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Sidney Magal: nosso "cigano" faz 50 anos de carreira

André Barcinski

15/05/2017 05h59


Leio no UOL que Sidney Magal está fazendo 50 anos de carreira e vai ganhar uma biografia (leia aqui). Muito merecido. Magal foi um dos maiores ídolos de nossa música pop e ajudou a consolidar a indústria do disco no país na virada dos anos 1970 para os 80, uma época importante, em que as FMs dominaram o mercado e a média de idade do público consumidor de discos diminuiu bastante. Ele foi um dos grandes nomes de nossa música jovem.

Na entrevista publicada no UOL, Magal diz: “Não tenho história interessante”. Não sei se foi a modéstia, mas a verdade é que a história de Sidney Magal é muito rica e interessante: ele foi um dos primeiros artistas brasileiros “fabricados” por um produtor, no caso o argentino Roberto Livi. Com sua bonita voz, carisma e pinta de galã cigano, Magal foi um fenômeno de vendas e popularidade.

Selecionei um trecho de meu livro “Pavões Misteriosos” (Editora Três Estrelas) que conta um pouco da história do cantor.

Um Ford Landau preto chegou à porta do Clube Carioca, na rua Jardim Botânico, Zona Sul do Rio de Janeiro. Do banco de trás, Sidney Magal olhou para a multidão que ocupava a calçada. Centenas de mulheres tentavam entrar no clube e eram impedidas por um “muro” de seguranças. Dentro do Carioca, mais de 3 mil fãs aguardavam pelo cantor.

Magal já havia se apresentado lá e não tinha boas lembranças: o clube não dispunha de entrada pelos fundos. Chegar ao palco era complicado. Em situações assim, seu empresário, Roberto Livi, exigia que fosse aberto um buraco no lugar, em uma parede lateral. No caso do Carioca, porém, o prédio vizinho era uma igreja, que não permitiu a quebradeira. Magal teria de entrar na marra pela porta da frente. Tudo isso não era novidade para ele: meses antes, na inauguração de um shopping em Salvador, o astro foi acuado por 7 mil fãs enlouquecidas. A solução encontrada pelos seguranças foi levá-lo a uma sala e, com uma marreta, abrir um buraco na parede, por onde Magal escapou até o estacionamento.

O trajeto do carro até o palco não foi dos mais difíceis: oito seguranças cercaram Magal e abriram caminho em meio à multidão. O problema seria a volta. Depois de um show breve, em que cantou seus maiores sucessos – “Tenho”, “Se te agarro com outro te mato”, “Meu sangue ferve por você” e “Sandra Rosa Madalena, a cigana” –, Magal e os seguranças começaram a longa via crucis de retorno ao carro. Oito brutamontes escoltaram o cantor. As fãs atacavam os seguranças e tentavam agarrar Magal. Quando ele finalmente chegou perto do veículo, estava arranhado, amassado, despenteado, coberto de lágrimas, saliva, suor e batom. Sua roupa estava rasgada. Tufos de seu cabelo eram exibidos como troféus pelas fãs. Um segurança abriu a porta do Landau, e o cantor pulou no banco de trás. Estava a salvo, ou quase: por descuido do motorista, parte do vidro do carro ficara aberto. Uma fã conseguiu enfiar o corpo dentro do Landau e agarrou Sidney Magal pelos cabelos. Do lado de fora do carro, seguranças começaram a puxar a mulher pelos pés. Desesperada, a fã mordeu o rosto de Magal. “Eu não conseguia nem gritar, porque ela estava com os dentes cravados na minha bochecha. Era uma dor terrível. Meu assessor não teve alternativa: deu um soco na cabeça da mulher. Foi o único jeito de ela abrir a boca.”

Três anos antes, o carioca Sidney Magalhães era apenas mais um cantor de bares e restaurantes do Rio de Janeiro. Foi em uma churrascaria na Barra da Tijuca que o produtor musical Roberto Livi o viu pela primeira vez. Livi achava que os cantores brasileiros, com raras exceções, não tinham boa presença de palco. Costumava dizer que eles “chegavam até o microfone, jogavam a âncora, cantavam e iam embora”. Mas Magal acabou com isso. “Ele era o nosso John Travolta”, diz Livi.

Quando iniciou a carreira na música, o sonho de Magal era cantar Bossa Nova, seguindo os passos de um parente famoso, Vinicius de Moraes, primo de sua mãe. Mas o próprio Vinicius o aconselhou a mudar de rumo: “Com esse tamanho todo, bonito assim, você tem certeza de que quer cantar Bossa Nova?”. Quando fez quinze anos, ele começou a se apresentar na noite. Cantava de tudo: música italiana, francesa, rock e samba. Um de seus primeiros pseudônimos foi Syd Sony. Com o nome de Sidney Rossi, gravou na cbs um compacto produzido por Rossini Pinto com a música “Tema de amor”, mas não teve sucesso. Em 1971, partiu para a Europa com um grupo musical folclórico que fazia shows de ritmos brasileiros. Cantava Ary Barroso e sambas antigos. No Velho Continente, começou a desenvolver um estilo de interpretação mais teatral e dramático. Magal cantou na Itália, Alemanha, Áustria e Suíça. Retornou ao Brasil no final de 1972, quando passou a se apresentar em boates ao lado de Alcione, Emílio Santiago e Luis Carlos Vinhas. Também fez shows com Edy Star na praça Mauá, trabalhou com Costinha no Beco das Garrafas e cantou em churrascarias e boates de striptease. “A noite foi uma escola fantástica, me deu maturidade, experiência de palco e tarimba para lidar com o público.”

Em meados dos anos 1970, Roberto Livi foi contratado como produtor pela Philips/Polygram. Livi, um cantor argentino que gravara sucessos no Brasil na época da Jovem Guarda, como “Teresa” e “Parabéns, querida”, tinha planos de criar um clone brasileiro de um grande astro pop de seu país, o cigano Sandro. “As músicas de Sandro eram apaixonadas, sensuais, uma coisa muito forte e dramática. Eu peguei o Magal, que já tinha esse jeito expressivo no palco, e o transformei em cigano.” O cantor, que na época tinha 23 anos, passou a se apresentar com a camisa aberta no peito, mangas bufantes, colares e uma vasta cabeleira cacheada. Também caprichava nas caras e bocas. Livi decidia tudo: repertório, figurinos e até o que Magal deveria dizer em entrevistas. O cantor conta que confiava tanto em Livi que mal ia à gravadora: “Eu deixava tudo na mão dele”.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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