das pessoas. É difícil imaginar outra profissão em que seja tão fácil desenvolver um profundo desdém pelo gênero humano. Aquilo em que as pessoas acreditam, e que jornalistas sabem ser papo furado, liquida rapidamente com ilusões que o jovem recém-saído de uma universidade (hoje em dia) possa ter sobre sabedoria popular. Um exemplo é a agonia de Tancredo: não conheço um jornalista que não soubesse que depois da terceira operação haveria “baixa de cortina” para o presidente. E o troço foi se arrastando 39 dias com a maior solenidade pública na imprensa. Em particular, piadas depredatórias eram feitas pelos profissionais. Não foi – ou será – publicado.

Pág. 279– 2 de julho, de 1986
Subestimar Hemnigway se converteu em rotina na minha geração. É fácil recusar o sentimentalismo formal de novelas (não um tomance, propriamente dito), de “O Velho e o Mar” (1952), que lhe valeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1954. Nos anos 1920, como todo intelectual sabe, ele escreveu “O Não Derrotado” (“The Undefeated”), um conto sobre o mesmo tema que “O Velho e o Mar” mar e sem enxúndias pseusobíblicas do último. O Hemingway de “The Unfedeated” é o escritor que o crítico Edmund Wilson, também na década de 1920, disse escolher palavras com o frescor de pedras colhidas no fundo de um riacho.

Pág. 390 – 16 de setembro de 1990
O Vermelhinho era como uma grande mesa em que você encontrava as pessoas mais interessantes da cidade. O grande charme do Rio, nessas décadas, é que era uma cidade de pontos de encontro, comunitária (…) Drummond dizia alô e saía como o inspetor Maigret atrás de algum traseiro feminino que passasse, que seguia horas. Sempre me perguntei se essas caçadas eram consumadas, ou se o poeta se limitava a ruminar poemas eróticos, que depois publicava, como “Onda amor / Onde amor…”. Santa Rosa era um priápico emérito. Fui ao estúdio dele, uma vez, e estávamos conversando, quando pediu desculpas e sumiu. Vinte minutos depois, volta e recomeçou a pintar. Passou-se algum tempo e repetiu a manobra. Quando saí dei um jeito de olhar o quarto em que Santa (todo mundo o chamava de Santa) ia, e lá estava uma mulata belíssima, nua em pelo, sem a menor sombra de pudor ou vergonha, deitada, esperando seu paxá. Sorriu para mim.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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