Blog do Barcinski

Categorias

Histórico

Eike Batista: da glória ao xadrez

André Barcinski

201037-970x600-1
Se você quiser conhecer em detalhes a trajetória do empresário Eike Batista, que hoje teve a prisão decretada pela Lava Jato, sugiro a leitura de “Tudo ou Nada – Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X”, lançado em 2014 pela jornalista Malu Gaspar.

À época do lançamento, escrevi sobre o livro:

Quem pega o táxi no Santos Dumont em direção à zona sul do Rio é presenteado com uma das paisagens urbanas mais bonitas do mundo: à direita, o Outeiro da Glória; à esquerda, a Marina da Glória; ao fundo, o Pão de Açúcar emoldurando os barquinhos que repousam na enseada de Botafogo. Um cenário deslumbrante.

Mas há uma imagem que destoa dessa maravilha toda: o Hotel Glória. Construído em 1922, o Glória foi comprado em 2008 pelo então bilionário Eike Batista, que recebeu uma bolada do BNDES – 50 milhões, de um total de 190 milhões aprovados – para deixá-lo pronto para a Copa do Mundo. Hoje, do velho hotel, só resta a fachada. Por dentro, o lugar está em ruínas. É uma analogia perfeita do próprio Eike: por fora, beleza e fleuma; por dentro, decrepitude.

Acabo de ler “Tudo ou Nada – Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X”, de Malu Gaspar, um relato detalhado da ascensão e queda de “Magic Eike”, como ele próprio gostava de se chamar.
São 545 páginas de falcatruas, números inventados, uso de informações privilegiadas, manipulações, relações escusas com o poder, falta de ética e muita, mas muita ostentação. A autora calcula o rombo deixado por Eike em 65 bilhões de dólares – “um colapso equivalente ao provocado no mercado financeiro americano pela quebra do Lehman Brothers ou pelo esquema fraudulento do banqueiro Bernard Madoff”.

eike-batista-malu-gaspar-livro-ligia-braslauskas-600Eike Batista é um dos maiores símbolos do Brasil-ostentação. O empresário surfou na ótima imagem do país na época da capa da “Economist”, da escolha do Brasil como sede de Copa e Olimpíadas e em Obama chamando Lula de “o cara”, e encarnou a imagem do brasileiro arrojado e vitorioso.

Mas era tudo fumaça. As empresas de Eike valiam muito menos do que ele apregoava. A comoção era tanta, e o otimismo cegou tanta gente, que poucos se deram ao trabalho de checar se as informações bombásticas sobre jazidas inesgotáveis de petróleo e montanhas de ouro eram verdadeiras ou pura invenção de um marqueteiro esperto e carismático.

Os políticos deram uma forcinha, claro: Sergio Cabral fartou-se de viajar nos jatinhos particulares de Eike e retribuiu conseguindo permissões e alvarás para obras; Lula tentou ajudá-lo como pôde, mesmo depois que o Império de Magic Eike começou a ruir.

O empresário contou também com a conivência, incompetência e falta de atitude das comissões que deveriam zelar pela lisura do mercado de ações. Todo mundo passou a mão na cabeça de Eikezinho e o deixou brincar à vontade – com o dinheiro dos outros.

Tão deprimente quanto a descrição dos desmandos que botaram Eike abaixo é o perfil que Malu Gaspar faz do sujeito: vaidoso, egocêntrico, cafona – tinha Ferraris e Lamborghinis decorando a sala – e vítima de um intenso complexo de inferioridade do pai, o empresário Eliezer Batista. Eike é o estereótipo do novo-rico, elevado à enésima potência.

Em nenhuma das 545 páginas do livro se vê Eike fazendo uma coisa sequer que não tenha sido motivada pela obsessão em tornar-se o homem mais rico do mundo. Enquanto nos acostumamos a ver magnatas estrangeiros doando dinheiro para as ciências, as artes e a cultura, o brasileiro só dispensava sua grana em doações para puxar o saco de Madonna ou ganhar favores com políticos.

Demorou, mas finalmente Eike vai encarar a Lava Jato. Espero que Malu Gaspar reedite seu livro, incluindo um novo capítulo sobre esses novos acontecimentos.

P.S.: os dias regulares de publicação de textos no blog são segunda, quarta e sexta, mas resolvi adiantar o texto de amanhã em função da gravidade das notícias sobre Eike Batista. O blog volta segunda. Um ótimo fim de semana a todos.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.title}}

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Blog do Barcinski
Topo