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Jazz, blues e magia negra: o estranho mundo de Graham Bond

André Barcinski

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Há 79 anos, um recém-nascido foi abandonado num orfanato perto de Essex, na Inglaterra. Batizado de Graham, o menino acabou adotado por um casal da região, Edwin e Edith Bond.

Graham era um prodígio musical. Aos seis anos, tocava piano clássico. Aos 14, havia descoberto o jazz de Charlie Parker e John Coltrane e adotado o saxofone como instrumento preferido. Aos 20, era um dos músicos mais requisitados na cena de jazz de Londres.

Em 1962, depois de alguns anos penando em clubes de jazz, Graham Bond foi convidado para tocar no grupo Blues Incorporated de Alexis Korner. Graham percebeu que o novo hype da ceninha musical londrina era o rhythm’n’blues de grupos como o Bluesbreakers (de John Mayall), Yardbirds e Rolling Stones, e decidiu montar um supergrupo chamado The Graham Bond Organization, com grandes músicos que já conhecia da cena de jazz. A “cozinha” era formada por dois monstros, o baterista Ginger Baker e o baixista Jack Bruce; o guitarrista era o grande John McLaughlin, que depois tocaria com Miles Davis e na Mahavishnu Orchestra. Bond cantava e tocava um órgão Hammond.

Pouco depois, McLaughlin foi substituído pelo saxofonista Dick Heckstall-Smith. Foi essa formação – Bond, Baker, Bruce e Heckstall-Smith – que fez fama como um dos melhores e mais furiosos grupos do R&B inglês e atraiu a atenção do empresário Robert Stigwood (o esperto que, anos depois, mudaria o som dos Bee Gees e os transformaria em astros da discoteca).

Veja a Graham Bond Organization ao vivo em 1965, tocando “Hoochie Coochie Man”, de Willie Dixon:

Numa época em que grupos como Beatles, Stones e Kinks causavam frenesi entre adolescentes, a GBO não poderia mesmo fazer sucesso: o som era pesado e distorcido; o grupo não tinha guitarrista ou um cantor bonitinho, mas um saxofonista careca, e o vocalista era um gordinho suarento e com cara de psicopata. Aliás, ninguém ali batia muito bem: Jack Bruce saiu depois que Ginger Baker o ameaçou com uma faca. Dias depois, os dois debandaram juntos e foram tocar com Eric Clapton no Cream.

O fim da GBO, em 1967, veio numa época confusa para Graham, que se viciara em heroína, demonstrava crescentes problemas mentais e estava cada vez mais obcecado com o ocultista inglês Aleister Crowley (1875-1947). Graham tinha certeza que seu verdadeiro pai era Crowley.

A partir dali, a carreira de Graham degringolou: ele casou com a cantora Diane Stewart, também devota de Crowley, com quem montou a banda Initiation e mergulhou fundo no estudo de magia negra. Uma viagem aos Estados Unidos viu Graham fazendo jams com o Grateful Dead e gravando com Screamin’ Jay Hawkins, além de lançar discos esquisitíssimos e geniais em que misturava jazz-rock, experimentações vanguardistas e letras sobre ocultismo.

Ouça a emocionante faixa “The Magician”, em um clipe com trechos do filme “Lucifer Rising”, dirigido por outro devoto de Crowley, o cineasta Kenneth Anger:

De volta à Inglaterra, falido e maluco, Graham ainda gravou dois discos maravilhosos com o amigo Ginger Baker em seu projeto Air Force. Se você não ouviu esses discos, especialmente o “2”, uma obra-prima absoluta e o mais próximo que a Inglaterra chegou de ter seu Sly and the Family Stone, sugiro ouvir hoje mesmo.

Aqui está Bond tocando órgão e cantando na faixa “12 Gates of the City”, que ele mesmo compôs (Diane, esposa de Graham, é a cantora de faixa amarela na cabeça):

Infelizmente, o emprego com Baker não durou muito. Graham continuou usando heroína e ácido, e sua condição psicológica deteriorou a ponto de amigos o internarem em um manicômio. Em 8 de maio de 1974, Graham Bond andou até a estação de metrô de Finsbury Park, em Londres, e se jogou nos trilhos. Segundo uma ótima reportagem de Kris Needs na revista “Mojo” (setembro/2016), o corpo de Graham foi identificado pelas digitais em sua ficha na polícia. Ele tinha 36 anos.

Graham Bond teve uma carreira discográfica de pouco mais de dez anos, mas tudo que ouvi dele é especial. A quem se interessar em saber mais sobre o artista, recomendo o livro “Unknown Legends of Rock and Roll” (1998), de Richie Unterberger, lançado há alguns meses em e-book, que traz um capítulo bem completo sobre a carreira de Graham Bond. Infelizmente, só em inglês.

Um ótimo fim de semana a todos.

Sobre o Autor

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da “Folha de S. Paulo”. Escreveu seis livros, incluindo “Barulho” (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV “Zé do Caixão” (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário “Maldito” (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Atualmente dirige os programas “Eletrogordo” e “Nasi Noite Adentro”, do Canal Brasil.

Sobre o Blog

Música, cinema, livros, TV, e tudo que compõe o universo da cultura pop estará no blog, atualizado às segundas, quartas e sextas.

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